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Filha de ambientalista morto foi vítima três vezes dos agrotóxicos

Nossa reportagem acompanhou Marcia Xavier, cujo pai foi morto por lutar contra pesticidas no Ceará, a uma audiência no Congresso

Reportagem
8 de julho de 2019
10:03
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Will Shutter/ Câmara dos Deputados

A família de Marcia Xavier é vítima direta dos problemas gerados pelo uso de agrotóxicos. Sua filha sofre com puberdade precoce causada, segundo uma pesquisa, pelo uso indiscriminado de agrotóxicos na cidade onde vive, em Limoeiro do Norte, na Chapada do Apodi (Ceará). Já seu pai, o líder comunitário e ambientalista José Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, foi assassinado em abril de 2010 – um mês após ser aprovada uma lei municipal que vetava a pulverização de pesticidas nas lavouras da região.

Quando chegou a Brasília na segunda-feira, 1º de julho, para participar de uma audiência pública na Câmara dos Deputados sobre o uso de agrotóxicos em sua cidade, Marcia Xavier não esperava que ela também teria de falar sobre uma notícia divulgada no dia anterior: o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou uma decisão que, na prática, absolveu os supostos mandantes da execução de seu pai.

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“Claro que fui pega de surpresa… Mas eu cresci vendo meu pai nessa luta. Ele sempre dizia: ‘É uma briga de cachorro grande com cachorro vira-lata’. Eu sempre tive esse pensamento: não vai dar em nada porque são pessoas grandes que estão por trás [da execução dele]”, disse, emocionada.

Antes de ser assassinado, Zé Maria lutava para impedir que as empresas produtoras de frutas parassem de contaminar o solo e a água com os pesticidas.

“Sou vítima três vezes do agrotóxico. A luta do meu pai começou justamente com a contaminação da água, quando eu tive um problema de pele por causa disso. Depois, foi com o seu assassinato. E também com a minha filha, que desde 1 ano e 3 meses sofre com puberdade precoce. Hoje ela tem 7 anos.”

A audiência na Câmara dos Deputados foi motivada pela revelação, feita pela Repórter Brasil, de que agrotóxicos podem causar puberdade precoce – como é o caso da filha de Marcia Xavier e de pelo menos outras duas meninas que moram no local. Quando ainda eram bebês, elas foram diagnosticadas com telarca prematura, a primeira fase do desenvolvimento das mamas.

Durante a pesquisa, os pais ouvidos citaram o uso de agrotóxicos como ingredientes como o acefato – substância proibida na União Européia desde 2003, que provoca desregulação endócrina e que, por sua vez, pode ser a causa da puberdade precoce.

Outro pesticida citado pelos entrevistados é o glifosato que, devido a novas evidências científicas internacionais indicando que o composto é capaz de causar câncer, há um intenso debate na União Europeia sobre a proibição. Alguns países já começaram a limitar o consumo, com a meta de criar alternativas.

‘Sou vítima três vezes do agrotóxico’, diz Marcia Xavier, em audiência sobre a puberdade precoce em bebês causada por agrotóxico

‘Sistema adoecedor’

Além de Xavier, também estava presente na audiência Puberdade precoce em bebês, causada pela contaminação por agrotóxicos da Comissão de Legislação Participativa da Câmara a médica responsável pelas pesquisas sobre o impacto do agrotóxico na região do Apodi, como sua tese intitulada “Más-formações congênitas, puberdade precoce e agrotóxico: uma herança maldita do agrotóxico para a Chapada do Apodi (CE)”.

Ada Aguiar ressaltou a importância de tratar o problema do agrotóxico a partir da perspectiva das pessoas que vivem no campo.

“As pessoas estão sofrendo e morrendo por esse sistema adoecedor. É importante a gente lembrar que essas pessoas têm nome e sobrenome. Lembrar de tantos trabalhadores, moradores e crianças que estão sendo afetadas por esse modelo”, disse a médica.

Em Limoeiro, um estudo identificou ingredientes ativos para agrotóxicos no sangue e na urina das crianças e familiares, assim como na água que chega às suas casas

Uma década de processo

No STJ, a decisão assinada pelo ministro Felix Fischer julgou recurso apresentado pelo Ministério Público do Ceará – um dos últimos capítulos desses quase dez anos desde o assassinato.

O processo jurídico sobre o crime ganhou força apenas em junho de 2012, quando a 1ª Vara da Comarca de Limoeiro do Norte acatou a denúncia do MP cearense contra os supostos mandantes, que seriam ligados a uma empresa produtora de frutas. O Ministério Público também denunciou outros quatro suspeitos, que teriam participado do crime.

Em 2015, a Justiça indiciou três pessoas como réus e ficou determinado que os eles fossem a júri popular.

Mas dois anos depois, após um recurso por parte dos réus, o Tribunal de Justiça (TJ) do Ceará reverteu a indicação dos dois supostos mandantes. Com isso, em termos práticos, ambos foram absolvidos. O júri popular foi mantido para um dos acusados de participar do assassinato – mas ainda não há data marcada

“Lamentavelmente, a situação segue o padrão do Judiciário brasileiro em crimes semelhantes: impunidade para mandantes, especialmente quando empresários influentes, e punição para participantes e executores, geralmente pessoas simples e humildes”, afirmou, em nota, o Movimento 21, que reúne movimentos sociais e instituições acadêmicas da região.

O advogado da família de Zé Maria, Claudio Silva, que é membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB, disse à Repórter Brasil e Agência Pública que as chances de um recurso contra a decisão são remotas e que o caso agora será levado para instâncias internacionais.

No fim de seu depoimento na audiência, que aconteceu no dia 2 de julho, em Brasília, Marcia Xavier fez um desabafo sobre a absolvição dos supostos mandantes do assassinato de seu pai. “Os empresários envolvidos no assassinato do meu pai estão impunes. E aí fica a pergunta: quem matou o Zé Maria?”

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

Will Shutter/ Câmara dos Deputados
Lunae Parracho/Repórter Brasil

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