Apoie!

Seja aliada da Pública

Seja aliada

Agência de Jornalismo Investigativo

Em todo o país haverá protesto na final da Copa das Confederações; em São Paulo, o foco é a desmilitarização da polícia que agride em remoções e atos públicos

28 de junho de 2013
Especial: Copa Pública

A final da Copa das Confederações não será jogada apenas em campo. Fora do gramado do Maracanã, repaginado a um custo de 1 bilhão de reais para abrigar a elite “com ingresso”, os comitês populares da Copa – criados para defender os interesses da população nos megaeventos – preparam manifestações no Brasil inteiro, a começar pelo Rio de Janeiro, a sede da final Brasil x Espanha.

Ali está prevista uma caminhada saindo da praça Saens Peña, na Tijuca, até o Maracanã, com encerramento na Praça Afonso Pena. As principais reivindicações são a imediata anulação da privatização do Maracanã (reformado com dinheiro público), com a reabertura e reconstrução dos equipamentos públicos em seu entorno – o Parque Aquático Julio Delamare, o Estádio de Atletismo Célio de Barros, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Friedenreich – além da devolução da Aldeia Maracanã, o antigo Museu do Índio, simbolicamente ocupado por representantes de diversas etnias.

Igualmente importante é a reivindicação pelo fim das remoções e despejos em nome da Copa e das Olimpíadas – há 11 mil pessoas que correm o risco de perder suas casas no Rio – com destaque para a permanência e urbanização da Vila Autódromo, ameaçada pela construção do Parque Olímpico, e a regularização fundiária do Horto, encravado no bairro nobre do Jardim Botânico.

“Nós estamos abertos ao diálogo com a presidenta e sempre estivemos abertos ao diálogo com os governantes. Entregamos o Plano Popular da Vila Autódromo  ao Eduardo Paes no ano passado e até hoje não tivemos resposta” diz Renato Cosentino, membro da ANCOP (Articulação Nacional dos Comitês Populares).

Em São Paulo, que não faz parte das cidades-sede da Copa das Confederações mas tem sido um dos principais palcos dos protestos que tomaram o país nas últimas semanas, a principal palavra de ordem do Comitê Popular da Copa (SP Copa) é a desmilitarização da Polícia Militar, com ênfase no protesto contra a criminalização e repressão à população decorrente dos megaeventos. Com essas bandeiras, o comitê pretende fazer um ato no domingo às 15h no Vale do Anhangabaú na Fan Fest, espaço de eventos públicos onde se realizam os jogos da Copa em São Paulo.

A desmilitarização da PM é uma pauta que “atravessa todas a outras pautas dos movimentos sociais no Brasil” diz Juliana Machado, representante do SP Copa. “As remoções forçadas é a polícia que executa; a perseguição aos ambulantes é a polícia que faz, a população de rua é a polícia que age de maneira truculenta, enfim, a própria repressão aos movimentos sociais” explica.

O Comitê Popular da Copa também lançou um manifesto destacando  que “entre 2000 e 2011, foram mais de 4.600 mortos pela PM em São Paulo, considerando apenas as denúncias que chegaram até a Ouvidoria da própria corporação”. E chama a atenção para a expansão dessa violência na onda de protestos do país: já no dia 13 de junho, nas primeiras manifestações, “200 pessoas foram presas e muitas outras feridas – entre elas, 20 jornalistas, com um deles tendo perdido a visão de um olho”.

O que, segundo o manifesto, vai se agravar na Copa 2014. A Força Nacional de Segurança, que reúne polícias militares de diversos estados, esteve presente em 5 das 6 cidades-sede da Copa das Confederações: Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza. Daqui a um ano, essas forças ocuparão as 12 cidades-sede da Copa da FIFA “e as notícias de violência nas manifestações que recebemos hoje certamente se repetirão”, afirma.

Lembrando os acontecimentos recentes em Brasília, em que o recrudescimento da repressão policial contra os manifestantes foi anunciado na segunda-feira passada pelo tenente coronel da PM Zilfrank Antero, Juliana Machado diz: “A gente tá percebendo que as forças armadas estão cada vez mais presentes no cotidiano das cidades, qualquer problema político elas são chamadas a intervir. Mas em vez de coibir a violência, a PM faz parte dessa violência”. E acrescenta: “A PM é uma instituição militar e isso faz com que tenha pouco ou nenhum controle externo”. Ou, como afirma o comunicado: “Porque não se trata de maus policiais ou de falta de preparo: é a própria existência de uma polícia com caráter militar, oriunda da ditadura também militar, que tem que ter um fim.”

Não somos contra o futebol

Criados a partir de 2010, os comitês populares estão presentes nas 12 cidades-sede da Copa 2014. E fazem questão de dizer: eles não são contra a Copa do Mundo e menos ainda contra o futebol. “Para nós o problema maior é que o Estado está se endividando mas não são os setores sociais que estão recebendo os benefícios”, enfatiza Juliana. Por isso o Comitê Popular de São Paulo incluiu uma bola e uma rede para jogar futebol durante o ato de domingo:  a brincadeira é tentar pegar o goleiro vestido de PM de surpresa, chutar a bola e marcar um gol para o povo.

Perguntada como repercutiu entre o movimento o discurso da presidenta Dilma com promessas de maior investimento em transporte, saúde e educação, plebiscito para reforma política e penas mais duras para corruptos, Juliana responde: “Nenhuma das propostas realiza aquilo que a gente precisa, ela prometeu mais dinheiro pro transporte, mas a gente não sabe se vai ser transporte público mesmo. Ela não disse nada em relação à possibilidade do transporte ser gratuito; também falou sobre um plebiscito que pode ser interessante, mas vai ser necessário esclarecer sobre o que vai ser essa reforma política”.

