Agência de Jornalismo Investigativo

Em 14 meses de operações comandadas por militares, moradores da Rocinha sofrem com tiroteios e choram mortes de parentes e vizinhos; sintomas de doenças mentais decorrentes da violência cotidiana são cada vez mais frequentes

14 de novembro de 2018

“Bom dia grupo possível operação pela manhã. Vamos aguardar então cuidado.” Às 2h03 da madrugada, o celular vibra e ilumina o quarto escuro de quem já dormia. A mensagem é do Alerta Rocinha 24hs, grupo de WhatsApp que reúne cerca de 130 moradores de uma das maiores favelas do Brasil. Criado em janeiro deste ano, sua função principal é a troca de informações sobre os tiroteios que acontecem na favela para orientar os moradores sobre como proceder. Nas mensagens predominam notícias de crimes, invasões de facções a diversas comunidades e imagens de mortos e feridos pela violência no Rio.

A sensação de medo é permanente por aqui e as pessoas têm que se virar, não apenas para driblar o perigo, mas também para tentar manter a sanidade mental. A favela centenária que nasceu “junto ao mar, num morro que ainda era despovoado, que dividia a Gávea e São Conrado” – como cantava João Nogueira – convive há décadas com a violência entre polícia e tráfico de drogas, mas a situação se tornou insuportável a partir de 17 de setembro de 2017, quando um racha em uma facção criminosa ocasionou sete horas seguidas de tiroteio e terror. Desde então, a comunidade que abriga 32 sub-bairros se tornou uma espécie de terra de ninguém.

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Alerta Rocinha 24hs, grupo de WhatsApp reúne cerca de 130 moradores de uma das maiores favelas do Brasil

Famosa pela paisagem deslumbrante, que atraía grande fluxo de turistas, e pelo farto comércio aberto 24 horas por dia, a Rocinha viveu nos últimos 14 meses uma rotina de confrontos armados, assaltos e violações de direitos dos moradores. A guerra deflagrada pelo processo de mudança de comando local que, migrou do ADA (rachado) para o CV, deixou um banho de sangue e cenas bárbaras de violência que ainda assombram as telas dos celulares. Provocou também a primeira de quatro ocupações das Forças Armadas na comunidade antes do decreto da intervenção federal; depois foram mais 11 operações policiais comandadas pelas Forças Armadas, três delas integradas (com participação direta dos militares).

Decretada em 16 de fevereiro de 2018, a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, sob o comando do general Braga Netto, não trouxe alívio para quem vive ali – ao contrário. A Agência Pública ouviu 21 moradores e profissionais que trabalham na Rocinha entre agosto e setembro, e a maioria relatou que durante todo o período de ocupação dos militares – incluindo as operações de policiais apoiadas pelo Exército nos meses pós-intervenção – a sensação de insegurança aumentou: os tiroteios continuam intensos e os episódios de abusos policiais são frequentes.

De junho de 2017 a setembro de 2018, os moradores da Rocinha enfrentaram 257 tiroteios registrados no aplicativo Fogo Cruzado, uma média de um tiroteio a cada dois dias. Os números mostram também que houve, sim, uma queda de 18% no número de tiroteios de fevereiro a setembro de 2018, quando a Rocinha dividiu com a Cidade de Deus o topo do ranking no número de operações militares e ações policiais no Rio. De junho de 2017 a janeiro de 2018 foram 141 tiroteios contra 116 tiroteios nos oito meses de intervenção. Os furtos na área da Ciso 11 – Circunscrição Integrada de Segurança Pública –, que abrange a Rocinha, também caíram 14% de fevereiro a setembro de 2018.

As ocorrências violentas, porém, continuam altas. Entre fevereiro e setembro 20 pessoas foram mortas na comunidade durante os tiroteios, de acordo com o Fogo Cruzado. Só em março, o mês mais violento, foram 26 confrontos que resultaram em 13 mortos. Oito deles foram assassinados no mesmo dia 24, durante uma operação do Batalhão de Choque na saída de um baile funk. Uma das vítimas era Matheus Duarte de Oliveira, de 19 anos, que trabalhava como dançarino em um projeto social. Nos grupos de WhatsApp da comunidade a operação foi relacionada à morte do PM Filipe Santos de Mesquita, baleado quatro vezes em um confronto com traficantes no dia 21 de março. O mesmo tiroteio que matou o policial vitimou ainda Seu Marechal, apelido pelo qual era conhecido o morador Antônio Ferreira da Silva, de 70 anos. Alguns dias depois, Deivison Farias de Moura, de 28 anos, foi baleado e morto na localidade da Vila Verde, enquanto segurava o filho de 6 meses no colo.

