Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Artigo

| De olho | Bancada BBB e investigados controlam CPI da Lei Rouanet

Segundo levantamento do Congresso em Foco, deputados evangélicos, ruralistas e da segurança pública e parlamentares que respondem a ações criminais dominam a comissão, que vai apurar supostos desvios na área de cultura

Artigo
7 de outubro de 2016
12:27
Este artigo tem mais de 10 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O deputado Alberto Fraga (DEM-DF), presidente da CPI da Lei Rouanet

Criada para investigar suspeitas de fraudes e outras irregularidades na concessão de incentivos fiscais para a cultura, a CPI da Lei Rouanet está nas mãos de três numerosas bancadas: a evangélica, a ruralista e a da segurança pública. Também é possível citar uma quarta – a dos investigados. Dos 45 deputados que participam da comissão parlamentar de inquérito, entre titulares e suplentes, apenas seis não se enquadram em pelo menos uma dessas quatro categorias.

Por atuarem em conjunto na Câmara desde o início da legislatura, as três primeiras bancadas foram apelidadas de BBB – em alusão não ao famoso reality show, mas à bíblia, aos bois e à bala. Compõem a CPI 26 parlamentares evangélicos – oito deles, pastores de igreja –, 19 ruralistas e 11 integrantes da Frente Parlamentar da Segurança Pública, entre eles, cinco policiais (confira o perfil dos parlamentares).

A comissão que tem como tarefa investigar possíveis desvios na área da cultura também reúne deputados com contas a acertar com a Justiça. Um em cada três deles é alvo de acusações criminais no Supremo Tribunal Federal (STF) como corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de dinheiro público. Entre os 15 investigados, sete já são réus em ações penais. Nesses casos, a Procuradoria-Geral da República e os ministros do Supremo entenderam que há indícios de que eles tenham cometido crimes.

Entre os integrantes da comissão, ninguém responde a mais acusações na CPI do que o seu próprio presidente, Alberto Fraga (DEM-DF), coautor do pedido que criou o colegiado. Coordenador da bancada da bala, o deputado mais votado do Distrito Federal nas últimas eleições também faz parte das frentes parlamentares evangélica e do agronegócio. Coronel reformado da Polícia Militar, Fraga é réu em quatro ações penais e investigado em outros dois inquéritos no Supremo.

Em 2013, ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a quatro anos de prisão e pagamento de multa, sentença convertida em prestação de serviços à comunidade, por porte ilegal de arma de fogo e de munições de uso restrito. O deputado recorreu e o caso tramita agora no Supremo.

A investigação foi aberta após a Polícia Federal encontrar, em um flat de sua propriedade, um revólver calibre 357 Magnum, de uso restrito das Forças Armadas. Além de seis projéteis para a arma, ainda havia mais 283 munições de uso restrito (145 de calibre 9 mm, marca Magtech; 92 de .40, marcas CBC e Magtech; e 46 calibre 357 Magnum), bem como 1.112 munições de arma de fogo de uso permitido. Fraga minimiza as acusações e diz seus processos serão arquivados.

Juntos e misturados

Desde o início da legislatura, quando aumentaram suas representações na Câmara, as bancadas da bala, dos ruralistas e dos evangélicos passaram a atuar em conjunto, incentivadas pelo ex-presidente da Casa Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Com ele, retiraram das gavetas propostas polêmicas como os estatutos do Desarmamento e da Família e a PEC que transfere para o Congresso a autonomia para a demarcação das terras indígenas.

Responsável pelo pedido de criação da CPI ao lado de Fraga, o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) diz que a formação da comissão reflete o perfil da atual Câmara, considerada a mais conservadora das últimas décadas, e a articulação da bancada BBB com o propósito de investigar as irregularidades cometidas nos governos do PT. “Nós somos menos parlamentares do que os outros? Essas três frentes trabalham como um paredão contra tudo o que o PT fez contra o país. Não tenha dúvida, vamos trabalhar juntos”, disse o pastor da Assembleia de Deus, que é um dos parlamentares mais próximos do líder religioso Silas Malafaia ao Congresso em Foco.

Para Sóstenes, ninguém tem mais capacidade para discutir problemas da cultura do que os evangélicos. “Os grandes incentivadores da cultura no mundo têm origem no protestantismo, desde a cultura musical, nas formações dos corais, de teatro. A maioria dos músicos, bandas de músicas no Brasil foi formada nas igrejas. Isso é um preconceito de quem quer rotular quem é da bancada da bíblia, como é meu caso”, afirmou. “A palavra conservadora, particularmente, não ofende. Tenho isso como bandeira de mandato”, ressaltou.