Sobre a posição do governo nos megaeventos é mais dura: “Com relação às demandas da Copa, a presidente mentiu. Disse que não havia gasto público na Copa, mas só no estádio Mané Garrincha houve mais de 1 bilhão de reais, e o Estado brasileiro está se endividando. A presidente deixou de falar sobre a questão da Copa porque a mídia tradicional não está ouvindo a verdadeira pauta dos movimentos sociais – os ambulantes, as remoções, a violência e o uso das forças militares na segurança desses eventos, a criação de zonas de exclusão em torno dos estádios… A presidente simplesmente não ouviu a voz das ruas”.

Além de Rio de Janeiro e São Paulo, os comitês de Salvador, Porto Alegre, Curitiba e Brasília já têm atividades de protesto programadas para o final da Copa das Confederações. Natal e Belo Horizonte ainda estavam discutindo na sexta-feira eventuais atividades para o domingo. Na capital mineira, após a violência policial durante a semifinal da Copa das Confederações nessa quarta-feira, o Comitê Popular de Atingidos pela Copa (COPAC) propôs uma atividade mais lúdica para o domingo, dia da final da competição. “Vai ter um ato, mas ainda temos que decidir isso na Assembleia Popular Horizontal hoje a noite (sexta-feira)”, diz Amanda Couto, integrante do COPAC.

Remoções, expulsão de ambulantes, gasto público: bandeiras do domingo

Em Salvador, onde ocorre a disputa pelo 3o e 4o lugar, a manifestação seguirá até o estádio Fonte Nova reivindicando transparência nos gastos públicos, legado das obras para a população, liberdade e expressão e trabalho para os ambulantes (com destaque para as baianas do acarajé) e denunciando a “higienização do centro de Salvador”, que segundo o Comitês, tem expulsado moradores de rua e prostitutas.

Na capital gaúcha, o tema central é a luta contra as remoções e está prevista uma caminhada na Avenida Tronco, onde o projeto Corredor Avenida Tronco, ligado à Copa de 2014, ameaça o direito à moradia de 4 mil pessoas, segundo levantamento da Prefeitura de Porto Alegre. Em Curitiba, onde o ato acontece no sábado, as remoções, principalmente da comunidade Nova Costeira, ameaçada pelas obras do aeroporto, também são o foco do protesto. Os moradores não querem sair dali para as unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida, como propõe o poder público. “Os moradores avaliam que as casas do Minha Casa Minha Vida são piores que as casas que eles já tem”, afirma Isabela Cunha, integrante do Comitê.

Em Brasília a manifestação está marcada para às 13h, em frente ao Conjunto Nacional. Entre as pautas dos manifestantes estão: a restituição dos R$ 2,8 milhões gastos na compra de ingressos para a final da Copa das Confederações pela TERRACAP, companhia imobiliária do governo do Distrito Federal; a restituição da verba pública gasta no estádio Mané Garrincha; o fim das remoções; o fim da exploração sexual relacionada ao mundial e a precariedade do transporte público. A manifestação vem sendo organizada pelo Comitê Popular da Copa no Distrito Federal pelo Facebook.

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Seja aliada da Pública

Faça parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doações a partir de R$ 10,00/mês.

Comentários de nossos aliados

 Ver comentários

Esta é a área de comentários dos nossos aliados, um espaço de debate para boas discussões sobre as reportagens da Pública. Veja nossa política de comentários.

Carregando…
Você precisa ser um aliado para comentar.
Fechar
Só aliados podem denunciar comentários.
Fechar

Explore também

Juruti: um pacto possível?

15 de novembro de 2012 | por

A negociação entre a multinacional Alcoa e ribeirinhos do oeste do Pará gerou um inédito acordo por “perdas e danos”, mas ainda há dúvidas sobre a viabilidade do modelo

O raio privatizador de Bolsonaro

9 de maio de 2019 | por

Um perfil do empresário que cresceu nos governos petistas enquanto apoiava as campanhas de direita e agora busca acelerar as privatizações do governo Bolsonaro, do qual participa por indicação do amigo Paulo Guedes

Conheça as vencedoras das Microbolsas sobre Criança e Água!

25 de maio de 2015 | por

Repórteres vão investigar a relação das crianças com a água em cinco estados brasileiros

Mais recentes

“Tenho acesso direto aos assessores de Mourão”, diz presidente do Clube Militar

25 de maio de 2019 | por

Às vésperas da manifestação pró-governo, general Eduardo Barbosa defende a ditadura militar, a economia liberal de Paulo Guedes e até Flávio Bolsonaro, investigado no caso Queiroz: “Causa estranheza ao se ver tanta relevância no caso”

Manifestações podem definir futuro de Bolsonaro no Congresso

24 de maio de 2019 | por

A Pública conversou com parlamentares sobre a crise entre governo e Congresso; ceticismo predomina, mas o resultado das ruas no dia 26 terá peso decisivo no futuro dessas relações

Dois anos do massacre de Pau D’Arco: mandantes ainda impunes e ameaça de despejo

24 de maio de 2019 | por

Em entrevista à Pública, a advogada Andréia Silvério, da CPT de Marabá, conta que os sobreviventes da chacina que vitimou dez trabalhadores ocupantes da fazenda Santa Lúcia em Pau D’Arco (PA) não receberam nenhum apoio do Estado, e que novos conflitos são iminentes

Login para aliados

Participe e seja aliado.

Fechar