Uma corrente de medo e sofrimento envolve a maior favela do Brasil – as organizações locais contabilizam mais de 100 mil moradores, embora o Censo mais recente, de 2010, registre pouco mais de 60 mil. Em meio à guerra entre traficantes e forças do Estado, os moradores se arriscam para levar os filhos à escola, a avó à igreja, frequentar o comércio, escolas, escritórios – e muitos ainda têm que descer e subir o morro todos os dias para estudar ou trabalhar nos bairros de maior poder aquisitivo que rodeiam a favela, que fica entre a zona sul e a Barra da Tijuca. É por essa localização também que a Rocinha é importante no varejo de drogas, como nota o ex-comandante-geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Íbis Pereira. “A Rocinha é um lugar muito disputado pelo tráfico, estratégico.” O equívoco, ele diz, é combater o tráfico diretamente ali, em vez de recorrer à inteligência policial para chegar aos grandes distribuidores. “Nós estamos direcionando a máquina de repressão para o varejo, e o varejo acontece na periferia, na favela”, diz.

Mais afetados do que soldados no front

Além do risco que representam os tiroteios nas ruelas estreitas e superpovoadas das favelas, viver em meio a essa violência cotidiana traz um impacto tremendo para a saúde dos moradores da Rocinha e de outros territórios conflagrados. A pesquisa, ainda inédita, “Impactos da violência armada nas condições de vida de moradores de favelas da cidade do Rio de Janeiro”, realizada pela Fiocruz, entrevistou moradores das favelas do Jacarezinho, Manguinhos e Maré para saber o peso da violência em suas vidas. O sofrimento psíquico foi um dos principais impactos apontados por eles, acarretado principalmente por notícias de homicídios de amigos, conhecidos ou vizinhos, além de agressões de policiais. Cerca de 80% dos entrevistados disseram que a violência armada afeta sua saúde, a de suas famílias e de pessoas próximas.

Para o psiquiatra, professor da UFRJ e pesquisador do Laboratório Integrado de Pesquisas sobre Stress (Linpes/UFRJ) William Berger, a vivência em territórios conflagrados pode ser mais nociva para a saúde mental de moradores de favela do que para um soldado em front de guerra: “O cotidiano dos moradores da Rocinha é pior do que, por exemplo, o de um soldado norte-americano, onde a maioria dos estudos é desenvolvida. Um soldado que vai atuar nas operações do Irã ou do Iraque é treinado para aquilo. Ele tem um suporte. Ele vai para a missão e volta. A população civil não tem treinamento para isso. Eles estão numa situação de impotência muito maior”.

Ele explica que o estresse e o medo a que os moradores das zonas de conflito estão expostos cotidianamente provocam efeitos físicos, como a produção excessiva de adrenalina, que aumenta a pressão arterial e causa dores de cabeça, tensão muscular e problemas gastrointestinais. Também são gatilhos para transtornos mentais: estima-se que metade dos moradores das favelas cariocas sofra de depressão. Em um contexto dramático como o atual, o quadro se agrava. “É evidente que uma cidade mais violenta produz mais sofrimento nas pessoas, produz mais dor”, reconhece Hugo Fernandes, superintendente de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde. Segundo ele, 20% das demandas de saúde em todo o mundo estão relacionadas a questões de cunho psicológico. “É como se todo mundo tivesse uma mochila e, conforme vai vivenciando experiências difíceis na vida, vai colocando pedra, acumulando peso nas suas costas. Chega uma hora que essa mochila explode”, explica Fernanda Serpeloni, pesquisadora colaboradora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Fiocruz).

“Eu tô sempre com medo, entendeu?”

A primeira coisa que a auxiliar de limpeza Sandra faz ao acordar é pegar o celular e checar através dos grupos como está o movimento da favela. “Estou sempre com medo, entendeu?”, afirma a moradora de 47 anos. Foi ela que enviou a mensagem de alerta na madrugada para o grupo de WhatsApp da Rocinha, citado no começo desta reportagem. Nascida e criada na favela, ela é mãe de duas filhas e a mais ativa administradora do Alerta Rocinha 24hs. Sandra já esteve à frente ainda de outro grupo, onde interagia com os moradores do Vidigal – ambas as comunidades ocupam as encostas do morro Dois Irmãos, um dos cartões-postais do Rio de Janeiro.

Para viver em um território conflagrado, “estar ligado” é mais que uma gíria: é questão de sobrevivência. Notícias da aproximação de viaturas policiais repassadas pelos que estão dentro ou fora da favela, e mesmo os fogos disparados por traficantes (para comunicar a presença da polícia), são indícios de iminência de confronto. Em caso de tiroteio, buscar abrigo é imprescindível, mesmo dentro de casa, onde as pessoas procuram os cômodos mais seguros. O uso de fones de ouvido em dias mais tensos não é recomendado, assim como a circulação em certas áreas da favela, independentemente do movimento. É o caso das localidades da rua 2, Valão, Vila Verde e 99, que concentram quase metade de todos os conflitos vividos na Rocinha de fevereiro a setembro de 2018.