Na avaliação dele, a presença maciça de deputados das bancadas ruralista, evangélica e da bala mostra que esses parlamentares trabalham mais do que os outros. “A bancada BBB trabalha mais que os outros deputados. Por que os outros deputados não foram indicados pelos seus líderes? Tem gente que só cumpre tabela, participa de duas comissões e mais nada. Participo de 11. Depois quer reclamar da bancada BBB?”

No ano passado, por indicação de Eduardo Cunha, Sóstenes presidiu a comissão especial que aprovou o chamado Estatuto da Família, projeto que reconhece como família apenas a união entre homem e mulher. O texto, que causa polêmica, está parado no plenário.

Fundamentalismo

Conhecida pelos embates com as bancadas evangélica, ruralista e da bala, a deputada Erika Kokay (PT-DF) vê na CPI a tentativa de desqualificar os movimentos culturais. “Os fundamentalistas, sejam os patrimonialistas, os religiosos ou os punitivos, se alimentam de um absolutismo. As únicas ideias que existem são as deles. Eles não suportam o outro, que haja um pensamento diferente. Portanto, têm muita repulsa aos movimentos culturais”, critica a petista, que é suplente na comissão e alvo de dois inquéritos em andamento no Supremo.

Na avaliação de Erika, as investigações serão utilizadas para atacar a gestão petista à frente da Cultura e não para investigar a fundo eventuais irregularidades no uso da lei de incentivos fiscais. “A CPI surge em um momento em que havia uma resistência muito grande aos movimentos culturais e o governo extinguia o Ministério da Cultura. Ela vem da tentativa de se buscar instrumentos para enfrentar e desqualificar o movimento cultural. Ela não vem com seriedade do ponto de vista de investigar”, emendou.

No dia da instalação da CPI, o Ministério da Cultura soltou nota pedindo equilíbrio aos parlamentares para que não criminalizassem a Lei Rouanet. “A lei está criminalizada pelas práticas de crime e mau uso da lei. O ministro tem de atentar para isso. Os parlamentares petistas que temem a verdadeira investigação do mau uso da lei vão fazer mimimi e chororô na CPI”, rebateu Sóstenes. “Somos parceiros do ministro da Cultura para investigar e punir o passado. Espero que no presente não tenha nada errado – se tiver, não hesitaremos em fazê-lo”, emendou.

Segundo o deputado, o objetivo é propor, em 120 dias, uma revisão da lei de incentivo à cultura, e não extingui-la. Na justificativa para a abertura das investigações, Fraga e Sóstenes citaram desde incentivos fiscais em favor do funkeiro MC Guimê a produções teatrais voltadas ao público infantil, como Peppa Pig e Shrek. Captações milionárias para cantores como Cláudia Leitte e Luan Santana também são mencionadas. No requerimento, os deputados alegam que o governo federal renunciou a receitas de R$ 5 bilhões nos últimos quatro anos com base na lei.

Os autores da CPI também destacam relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) que questionou a captação de R$ 12,3 milhões na modalidade patrocínio pelos organizadores do Rock in Rio 2011. O ministro relator do processo, Augusto Sherman, classificou a autorização, na época, como uma “inversão de prioridades, com o possível desvirtuamento do sentido da lei de incentivo à cultura”, por se tratar de um evento altamente lucrativo.

Convites e convocações

Na reunião da última quarta-feira, a CPI decidiu convidar o atual ministro da Cultura, Marcelo Calero, e seus três antecessores para prestar depoimento. Também foram convidados os ex-ministros Gilberto Gil, Marta Suplicy e Juca Ferreira, que comandaram a pasta nos governos Lula e Dilma. Na primeira reunião destinada a votações, a comissão definiu seu relator, o evangélico Domingos Sávio (PSDB-MG), e aprovou outros requerimentos de convite e compartilhamento de informações.

Os deputados resolveram, entre outras coisas, pedir acesso à íntegra do inquérito policial da Operação Boca Livre, que resultou na prisão de acusados de fraudar a Lei Rouanet. As convocações ficaram para a próxima reunião. O primeiro item da pauta é o pedido de Sóstenes para convocar o ator José de Abreu. O deputado questiona a contratação de um espetáculo teatral de Zé de Abreu, o “Fala, Zé”, com captação de recursos pela Lei Rouanet. O ator, que hoje mora na França, atribui a convocação a uma perseguição por suas posições político-partidárias e às discussões públicas que travou com Silas Malafaia, considerado padrinho político de Sóstenes.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas