Em meio à rebelião popular que já dura quase 5 meses, Gabriela Curinao fala da grande marcha planejada para o 8M com bandeiras específicas como o direito ao aborto seguro e o fim da violência de gênero

Em meio à rebelião popular que já dura quase 5 meses, Gabriela Curinao fala da grande marcha planejada para o 8M com bandeiras específicas como o direito ao aborto seguro e o fim da violência de gênero

6 de março de 2020
16:34

Às vésperas de completar cinco meses vivendo uma rebelião popular, o Chile terá, neste domingo 8 de março, data que marca o Dia Internacional da Luta das Mulheres, mais uma grande marcha, desta vez com foco exclusivo na demanda das mulheres chilenas.

As manifestações no país tiveram início com protestos de secundaristas, e rapidamente se espalharam para todas as camadas sociais. A principal pauta do movimento hoje é a elaboração de uma nova Constituição, que deixe para trás a atual legislação, cunhada no período da ditadura militar chilena. Entre notícias de centenas de milhares de pessoas nas ruas, muitas gravemente feridas pela repressão policial, chamou a atenção internacional o protagonismo dos indígenas Mapuche nas manifestações.

Em entrevista à Agência Pública, a representante Mapuche Gabriela Curinao, secretária de organização da Associação de Mulheres Rurais e Indígenas (Anamuri), fala sobre o papel das mulheres indígenas nesse processo histórico. Para ela, os últimos cinco meses tem sido um reconhecimento de justiça por séculos de resistência precedida pelos povos originários.

“Tivemos e temos um papel fundamental nesse movimento porque o levante do povo chileno está fortemente sustentado pela luta das mulheres indígenas”, afirma. Não só o protagonismo das mulheres tem chamado a atenção nas manifestações, mas também a violência contra elas. Gabriela relata que a maioria dos casos de desaparecimentos, durante os protestos, são de mulheres, e também enumera casos de assédio sexual contra as manifestantes.

Você poderia explicar como funciona a sua organização, a Anamuri?

A Anamuri agrupa mulheres do campo, urbanas e indígenas de quase todos os povos originários reconhecidos no Chile. Desde o limite com Peru e Bolívia até o sul extremo. Somos mais de 5 mil mulheres em nível nacional. Eu sou parte do diretório da Anamuri, parte das mulheres Mapuche e a diretora da organização.

O nosso objetivo principal é trabalhar com o desenvolvimento integral das comunidades rurais e indígenas, e isso se faz pelo desenvolvimento do reconhecimento internacional. Trabalhamos com diferentes metodologia, informação, formação sociopolítica, temos frente de produtoras somente com mulheres, artesãs, erveiras.

Você acredita que há similaridade entre as lutas das mulheres chilenas e das mulheres de outros países latino-americanos que enfrentam regimes conservadores, como o Brasil?

Estamos informadas sobre a realidade que vivem nossas irmãs indígenas em outros rincões do continente. Nesse aspecto, como você bem disse, relacionado ao Brasil, temos um governo parecido em termos de planos neoliberais que aplicam uma política, um capitalismo extrativista em cima dos nossos territórios, e se caracteriza em ser patriarcal e absolutamente racista com nossos povos e especificamente com as mulheres indígenas.

Nesse ponto, a realidade chilena é muito similar com a de vocês. Em termos de território e população somos muito menores, mas a realidade é exatamente a mesma.

Acho que posso destacar que atualmente no Chile, sendo Mapuche, e como povo Mapuche, nós estamos passando por algo antigo. O modelo neoliberal chileno foi colocado a partir do governo Pinochet [General e ditador Augusto Pinochet] nos anos 1970. Mas para nós, Mapuche, como povo original do território, é uma colonização que vem desde a invasão.

Desde esse período estamos fazendo a luta contra o sistema opressor no Chile. As mulheres Mapuche sempre foram parte dessa resistência. Evidentemente isso nunca foi registrado nos livros, na história. Mas também sempre continuamos a luta do dia-a-dia, com nossos registros.

Nesse sentido, a realidade atual do Chile se iniciou em outubro do ano passado. Para a gente, inicialmente, veio o sentimento de justiça. A organização a que eu pertenço existe há mais de 20 anos e, obviamente, durante todo esse período estamos vivendo essa luta, de forma organizada, buscando resistir a esse sistema capitalista. Então já nos manifestávamos contra as políticas do governo, a privatização do nosso território e da água, os acordos de livre comércio, e pelo fim do abuso ao corpo das mulheres e dos povos originários.

No ano passado, houve um reconhecimento, para nós, de o que estávamos fazendo há tanto tempo, não está perdido. Porque chegou um momento em que o povo chileno não resistiu mais às mesmas injustiças. A realidade do chileno e da chilena comum é uma realidade sem direito à educação, à saúde, a um trabalho digno. Todos esses direitos básicos fundamentais não são entendidos assim, mas como meritocracia. E temos que pagar por tudo isso, por alimentação, por vestimenta, pelo mais básico.

Então, a realidade de indígenas, mulheres, LGBT, jovens, adultos, homens é que você nasce nesse país em um modelo implantado para hipotecar sua vida. Então você nasce praticamente para sustentar um sistema econômico, pagar, pagar, pagar, e termina de pagar um pouco antes de deixar esse mundo.

Evidentemente, chegou um momento em que o Chile despertou, com consciência humana, espiritual, política, quando espontaneamente a população se levantou. Quem iniciou foram os estudantes secundaristas, jovens de 15, 16 anos, que se levantaram contra o pagamento da tarifa do metrô, que é caríssima, é mais de um dólar para a população geral.

Com ações concretas massivas eles incentivaram o levante da população em geral. Inicialmente os grandes teóricos entenderam que era uma pulsão jovem sem sentido, mas eles se levantaram contra a realidade concreta em que vivem suas famílias. Veem que falta alimento, que suas avós não tem dinheiro para comprar remédio. Então não foi apenas pela tarifa do metrô, mas contra o poder econômico e político. O dinheiro, em definitivo. Cinco famílias aqui tem o capital contra todas as famílias. O Chile é um dos países mais desiguais do mundo.

Então o que eu destaco para o mundo é que este país que se mostrava por décadas como uma das vanguardas da América, um exemplo de modelo econômico, não é assim. Para nós não é um modelo a se seguir, e sim um sistema econômico que leva à pobreza econômica e espiritual.

As pessoas não são felizes no Chile porque vivem essa realidade deplorável. Então estamos muito contentes porque não estamos mais tão sozinhas, a maioria da população no Chile está nas ruas e isso já dura cinco meses praticamente. Já é uma rebelião social – o governo tem 6% de aprovação atualmente.

E você acredita que as mulheres indígenas são as mais afetadas por esse projeto de governo?

Sim, absolutamente, há um impacto especial nas mulheres. Pensando na interseccionalidade, é muito mais duro quando se é mulher, e mais duro ainda quando se é indígena. Isso porque se aplicam três fatores: há uma violência econômica, mas também há um patriarcado, e também é um modelo racista. Assim, as mulheres indígenas são as mais afetadas, esse modelo nos radicaliza e nos determina na nossa condição de sermos mulheres indígenas, então, por isso, a vida é muito mais dura.

Especificamente esse sistema capitalista e extrativista tem sua base nos territórios, em comunidades indígenas, e quem são as que estão nessas comunidades? São as mulheres que resistem a esse sistema, a essa opressão no território, a esse modelo capitalista, mas também resistem com seus corpos: nas comunidades há também um machismo que oprime as mulheres. Há uma violência nos territórios que recebemos como indígenas mas também a que recebemos como mulher.

Os homens indígenas historicamente também foram perseguidos, oprimidos, explorados. Mas seguem sendo as mulheres as que fazem esse papel da reprodução da vida familiar, de donas de casa, responsáveis pelo cuidado, saúde, educação. Por isso a resistência é muito mais exigente. São muitos âmbitos da vida que a mulher tem que resolver. As mulheres indígenas, silenciosamente, estão todos os dias resistindo para poder sobreviver a essa realidade, isso não sai na televisão.

Sempre há uma tendência, entre as mulheres, à preocupação com os outros. E durante todo o ciclo vital, as mulheres indígenas crescem com uma aprendizagem do cuidado dos outros. Dos irmãos quando se é pequena, depois do marido, depois dos filhos e filhas, netos e netas, depois dos pais. Um ciclo vital que se caracteriza por estar dedicado a cuidar dos outros. Então é uma resistência muito mais difícil.

E como você vê o papel das mulheres indígenas nas manifestações?

Observamos um reconhecimento do nosso povo Mapuche, com o hastear da bandeira Mapuche em todas as manifestações, sem precedentes, nunca nada foi visto assim. Se via a bandeira, mas em uma proporção mais baixa. Nas ruas também se escutava os instrumentos mapuches. Nesse sentido, nós como mulheres em geral, mas também como mulheres indígenas, sentimos que temos um papel fundamental porque este levante do povo chileno foi precedido e está muito fortemente sustentado pela luta dos indígenas e das mulheres.

O Chile está se preparando para uma grande marcha massiva que vamos fazer nesse domingo, 8 de março. Então nós mulheres Mapuche temos um papel fundamental nessa rebelião social, temos uma compreensão da realidade que é única nossa.

A demanda fundamental que surgiu é a mudança da Constituição que existe no Chile desde a ditadura de Pinochet. Queremos que haja um processo constituinte para elaborar uma nova Constituição para esse país. Porque, evidentemente, se o país é uma democracia, não podemos seguir com uma Constituição que nasceu na ditadura, com base nesse modelo econômico. E acreditamos que as mulheres indígenas tem que ser parte durante todo o processo.

Faz dois dias que foi aprovado no nosso parlamento a reserva de cotas para mulher nas candidaturas. Por outro lado, queremos também a garantia das cotas para os povos originários. Então nesse processo constituinte vamos como povo originário e como mulheres. Exigimos nossa participação porque é necessário que nosso entendimento distinto do mundo esteja representado. Eu acredito fielmente na mudança no mundo e que as mulheres podem salvar este mundo que se encontra em condições deploráveis.

Os protestos tem sido muito violentos, e muitas pessoas foram feridas pela polícia chilena. Essa violência também está afetando, especialmente, as mulheres?

Sim, claro, a reação do governo tem sido, por um lado, deixar de validar o processo, dizer que há uma infiltração externa. Por outro lado, há a opressão da polícia, e ela se reflete nos informes de todas as agências de notícias de direitos humanos internacionais. Há mortos, há mutilados, mais de 100 mil prisões, repressões diretas na rua, e são os jovens e as jovens que estão em conflito direto com a polícia na rua.

Nesse aspecto, a realidade das mulheres é muito mais cruel. Em geral, se um homem vai a uma manifestação pode ser detido, roubado, reprimido. Mas as mulheres saem na rua e não sabem se irão voltar. Tivemos muitas violações de mulheres e desaparecimento de mulheres. E são violações são específicas porque sermos mulheres.

Temos manuais para as mulheres, indicando como podemos nos proteger enquanto estamos na rua simplesmente transitando e sobretudo em uma manifestação. É autocuidado, cuidamos umas às outras.

Estão ocorrendo violações sexuais pela parte da polícia?

Sim, com certeza. Temos muitos relatos disso, denunciados também no sistema jurídico. Assédio e abuso principalmente. É super habitual. Imagina, o governo, acreditando estar dando um sinal de entendimento da realidade das mulheres, anunciou que na grande Marcha do 8M haverá 1.700 mulheres policiais nas manifestações neste domingo. Só mulheres, das quais acredito que 1000 estarão em Santiago. Por serem mulheres policiais entende-se que haverá um resguardo maior das mulheres então é um bom sinal. Mas uma dessas policiais já deu entrevista falando que não se reconhece como feminista, então há também essa postura, e nós sabemos que é uma questão de marketing, não há o entendimento profundo da realidade da mulher.

Faz uma semana que o Piñera [presidente Sebastián Piñera] anunciou a promulgação da lei Gabriela. Se chama Gabriela porque tem a ver com a tipificação do feminicídio, ela foi uma jovem assassinada, em sua casa, junto à sua mãe. Até o trâmite desta lei, no Chile, o feminicídio era reconhecido apenas como marco de uma relação passional, no presente ou no passado.

No discurso, Piñera, com a ministra das Mulheres do seu lado esquerdo e sua esposa do lado direito, disse que é muito importante também a atitude das mulheres porque o problema não tem apenas a ver com os homens, mas com a disposição das mulheres a serem violentadas, abusadas! Não há nenhum conhecimento da realidade concreta, nenhuma mulher violentada é violentada por que quer, nenhuma mulher que aborta o faz por que quer. Então esse é o desconhecimento da realidade das mulheres no país em geral, agora imagina em relação às mulheres indígenas.

E quais são as outras principais bandeiras desta marcha do 8 de março?

Imagino que haverá bandeiras pelo aborto livre seguro e gratuito. Essa é uma bandeira de luta de hoje em dia. Não temos essa garantia e é uma demanda cada vez mais alta entre as mulheres em geral. Nessa marcha, evidentemente, vamos enquanto mulheres indígenas. Mas temos pautas gerais em relação a todas as mulheres do país, especificamente os temas da violência. E tudo o que tem a ver especificamente com o processo constituinte. A proposta do governo não é a assembleia constituinte que o povo quer. Queremos passar por um processo soberano em que o povo participe. Tudo isso vai estar refletido nas mulheres neste 8M. Somos muitas, distintas, mas tem uma frase muito bonita, que temos visto nas manifestações, que é “nos queremos livres, seguras e tranquilas”.

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Esta entrevista faz parte do especial 8M: Mulheres latinas enfrentam onda conservadora. Acesse aqui todas as entrevistas.

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