Sandra fica muito nervosa quando acontecem tiroteios. Teme, principalmente, pela segurança das duas filhas. As três mulheres viveram momentos difíceis quando moraram no final da rua 2 durante os anos 2015 e 2016, época em que a Rocinha vivia confrontos constantes entre traficantes e policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), instalada na favela em 2012. A fachada da antiga casa de Sandra está toda perfurada de balas. O beco onde a família vivia está praticamente inabitado, conta a estudante de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Vitória, uma das filhas. “A gente viveu coisas ali que abalaram muito o psicológico da minha mãe”, acredita. Ela já pensou em procurar ajuda psicológica para a mãe, mas não chegou a falar com ninguém.

Vitória não é a única. Para além do estigma de que psicólogo e psiquiatra são “coisa de maluco”, a naturalização da violência também é citada como motivo para que muitos habitantes da Rocinha deixem de relatar sintomas como insônia, pesadelos, ansiedade, pânico durante atendimentos médicos. É comum que as pessoas digam não se impressionar com tiroteios, o que não deixa de ser uma espécie de estratégia de defesa, como diz a psicóloga Maria (nome alterado para preservar a identidade), moradora de Vila Verde, uma das áreas mais violentas da Rocinha. “A gente vive num estado de guerra constante. A gente normatiza isso, de alguma forma, para manter a nossa saúde psíquica e os nossos afazeres”, diz. Como exemplo, ela conta que foi pega distraída por um tiroteio e ao passar por um gari que limpava calmamente a rua ouviu: “Ih, aqui todo dia é esse pagode”.

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Vitória, filha de Sandra, pensou em procurar ajuda psicológica para a mãe, mas não chegou a falar com ninguém

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, há três unidades de atenção primária na Rocinha: o Centro Municipal de Saúde Dr. Albert Sabin, o Centro de Cidadania Rinaldo de Lamare e a Clínica da Família Maria do Socorro, que faz parte de um complexo de saúde composto também por uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e pelo Centro de Atenção Psicossocial III (Caps III) – este especializado em atendimento a transtornos mentais moderados e graves – os transtornos mais leves são atendidos nas unidades de atenção primária. “Você tem até acesso gratuito ao psicólogo, mas precisa estar surtando, sabe? Isso não é acessível”, critica o estudante de audiovisual João Eliel, de 21 anos. Ele diz que já pensou em buscar tratamento psicológico particular para ele e para a sobrinha, que não está conseguindo superar a perda de um parente próximo, mas não tem recursos. “Às vezes, eu não tenho dinheiro da passagem para ir para o curso ou trabalhar, então eu vi que não tenho esse luxo. A gente não tem suporte emocional. Precisa aprender na marra mesmo.”

Cada uma das três unidades de atenção primária tem três profissionais que acompanham casos leves e moderados de sofrimento psíquico: um médico psiquiatra, um psicólogo e um assistente social. Ou seja, apenas nove profissionais ligados à saúde mental cuidam da população inteira da Rocinha nas três unidades municipais de saúde da favela, que felizmente não vai sofrer com os cortes de 184 equipes de Saúde da Família anunciados pela prefeitura. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, porém, também não há planos para ampliar as equipes.
De janeiro a setembro de 2018, 60 novos usuários procuraram espontaneamente o Caps com sintomas como tristeza, depressão leve e moderada, transtorno de ansiedade, transtorno do pânico e reação aguda ao estresse. Outros foram diagnosticados nos consultórios dos clínicos gerais das próprias Clínicas da Família, a partir de sintomas associados a problemas físicos. É o caso de ansiedade e depressão, que costumam surgir conectadas a pressão alta, desânimo, insônia, taquicardia, cansaço, esquecimento, dificuldade de concentração e sudorese excessiva.

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João Eliel já pensou em buscar tratamento psicológico particular para ele e para a sobrinha, que não está conseguindo superar a perda de um parente próximo, mas não tem recursos

Todos os novos pacientes enquadrados como portadores de transtornos leves são encaminhados para tratamento na Clínica da Família e ambulatório, sob os cuidados do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf).
“A rede de saúde mental que a gente tem nesses territórios, principalmente os Caps, é muito curta. A população é muito extensa e você tem poucos profissionais. [A rede] deveria ser ampliada”, explica Leonardo Bueno, pesquisador da Coordenação de Cooperação Social da Fiocruz e um dos responsáveis pelo estudo da fundação sobre impactos da violência em moradores de favela.

Agravamento dos problemas de saúde mental

A psiquiatra Joana Thiesen trabalha na Clínica da Família Maria do Socorro (onde está o Caps III) e no Centro Municipal de Saúde Dr. Albert Sabin e também na CF Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, localizada em uma favela em Copacabana, zona sul do Rio. No Albert Sabin, Joana coordena grupos de terapia comunitária que atendem de 15 a 20 pessoas, sempre acima dos 15 anos de idade. Ela também faz atendimentos em domicílio para usuários com dificuldades de locomoção ou que resistem a comparecer às unidades para seguir o tratamento – nesse caso com autorização da família. Com um público fluido, nem sempre assíduo, os frequentadores da terapia comunitária são, na maioria, mulheres. “As mulheres, em geral, se tratam mais, buscam mais os serviços de saúde”, explica a psiquiatra. Entre as estratégias terapêuticas, está o mindfulness, técnica de meditação e relaxamento utilizada nos sistemas públicos de saúde de países como Inglaterra, Espanha e Canadá.

Desde que os conflitos se acirraram, a partir de setembro de 2017, houve um agravamento dos problemas de saúde mental na Rocinha, especialmente com piora no quadro de pacientes que já se tratavam e o surgimento de novos usuários, segundo Joana. A maioria sofre de síndrome do pânico, depressão e ansiedade, muitas vezes associadas entre si. “As pessoas têm entendido que sofrimento mental também precisa de tratamento”, afirma. O que a preocupa mais são os pacientes diagnosticados com doenças mentais, que já fazem uso da medicação, e se desequilibram com os episódios de violência.

Com portas abertas 24 horas por dia, o Caps III atende portadores de esquizofrenia e de transtorno bipolar, por exemplo, que, além de verem sua condição agravada, muitas vezes não conseguem ir até lá durante os picos de violência. “Diante do aumento da vulnerabilidade, dessa mudança drástica do cotidiano, de fato, os usuários entram em delírio. Se tem um confronto, ficam com mais dificuldade de chegar ao Caps”, explica o coordenador técnico Felipe Abdias.

Com 1.195 clientes cadastrados desde 2010, o centro registrou uma queda de 45% de novos usuários no último ano, exatamente quando a violência se agravou. Isso porque a circulação no território se tornou mais difícil, segundo Felipe. Nos momentos mais sangrentos da guerra de 2017, profissionais e pacientes do Complexo de Saúde ficaram no meio de um tiroteio entre policiais e traficantes. Tiros perfuraram as paredes e o encanamento da UPA. Seis agentes de segurança do Estado invadiram a unidade para se abrigar dos disparos, em um cenário de caos total. A equipe ficou desfalcada – 75% dos profissionais não conseguiram comparecer ao local de trabalho. Os atendimentos de saúde mental tiveram que ser temporariamente transferidos para o Caps III Franco Basaglia, em Botafogo. O Coletivo dos Trabalhadores do Caps III chegou a entrar em greve e lançar uma carta aberta para falar da insegurança. Uma profissional da rede que trabalha na Rocinha e pediu para não ser identificada relembra a época: “Ir ao trabalho era muito difícil. Eu me sentia vulnerável. Hoje melhorou, mas ainda me sinto assim”.

Tanto unidades de saúde quanto escolas públicas utilizam o Acesso Mais Seguro, metodologia desenvolvida pela Cruz Vermelha para estabelecer protocolos de comportamento criados pelas próprias equipes e adaptados à realidade local, para garantir a segurança de profissionais e usuários. Buscar áreas mais seguras dos prédios e fechar as portas das unidades pode fazer parte das diretrizes. Os profissionais costumam se comunicar também pelo WhatsApp.

Violações de direitos pela polícia

“É muito louco você pensar que eu tenho que me precaver de sair de casa vendo toda hora um grupo do WhatsApp, para ver se o tiroteio está ou não está acontecendo”, explica o jornalista e ativista social Eduardo Carvalho, de 20 anos. Ele é um dos participantes, ao lado dos youtubers Spartakus Santiago e AD Junior, de um vídeo viral que explicava a jovens negros como sobreviver a uma abordagem indevida. Apesar da importância dos grupos de WhatsApp e Facebook para se proteger da violência, muita gente na Rocinha não participa das redes sociais para evitar as suspeitas da polícia – que frequentemente faz buscas ilegais em celulares de “suspeitos”.

Alvos preferenciais das revistas policiais e vítimas de 71,5% dos homicídios no Brasil (Atlas da Violência 2018), os meninos da Rocinha evitam usar capuz, roupas pretas e ostentar marcas para não chamar atenção. Outras recomendações são não correr, não ser grosseiro e prestar atenção a seus pertences quando parados pela polícia, já que não são raros os relatos de flagrantes forjados de drogas e armas.

Segundo levantamento do Observatório da Intervenção (CeSeC/Ucam), a Rocinha ocupa o segundo lugar em violências e violações de direitos no Rio durante a intervenção federal – atrás apenas da Cidade de Deus. Foram dez casos entre fevereiro e agosto. Só o Defezap, plataforma de denúncias de violência cometida pelo Estado, registrou seis no período entre março e junho. Quatro delas foram encaminhadas para o Ministério Público do Rio de Janeiro.

O Relatório Parcial do Circuito Favelas por Direitos, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, levantou 30 tipos de agressões físicas e psicológicas recorrentes nas comunidades cariocas no período da intervenção federal na segurança pública do Rio. Invasões a domicílio, furtos, danos ao patrimônio, assédio, vasculha de celular, disparos a esmo, operações em horário escolar e flagrantes forjados fazem parte de alguns relatos. A Rocinha foi um dos primeiros locais visitados pela equipe. “É garantia da ordem com redução de direitos”, resume o ouvidor da Defensoria Pedro Strozenberg.

Em nota, a Secretaria de Estado de Segurança (Seseg) informa a publicação no Diário Oficial, em 2 de outubro, da Instrução Normativa nº 03, “que estabelece o aprimoramento dos atos normativos das Polícias Civil e Militar, referentes aos protocolos operacionais para áreas sensíveis, localidades onde se presume que possa ocorrer elevado risco de confronto armado com criminosos em decorrência de uma operação policial. Um dos principais princípios da Instrução Normativa é proteger a vida dos moradores dessas regiões”.

A artesã Ana Letícia Souza conta que vivenciou muitas dessas violências durante sua vida na comunidade. Nada, porém, comparável ao que aconteceu no dia 26 de março deste ano, quando ela diz ter sido agredida, xingada de “macaca” e detida por policiais no largo do Boiadeiro ao filmar uma abordagem abusiva: “Eu estava indo pro curso. Vi um rapaz sendo abordado por três policiais, agredido de forma hostil. Ele me pediu ajuda, então, resolvi filmar. O policial viu que eu estava filmando, veio ao meu encontro me chamando de ‘macaca’, me xingando de várias coisas e me agrediu. Ele tomou o celular da minha mão, jogou minha bolsa no chão e não devolveu. Tentou me algemar e eu resisti”, lembra. Ana Letícia contou à Pública que um dos agentes chegou até a disparar dois tiros contra eles, mas, por sorte, ela diz, errou. Segundo ela, o celular que usava para fazer a gravação das violações não foi devolvido mesmo depois de ser liberada da delegacia. O caso ganhou repercussão na imprensa. “Eu não conhecia o moço que tava sendo abordado, mas não pensei duas vezes”, afirma. Ana Letícia respondeu a um processo criminal, já arquivado, por desacato, resistência e lesão corporal.

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Ana Letícia Souza, amiga de infância do pedreiro Amarildo, até hoje precisa tomar Rivotril para conseguir dormir

“Os agentes [policiais] costumam fazer isso para se safar da responsabilidade”, explica a defensora Lívia Casseres, que faz parte do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos e do Núcleo Contra a Desigualdade Racial da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, e que prepara uma ação indenizatória em virtude dos excessos sofridos por Ana Letícia. O Ministério Público ainda apura as denúncias de abuso e racismo por parte dos policiais. Procurada, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro informou apenas que a investigação do caso ficou a cargo da 11ª DP (Rocinha).

Passados quase sete meses do episódio, a moradora diz que ainda sofre com estresse e insônia por causa do trauma. Amiga de infância do pedreiro Amarildo, que ganhou notoriedade na imprensa ao ser sequestrado e morto por policiais da UPP em 2013, Ana Letícia diz que fica nervosa quando ouve tiros e se sente acuada ao andar pela comunidade, principalmente ao cruzar com policiais e soldados das Forças Armadas. A moradora de 44 anos fazia trabalhos como modelo e vendia bijuterias feitas por ela em feiras de artesanato, mas tem deixado de trabalhar por não se sentir segura. Ela já sofria com crises de depressão antes dos eventos de março, o que só agravou o quadro. Até hoje precisa tomar Rivotril para conseguir dormir, conta. As lembranças daquele dia e de outras cenas dramáticas que presencia como moradora de uma das regiões mais perigosas da comunidade transbordam da realidade para pesadelos recorrentes. “O pesadelo é uma forma de processar o que se viveu durante o dia. São informações muito terríveis”, explica Paula Ventura, professora associada do Instituto de Psicologia e da pós-graduação do Instituto de Psiquiatria e coordenadora do Laboratório de Psicologia de Trauma e Medo (Linpes/UFRJ). Segundo ela, esse é um sintoma típico de quadros de transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Outro sintoma recorrente é a sensação de ameaça permanente, como, por exemplo, de ser atingido por bala perdida em casa, explica o psiquiatra William Berger. “Um dos sintomas do TEPT é uma sensação de perigo generalizada, uma hipervigilância, um comportamento ‘evitativo’ de toda a sensação que lembre o [motivo do] estresse pós-traumático.” O transtorno tem prevalência de 8% na população em geral. Ele está associado a outros problemas, como ansiedade, depressão e doenças crônicas, como diversos tipos de dores e problemas cardiovasculares. “Até pela questão do quadro psiquiátrico, essas pessoas se tratam menos. Elas têm uma sobrevida menor. A presença do TEPT e outros transtornos mentais também é um complicador grave para o tratamento de várias doenças clínicas”.

Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria da UFRJ revelou que apenas 2,4% dos casos de TEPT do ambulatório geral são, de fato, identificados. De acordo com a psiquiatra Joana, por ter critérios muito específicos, o diagnóstico de pessoas com transtorno do estresse pós-traumático não é comum na favela. Para Berger, é necessário que agentes de saúde, médicos e psicólogos conheçam a doença. “É muito importante que essas pessoas conheçam os critérios de diagnóstico, saibam fazer o diagnóstico de TEPT e perguntem ativamente durante as suas consultas se eles [os pacientes] têm sequelas psiquiátricas da violência”, alerta.

Coisas que crianças não falam

O episódio vivido por Ana Letícia em março afetou principalmente o neto Matheus, que passa boa parte do tempo com ela enquanto a mãe, Miriam, trabalha. “Ele ficou muito revoltado e falou coisas que uma criança de 8 anos não fala. Eu acho que as coisas que acontecem onde a gente mora refletem muito, principalmente em quem ainda está se formando”, opina a mãe, que tentou fazer tratamento psicológico para ajudá-lo a lidar com o ambiente duro da comunidade. Ela acabou não se adaptando à terapia de grupo oferecida no Complexo Esportivo da Rocinha.

Como muitas crianças de favela, Matheus sabe distinguir o calibre dos tiros pelo barulho. Uma das brincadeiras frequentes do menino, seu melhor amigo e muitos outros garotos na Rocinha é disputar quem vai ser o “dono do morro”, uma versão contemporânea do velho jogo de polícia e ladrão. Segundo a psicopedagoga e professora Rafaela Agra, as crianças tendem a reproduzir o que veem e o que ouvem onde vivem. É papel do educador mostrar que há outros caminhos. “O mais importante é não ignorar, fingir que não acontece, que é normal. Não é”, explica. Matheus gosta de cinema e teatro e sonha em ir para os Estados Unidos e ser jogador de futebol, mas sua insistência em apontar traficantes como referências de respeito e poder fez com que a escola chamasse Miriam duas vezes para conversar. Agora, a mãe tenta ocupar o tempo dele com atividades esportivas. Mas não há como esquecer a violência. Em dias de confronto na favela, o próprio Matheus grava vídeos dele e da irmã e envia para a mãe, procurando tranquilizá-la. Ela lamenta: “É uma coisa horrível, né? Uma criança crescer num lugar assim… É um lugar hostil, você nunca sabe o que pode acontecer”. Os tiroteios são o maior medo de Matheus: “Eu acho que não é legal porque pode matar uma criança de bala perdida”, ele diz.

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Miriam é a mãe de Matheus

Valentina, a irmã mais nova de Matheus, tem 3 anos e já aprendeu a temer a violência. “Minha neta tem pavor. Ela fica com medo. Quando começa a escutar tiro, tampa o ouvido e se esconde”, conta Ana Letícia. Não são raras as vezes em que protocolos internos de segurança precisam ser acionados na creche evangélica onde a menina passa parte de seu dia, como se abrigar em áreas que estão longe do alcance das balas.

Quando entrevistados pela reportagem, já fazia dois meses que Matheus e Ana Letícia aguardavam vaga para iniciar o tratamento psicológico gratuito oferecido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), localizada na Gávea, próximo à Rocinha.

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Os tiroteios são o maior medo de Matheus: “Eu acho que não é legal porque pode matar uma criança de bala perdida”, ele diz

Crianças afetadas pela violência armada de territórios conflagrados podem apresentar agressividade acima da média, dispersão, baixa autoestima e agitação, além de possíveis dificuldades de aprendizagem. “Isso pode estar ligado a uma forma de a criança fugir daquilo que ela vive”, explica Rafaela Agra. Os conflitos interferem também, principalmente, em crianças de 6 e 7 anos, que estão se alfabetizando para trocar a educação infantil pelo ensino fundamental. Apoio psicológico integrado da escola à família é fundamental nesse processo, mas a falta de equipes multidisciplinares, compostas por psicopedagogos e psicólogos, e a dificuldade no acesso aos serviços públicos de saúde mental atrapalham o desenvolvimento de crianças.

Como diz a moradora e educadora Leidy Martins, com 17 anos de experiência nas escolas do território: “Não existe estratégia, planejamento, quando se pensa em incursão policial no que diz respeito às escolas. Não deveria haver de maneira nenhuma incursão no momento de entrada e saída das crianças”, diz. Depois da guerra de 2017, Leidy viu colegas de profissão se mudarem ou começarem a tomar calmantes para lidar com um cotidiano que inclui unidades escolares atingidas por tiros disparados pela polícia do alto do helicóptero blindado, conhecido como “caveirão voador”, e profissionais em meio do fogo cruzado para chegar ao trabalho. “As pessoas estão nas suas casas, construíram, trabalharam anos, e, do nada, fica impraticável de ir e vir. A gente não vive num país que tenha guerra. Mas ali a gente começou a viver um cenário de guerra”, lamenta.

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Leidy faz tratamento psicoterapêutico privado, porque nunca foi orientada a receber atendimento nas unidades de saúde pública da comunidade

Ela mesma teve insônia e foi parar no hospital várias vezes em outubro de 2017. Apesar de nunca mais ter vivido nada parecido com o dia da invasão do grupo do ex-chefe local Nem aos pontos de controle do traficante Rogério 157, o trauma psicológico claramente persiste: “Agora, tá melhor, mas quando a gente fala, revive, é angustiante”, explica a educadora, com os olhos marejados. Ela faz tratamento psicoterapêutico privado, porque nunca foi orientada a receber atendimento nas unidades de saúde pública da comunidade. Hoje, a educadora estuda direito. Quer sair da educação e também da Rocinha. Sua casa foi assaltada seis vezes desde 2016.

O luto de Adriana e Thaylon

As lembranças de Deivison, o Dedê, estão espalhadas pela casa. Seus chinelos continuam ao lado da porta, suas roupas ainda estão no armário e os porta-retratos se espalham pelo quarto e sala onde viveu seu último ano de vida com a mulher, a cuidadora de idosos e técnica de enfermagem Adriana Santos, e o filho Thaylon. A viúva se recusa a se referir ao marido no passado. Diz não querer pensar que ele está morto.

Deivison Farias de Moura foi baleado no peito em 29 de março. Ele segurava nos braços o filho, então com 6 meses de idade, enquanto conversava com os irmãos na varanda da casa da mãe, na localidade da Vila Verde. A família iniciava os preparativos para os festejos de Páscoa. Deivison havia passado a tarde limpando os peixes que os irmãos tinham pescado naquele dia e planejava sair com a mulher no dia seguinte, uma Sexta-feira Santa, para comprar os ovos de Páscoa dos sobrinhos. Mas não houve almoço no feriado para a família Farias, que enterrou o rapaz de 28 anos um dia antes do domingo de Páscoa.

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Mãe e esposa de Deivison

“Sexta-feira Santa, pra mim, não vai existir mais. Natal, Ano-Novo… Acabou pra mim”, afirma Marlene Farias, mãe de Deivison. A família acusa policiais do Batalhão de Choque de terem feito os disparos que tiraram a vida dele. Testemunhas afirmam que policiais atiraram três vezes na direção da varanda de dona Marlene com uma arma de mira. As investigações seguem em curso na Delegacia de Homicídios. Segundo Lívia Casseres, que também cuida do caso, cerca de 20 a 30 policiais já foram ouvidos. Eles alegam que os tiros não partiram da polícia.

Deivison e Adriana estavam juntos havia dez anos. A história do casal começou na adolescência, quando se conheceram numa festa de família. Deivison vivia da renda de uma casa que possuía na Vila Verde e biscates, além de dividir com a esposa os cuidados com Thaylon. Apesar de muito pequeno, a mãe acredita que o menino sofreu reflexos do trauma de perder o pai de maneira tão abrupta. Ele deixou de chupar chupeta no dia da morte de Deivison e se assusta com ruídos altos, provavelmente como memória do ocorrido. Suas primas mais velhas já ficavam desesperadas com barulho de fogos antes mesmo do falecimento do tio.

Hoje com 1 ano, Thaylon já reconhece o pai pelas fotos. O vínculo com a mãe ficou mais forte – ele se debulha em lágrimas quando a mãe tem que deixá-lo. Para aplacar a saudade, a viúva de 26 anos ainda calça os chinelos do marido. Uma camisa usada por ele no dia da tragédia permanece no guarda-roupa e acompanha Adriana aonde quer que ela vá. Ela diz que o menino só dorme se tiver a roupa do pai por perto. Marlene busca forças nos filhos e netos para seguir em frente. “Eu só não caí em depressão porque tenho a família que está me dando apoio. Mas não sai da mente”, conta.

Marlene Farias é a única da família que está fazendo algum tipo de tratamento psicológico. Ela procurou ajuda na Clínica da Família Rinaldo de Lamare e recebeu como resposta uma receita cheia de remédios, que a deixavam “grogue”. Abandonou o tratamento e, há três meses, participa de um grupo de apoio de mães de vítimas da violência.

Adriana chegou a ir a uma sessão com um psicólogo, mas abandonou o tratamento. Também não cogita buscar conforto na religião, conforme a recomendação do marido na época do falecimento de seu pai. “Eu sou muito prática e muito forte, como ele era. Eu sou frágil também, mas eu sou muito de me resolver sozinha.” Apesar do sofrimento, ela não pensa em sair da Rocinha. “É o lugar onde eu vou criar o meu filho, independente de qualquer coisa. Foi aqui que estavam os nossos planos. Eu só peço proteção ao meu marido e a Deus, se ele existir.”

Quem sai não quer voltar

Sair da Rocinha por causa da violência se tornou uma aspiração cada vez mais comum no último ano. Corretores de imóveis locais afirmam que a procura por aluguel diminuiu e que as vendas de imóveis na Rocinha caíram cerca de 70% nos últimos 12 meses. O comércio também encolheu, o que se reflete na retração de locações de imóveis comerciais. Muitas famílias de nordestinos, que compõem boa parte da população da Rocinha, já foram embora. É o caso dos familiares do vendedor de roupas e estudante de publicidade Egberto Queiroz, vítima de bala perdida dentro de casa, quando tomava banho para ir ao trabalho em 8 de outubro de 2017. Até hoje, não se sabe de onde partiu o tiro – a Polícia Civil afirma que as investigações seguem em andamento na 11ª DP (Rocinha). O projétil ainda está alojado em seu ombro. A situação abalou toda a família. Sua madrasta e uma prima voltaram para o interior do Ceará no primeiro semestre de 2018. O pai fez o mesmo caminho em setembro, deixando para trás 26 anos de Rocinha, filhos e casa própria.

Egberto ainda sente muito desconforto ao lembrar que, além do horror de tomar um tiro no chuveiro, teve que recorrer aos vizinhos para conseguir chegar ao Hospital Miguel Couto. Lá, afirma ter ouvido de um médico durante o procedimento: “Se você fosse negro, estaria algemado”. Isso o fez pensar em racismo e na maneira com que a violência atinge quem vive nas comunidades. “Ser morador de favela, ser vítima de bala perdida e ser tratado como bandido é muito complicado”, contou ele em entrevista à Pública. O jovem, que se define como brincalhão e alto-astral, passou 15 dias fora da Rocinha depois do incidente. Não queria voltar. Tinha medo de qualquer barulho similar a tiros, coisa que nunca havia sentido antes. “Infelizmente, achava normal. É uma coisa que acontece tanto que acaba incluído na nossa rotina. Não é pra ser assim”, reflete.

Julianne Gouveia/Agência Pública
Essa foto não pode ser publicada separadamente
Estima-se que metade dos moradores das favelas cariocas sofra de depressão

Egberto não sai de casa sem consultar o aplicativo OTT  (Onde Tem Tiroteio). Ele também não circula em áreas mais tensas da favela, como a rua 2. Os passeios com a namorada dentro e fora da favela deixaram de ser frequentes. Apesar do trauma, o rapaz não procurou ajuda psicológica. Diz que o medo o impede de tratar do assunto. Seu maior sonho é sair da Rocinha, mas as dificuldades financeiras ainda não permitem. Ele não acredita que a situação da comunidade tenha solução a curto prazo. “Essa ‘intervenção militar’ é uma maquiagem. É um jogo de cartas marcadas que não vai ter fim. Nem na Rocinha nem em qualquer outro lugar”, completa.

Maria está casada há oito anos e quer ter um filho. Mas, para isso, sente que precisa sair da favela por temer pela segurança da família que quer formar: “Eu vou enlouquecer. Enquanto a gente não tiver condições pra sair de lá, não tenho filho”.

Os que ficam na cidade e conseguem mudar têm como principal destino as favelas da Muzema e Tijuquinha, localizadas no bairro do Itanhangá, bem próximo dali. Ambas são comunidades mais novas, onde há casas maiores a preços convidativos e, sobretudo, menos violência. O analista de vendas Diego André, de 30 anos, trocou a casa da família na Rocinha por um condomínio fechado na Favela da Muzema, em novembro do ano passado, depois que a rotina de tiroteios se tornou insustentável, principalmente para sua esposa, que é da Paraíba. Ela chorava e tremia durante os confrontos. Bala perdida era o maior medo do casal. A gota d’água foi o dia em que a polícia entrou revistou sua casa, que ficava na localidade do Trampolim. Hoje, Diego mantém contato com os familiares por telefone e sempre esbarra com conhecidos da Rocinha no novo endereço. Mas espera que sua passagem pela nova comunidade também seja temporária. “Não quero criar filhos [na Muzema]. A gente não sabe o dia de amanhã daqui, por ser uma comunidade”, resume.

Esse texto é resultado da Microbolsa de Violência Policial, realizado pela Agência Pública e a Conectas Direitos Humanos

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