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Fortes: “O discurso do ódio nas redes sociais foi construído pela mídia e pela oposição que ela tenta colocar no poder”

O jornalista Leandro Fortes, que coordenou as redes sociais de Dilma Rousseff e do PT, fala das eleições de 2014; para ele, uma das suas marcas foi o machismo contra a candidata

Leandro Fortes. Foto: Reprodução/Twitter

Leandro Fortes. Foto: Reprodução/Twitter

Desde que ingressou na campanha digital de Dilma Rousseff (PT) como consultor da Agência Pepper Interativa, o jornalista Leandro Fortes – que passou por diversos jornais antes de se tornar colunista da revista Carta Capital durante oito anos – deixou claro que pretendia conhecer os meandros da comunicação digital para fundar a própria agência. Durante a campanha, coordenou as páginas oficiais da presidente e do PT nas redes sociais e hoje está à frente da sua própria empresa de comunicação digital, Cobra Criada. Sem papas na língua, ele aponta o uso de difamação, robôs e likes falsos na campanha de Aécio, mas nega que a sua equipe usasse dos mesmos artifícios. “Só se havia robôs controlados pela Secom, porque as redes de Dilma e do PT nunca tiveram.” Ele aponta o machismo como um dos principais elementos dos ataques à candidata nas redes. “O elemento novo foi que a direita brasileira saiu das catacumbas e, como não estava acostumada com a luz, perdeu todos os escrúpulos, os limites e, fundamentalmente, o respeito.”

Como você avalia a campanha de Dilma Rousseff na internet? Qual foi o peso da campanha online dentro da estratégia mais ampla de campanha?

Dilma não seria eleita se não fosse a campanha digital, assim como Aécio Neves não teria chegado aonde chegou não fosse o mesmo motivo. A comunicação em rede foi, na campanha de 2014, o componente protagonista do debate político, para o bem e para mal. No caso de Dilma, logo se percebeu que apenas a vantagem de tempo em TV e rádio não era – como não foi – garantia de nada. Foi preciso criar um sistema de comunicação que incluía a transposição de todo material de campanha para o site de Dilma e, dali, para as redes sociais, sobretudo o Facebook da Dilma, principal canhão da campanha nas redes.

De maneira geral, qual foi o peso das campanhas e do debate online para os rumos da eleição? Quais foram os momentos decisivos?

Primeiro, o mais importante: graças ao espaço da internet, os candidatos, sobretudo Dilma, puderam abrir mão da intermediação exclusiva da mídia no debate político. Em 2010, foi quando essa percepção ficou muito clara, mas foi em 2014 que o uso franco desse espaço se deu. Até então, os debates de TV consolidavam o sentimento público em relação às candidaturas, o que tornava o processo dependente dos interesses da mídia e do poder econômico. O debate online trouxe outros atores da comunicação para o centro da eleição e reequilibrou aquela balança que foi quebrada, em 1989, no debate entre Lula e Collor, editado de forma criminosa pela TV Globo para favorecer o candidato da família Marinho, do latifúndio e do grande capital. Hoje, com as redes sociais, aquela farsa desmoronaria em poucas horas.

A campanha de Dilma Rousseff foi alvo de uma série de boatos que se espalharam pelas redes. Sua avaliação é que houve um tom mais agressivo nesta campanha? Que elementos novos podem-se perceber na “campanha negativa” e da “campanha de guerrilha” em 2014?

O elemento novo foi que a direita brasileira saiu das catacumbas e, como não estava acostumada com a luz, perdeu todos os escrúpulos, os limites e, fundamentalmente, o respeito. Com a ajuda da mídia e sem pudor algum, montou-se uma estrutura de assassinato de reputação, difamação e calúnia em torno da    candidatura de Aécio Neves para detonar Dilma e o PT nas redes. Para isso, usaram o esquema manjado de bater carteira e sair gritando “pega ladrão”. O grau de virulência contra Dilma também se explica por outro elemento, velho em si, mas que só agora também começou a aparecer sem disfarces nas eleições: o machismo. Duvido que essa gente que vive nas redes e, às vezes, chamando Dilma de “vagabunda” faria isso se o presidente fosse homem. Quando foi que essa classe média arauto da luta contra a corrupção se levantou para mandar FHC tomar no cu? Nunca.

Dilma Rousseff foi, por outro lado, acusada de utilizar boatos falsos, robôs e páginas pagas em sua campanha, entre diversas outras acusações semelhantes feitas por todos os partidos. Havia fundamento nisso?

Nunca houve robôs nas redes sociais de Dilma, pelo menos nas formais, que foram, em grande parte, montadas e coordenadas por mim. Isso foi uma ilação que apareceu num relatório do ex-ministro Thomas Traumann que circulou por dentro do governo até vazar para o Estadão. Thomas falou que “eles” [o PSDB] mantiveram os robôs ligados, e “nós” [o governo] desligamos os nossos… Só se havia robôs controlados pela Secom, porque as redes de Dilma e do PT nunca tiveram. Para se ter uma ideia, nos dezoito meses em que estive à frente do processo, como consultor da agência Pepper Interativa, o Facebook do PT saiu de 50.839 curtidas para 900 mil curtidas. E esse crescimento, de 1.770%, foi totalmente orgânico, ou seja, sem um único centavo aplicado em patrocínio de página e de posts. No Facebook da Dilma, esse fenômeno se repetiu, no mesmo período e da mesma forma: a fanpage saiu de 37.320 para a marca de 2,1 milhões de curtidas, um crescimento orgânico, sem robôs e sem dinheiro, de 5.627%. Toda essa informação é totalmente auditável. Mas vai dar uma olhada como funcionou o esquema de Aécio, uma enorme fachada de curtidas, mas por detrás era tudo oco, com redes de baixíssima interação, muito típico de quem enche o Facebook de patrocínios e bota a robozada para curtir.

Alguns dos sites e influenciadores que hoje comandam o discurso de direita nas redes (incluindo mobilização, apoio a causas que efetivamente retiram direitos da população etc.) já estavam presentes nas eleições. Era perceptível o aumento da mobilização de direita e do discurso do ódio?

O discurso do ódio nas redes sociais foi deliberadamente construído pela mídia e pela oposição que ela tenta, há quatro eleições, colocar no poder. Como não houve uma reação política e institucional rápida e vigorosa, essa raia-miúda pautada pela Veja e outros esgotos editoriais se empoderou e ganhou espaço no imaginário popular. O resultado é essa rotina de ódio e estupidez, dentro e fora da internet, que caminha para uma tragédia.

Na sua opinião, a temperatura do debate eleitoral influenciou no fenômeno que se seguiu meses depois nas redes, com um pico em março-abril de 2015, e cuja marca foi a proeminência do discurso de direita?

Não. O que influenciou isso foi a forma envergonhada como Dilma e o PT ganharam essa última eleição. Dilma venceu porque houve uma intensa mobilização da esquerda a seu favor, novamente pela blogosfera progressista e por ativistas digitais que compraram uma briga feia com a direita nas redes sociais. Mas, ganhas as eleições, a primeira entrevista da presidenta foi para a TV Globo, e não para a TV Brasil, uma emissora pública, de todos os brasileiros, que consome R$ 600 milhões por ano. Logo depois, veio a montagem de um ministério pífio, pressionado pelo “mercado” e com Kátia Abreu, o emblema máximo do latifúndio e de tudo de ruim que ele representa. Aí, a cachorrada sentiu o cheiro do medo e começou a babar nas redes.

O que o surpreendeu ao ir trabalhar na campanha? O que você acredita que teve um impacto negativo sobre o debate político nas redes? O que faria diferente?

Fui trabalhar na campanha depois de convidado por Danielle Fonteles, amiga de muitos anos, dona da Pepper Interativa, por sua vez, dona da conta do PT – não do governo, como muita gente confunde. Eu estava há oito anos na Carta Capital e achei interessante sair para fazer uma coisa diferente, aprender como funciona de fato a comunicação online e, é claro, ganhar mais. Mas também porque era para o PT. Sou eleitor do partido desde sempre, votei em Lula e Dilma em todas as eleições presidenciais, desde 1989, e tenho a percepção exata da importância que a chegada do PT ao poder central teve para o país. Dani me pediu para assumir as redes sociais do PT, que incluem o Facebook da Dilma, e prepará-las para as eleições de 2014. Foi o que fiz, juntamente com uma equipe montada para isso, e gostei demais de fazer. Remontamos as redes e transformamos o site do PT, que era obsoleto e incomunicável, numa agência de notícias. Fiquei surpreso, primeiro, comigo mesmo. Nunca pensei que gostaria de fazer outra coisa que não reportagem. Depois, com o baixo nível do debate nas redes, sem falar na ignorância e na má-fé. Por isso, fiz um esforço permanente para dar leveza à comunicação em rede sob minha responsabilidade, no que fui bem-sucedido. O impacto negativo sobre as redes veio, como sempre, do esqueminha mafioso comandado pela mídia, que produzia lixo automaticamente disseminado nas redes e compartilhado pelos suspeitos de sempre como arma de violência e chantagem eleitoral. Em um país com um grau ainda muito alto de analfabetismo político, o resultado está aí, como um chorume que escorre permanentemente para o mar: Revoltados Online, Marcha da Liberdade, vai pra Cuba, intervenção militar, ódio de classe, ódio de raça, ódio religioso.

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