Buscar
Crônica

Resistindo à IA

Para as futuras gerações saberem como se sentia alguém na soleira deste grande ponto de inflexão da história

Crônica
22 de agosto de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

E, de repente, eu me dei conta de que era o único da rodinha de amigos que nunca tinha usado nenhuma inteligência artificial.

Claro que, hoje em dia, ao dar um Google, mandar um zap, fazer uma compra – encher, enfim, o peito de ar –, estamos indiretamente usando ou alimentando alguma IA. Mas o uso deliberado de alguma suíte de IA, isso eu juro que ainda não fiz.

Também não estou aqui a dizer que nunca farei, pois pretendo continuar a integrar a população economicamente ativa por uns anos, ainda que de forma compulsória. Queria só mesmo legar à posteridade este depoimento avulso, para o caso de as futuras gerações quererem saber como se sentia alguém na soleira deste grande ponto de inflexão da história da espécie. (E também registrar que, muito antes do ChatGPT, eu já escrevia usando travessões).

Vejo pessoas ao meu redor entusiasmadas com a proliferação das IAs e penso que tamanha animação só pode ocultar alguma forma irrefletida de desespero. Estão rindo? Pois eu não estou achando graça nenhuma: eu sinto é medo.

É que, tendo, desde sempre, ganho a vida por meio da escrita conjugada a alguma capacidade de raciocínio, não posso deixar de olhar para a IA com a desconfiança com que a lavadeira à beira do rio olhou um dia para a máquina de lavar roupas. Como pode, do dia para a noite, uma geringonça qualquer ser capaz de fazer — mais, melhor, mais rápido — a única coisa que eu estudei anos e anos para fazer razoavelmente bem na vida?

Além de assustado, sinto-me só. Olho para o lado e uma amiga me revela, sussurrando: “não leva a mal”, que já prefere pagar uma suíte de IA a contratar um estagiário. Olho para o outro e uma colega me conta que conversa diariamente com sua IA personalizada, a quem explica suas angústias e desafios, obtendo dela conselhos e soluções.

Como fazer vista grossa à perversidade de uma tecnologia que substitui pessoas não apenas em funções maquínicas, mas principalmente em atividades sofisticadas? Como aceitar passivamente que o último e mais pacífico recurso de luta pela sobrevivência e ascensão social das classes trabalhadoras — a inteligência, cultivada por toda uma vida de economias investidas em educação — nos seja simplesmente surrupiado?

Sinto-me como meu avô — bancário aposentado, que tinha prazer em perambular de agência em agência, em filas, para pagar boletos — diante do internet banking.

Sinto-me como Seu Valter — ex-montador de fitas de vídeo em uma emissora de TV, que conheci como vendedor de água de coco em frente à Reitoria da UFBA — diante do advento da transmissão via satélite.

Sinto-me como o linotipista diante da impressão offset; como o copista diante da imprensa de Gutenberg; quiçá, regresso ad infinitum, como um pré-histórico carregador de pedras diante da invenção da roda.

Irmanado à angústia de cada ser humano que viu seu valor social subitamente ameaçado por uma tecnologia nova, busco ânimo para encarar a IA, refugiando-me na ideia divertida de que as máquinas jamais nos alcançarão em nossa capacidade de errar.

Porque é justamente por serem feitas para encarnar o fetiche da perfeição que as máquinas não são aptas ao erro. Experimente jogar xadrez contra uma delas: nos níveis mais elementares, comete falhas que, de tão bisonhas, chegam a ser inverossímeis; nos mais altos, acerta tanto que nos irrita, levando-nos ao desestímulo. Só o ser humano é capaz de errar do jeito certo: por cansaço, covardia ou ambição, mas sempre desejando acertar. Errando, manifestamos a imperfeição que nos torna humanos — e só a seres imperfeitos como nós é dada a maravilhosa possibilidade de sonhar.

No dia enfim em que as máquinas souberem fazer tudo; em que não for mais preciso um ser humano sequer para nada; talvez o último de nós sobre a face da terra compreenda, sozinho e inutilmente iluminado, que talvez devêssemos ter dado mais atenção aos nossos medos, aos nossos erros, aos nossos sonhos. Até lá, resistamos.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas