Buscar
Nota

Governo e bancada feminina da Câmara tentam aprovar Política Nacional de Cuidados

19 de abril de 2024
04:00
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O governo federal, em conjunto com a bancada feminina da Câmara dos Deputados, vem se articulando para aprovar a Política Nacional de Cuidados até junho deste ano, antes do recesso parlamentar. Fontes do governo afirmaram à Agência Pública que a proposta de projeto de lei elaborada pelo Executivo será enviada ao Congresso Nacional até o final de maio.

A proposta de Política Nacional de Cuidados vem sendo discutida formalmente pelo Executivo há cerca de um ano, quando, por meio de decreto presidencial, foi instituído um grupo de trabalho envolvendo 17 ministérios e entidades como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A demanda por um marco legal de cuidados é exigência antiga de movimentos da sociedade civil, que defendem a instituição da política como fundamental para a superação de desigualdades sociais.

Do lado do Legislativo, deputadas iniciaram um esforço concentrado para tentar colocar em pauta a votação de projetos sobre o tema. A articulação envolve muitas comissões, como a de Seguridade, a de Saúde, a da Mulher, a de Direitos Humanos e de Relações Exteriores – já que algumas normas convergem com tratados internacionais.

Um levantamento preliminar feito no Sistema de Informação Legislativa da Câmara dos Deputados, ao qual a Pública teve acesso, localizou 123 projetos relacionados à questão do cuidado tramitando no Congresso. As propostas abordam desde saúde mental da pessoa idosa e seus cuidadores a licenças parentais e são de autoria de parlamentares de campos políticos diversos.

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), relatora do grupo de trabalho que organiza essas ações sobre o assunto na Câmara, defendeu que o Estado e a sociedade devem reconhecer o cuidado como responsabilidade global. “O cuidado precisa ser reconhecido primeiro como um trabalho e ser reduzido do ponto de vista da demanda e sobrecarga na esfera privada. A gente até tem políticas que são pontuais, mas nunca é pensado de forma global.”

Economia do cuidado tem peso maior que agro e construção civil

A chamada “economia do cuidado” abrange ocupações com serviços domésticos, assistência social, educação, saúde e higiene, entre outras. Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV) concluiu que profissões relacionadas ao trabalho de cuidado representam 13% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. O mesmo estudo apontou também que 65% desse trabalho é realizado por mulheres. 

“Não existe naturalidade, natureza nenhuma feminina que justifique isso”, alerta Bomfim. “É o machismo, a divisão sexual do trabalho que nos coloca nessa lógica do cuidado ser um fardo e não um direito, ou uma possibilidade. E essa discussão envolve uma disputa de concepção moral e política sobre o que é ser mulher na nossa sociedade. A extrema direita, por exemplo, principalmente aquela que se organiza nas igrejas evangélicas, trabalha muito com o tema porque ele é muito concreto na vida material cotidiana das famílias, por isso é tão importante que exista uma política de Estado”, concluiu.

No seminário “Cuidado como trabalho, cuidado como direito”, realizado no dia 9 de abril pela Secretaria da Mulher, movimentos e entidades salientaram a invisibilidade, desvalorização e superexploração desse tipo de trabalho. É o caso de Lúcia Helena Conceição de Souza, 65, líder da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad). Como trabalhadora doméstica, ela acumulou diversas experiências negativas. 

Assédios, ausência de remuneração e até alimentação escassa durante o expediente fizeram parte da sua vida profissional até os 22 anos, quando sua história começou a mudar. “Trabalhei onde não tinha comida, sofria assédio e, depois de muito tempo, conheci a associação de trabalhadores domésticos e comecei a entender sobre os meus direitos, cobrar por eles”, recorda.

Ela afirma que é comum a federação receber denúncias de casos de pessoas, principalmente em cidades do interior do país, que não são remuneradas por exercer profissões relacionadas a cuidados e que muitos profissionais passam anos sem saber que teriam esse direito.

“Uma vez fui trabalhar em um condomínio e comecei a falar com as trabalhadoras domésticas e cuidadoras de lá. Nós fazíamos reuniões para conversar sobre os nossos direitos e o patrão na sala, vendo TV, diminuía o volume para tentar escutar o que a gente tava falando”, lembra Souza.

Notas mais recentes

Lula vence em seções eleitorais com local alterado, apesar de abstenção maior


Filha de Flávio Bolsonaro falta à escola há 2 dias em meio à suspeita de fuga do senador


Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band


Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países
Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo
Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE