No país em que dez mulheres são assassinadas por dia, feministas tomarão as ruas no 8M e planejam uma paralização para o dia 9, para chamar atenção para o que consideram uma emergência nacional

No país em que dez mulheres são assassinadas por dia, feministas tomarão as ruas no 8M e planejam uma paralização para o dia 9, para chamar atenção para o que consideram uma emergência nacional

6 de março de 2020
16:35

No próximo 8 de Março, quando as mexicanas saírem às ruas para o Dia Internacional da Mulher, não será a primeira manifestação feminista de impacto ao longo dos últimos meses. No país em que dez mulheres são assassinadas em média por dia, em um crescimento de 137% do número de casos nos últimos cinco anos, a mobilização de grupos feministas tem se fortalecido em reação à crescente onda de violência de gênero, que muitas vezes resulta em impunidade.

Há menos de um mês, em 15 de fevereiro, centenas de mulheres saíram às ruas vestidas de preto, protestando contra o feminicídio de Ingrid Escamilla, de 25 anos, que foi mutilada pelo companheiro e teve imagens de seu corpo divulgadas em veículos de imprensa do país. Meses antes, em agosto de 2019, outro protesto ocupou as ruas contra a violência e por direitos, em reação ao estupro de uma jovem de 17 anos, que teria sido violentada por quatro policiais.

No 8 de Março mexicano, além do aborto livre, seguro e gratuito e o questionamento sobre a misoginia estrutural, os crescentes e brutais feminicídios e a inação governamental estarão no centro da pauta. Primeiro mandatário de esquerda da história do México, o presidente López Obrador está no centro das críticas. “Me parece que o governo de López Obrador  resolveu não dar atenção à emergência nacional que vivemos, sobretudo os feminicídios, os crimes de ódios, os estupros, os sequestros. Ele tem sido muito neutro nesse tema”, afirma Fernanda Acosta, porta-voz do coletivo feminista Brujas del Mar.

Nascido há menos de um ano em Veracruz, estado mexicano dominado pelo narcotráfico e com alto índice de violência contra a mulher, o coletivo ganhou notoriedade por impulsionar uma segunda manifestação no México, que vai ocorrer na próxima segunda, 9 de março. A paralisação nacional é convocada nas redes sociais com as hashtags #UnDíaSinMujeres e #UnDíaSinNosotras, e incentiva todas as mexicanas a não ir ao trabalho e à escola e nem sair às ruas ao longo do dia.

Em entrevista à Agência Pública, a porta-voz do coletivo aborda a luta das mulheres na América Latina e as principais demandas do movimento feminista no México.

O México enfrenta casos crescentes de feminicídio. O que explica essa onda de assassinatos de mulheres?

Essa onda de assassinatos pode ser vista de muitos lados. O abandono das instituições especializadas no atendimento desses crimes de ódio contra as mulheres que são os feminicídios. Governos que não têm em sua agenda resguardar a integridade das mulheres – não somente esse governo, mas todos que passaram pela nossa trajetória. Não estivemos em suas prioridades, tampouco estava em suas intenções garantir a segurança das mulheres e os direitos que temos como cidadãs.

A onda de feminicídios está se agravando. Antes se matavam nove mulheres por dia, agora são de 10 a 12 em média, e parece que a violência de gênero está cada vez mais próxima. Não somente a vemos na TV, nos meios de comunicação, mas cada vez mais a vivemos, porque uma amiga passou, uma prima, uma irmã e mesmo nós já passamos por episódios. Já chegou em um ponto em que isso se converteu em uma emergência nacional, e o mais triste é que as autoridades não dão atenção.

O narcotráfico influencia nesse cenário?

Claro que o narcotráfico influencia, porque temos uma cultura na qual ele foi glamorizado. Se coloca uma imagem de muito poder, e não somente um poder nas drogas e na questão política, mas também um poder que cresce sobre as mulheres. As mulheres que vemos nas séries também são mulheres com certos padrões de beleza, cabelo longo, corpo com curvas. Mulheres que são exploradas. Esta parte não vemos, mas é bastante preocupante. Mulheres que são exploradas em Tlaxcala (região do México onde há intenso tráfico sexual), a prostituição… Claro que influi, porque estamos em um país que é território do narcotráfico, sobretudo no nosso estado de Veracruz, onde operam sete cartéis.

O México é governado por um presidente de esquerda. Como López Obrador tem respondido às demandas feministas e aos feminicídios? O que tem sido feito para mudar essa realidade?

O fato de sermos governados por um presidente de esquerda não necessariamente faz com que ele atenda às necessidades e à urgência que temos como mulheres. Me parece que o governo de López Obrador resolveu não colocar atenção à emergência nacional que vivemos, sobretudo os feminicídios, os crimes de ódios, os estupros, os sequestros. Ele tem sido muito neutro nesse tema.

Nós, como mulheres, temos agido de diversas maneiras, temos nos manifestado, na dança, na poesia, manifestações pacíficas, e, ao não ter uma resposta, temos tido que encontrar outras maneiras. Bem, esperamos estar na agenda do presidente, que ele possa ver que o que estamos vivendo é real, que não é normal que morram no México de 10 a 12 mulheres por dia e que as autoridades não ajam na prevenção com protocolos que possam assegurar a nossa segurança.

Quais são as principais demandas das mulheres mexicanas neste 8 de Março?

Queremos fazer visíveis os papéis que impomos às mulheres na sociedade, em todos os âmbitos. No âmbito social, acadêmico, empresarial, educativo, a ausência de mulheres que temos em algumas funções. Romper a estabilidade desse sistema que é capitalista, mas é também patriarcal, que está nos oprimindo há muitos anos.

Empatizar com as mães de meninas e mulheres que foram vítimas de feminicídio, que estão buscando justiça para suas filhas e que não encontram uma resposta, que estão há três, quatro, cinco anos buscando uma resposta, investigando por conta própria, porque os agressores estão soltos e não houve uma resposta contundente.

Desejamos refletir, como sociedade, sobre a violência de gênero que estamos atravessando. Como eu disse, é uma emergência nacional, algo que saiu do controle e que tem que ser combatido desde a raiz.

E também confrontar as esferas de poder, todos os partidos e atores políticos, todos os mandatários, inclusive o presidente, e as empresas que agora querem se aproveitar do movimento, fazendo uma campanha de marketing para seu próprio benefício.

No dia 8 de março, vamos realizar diferentes atividades em nível nacional, em várias cidades.

Vocês também estão organizando uma manifestação para segunda, dia 9 de março, certo? O que vai acontecer e quais as expectativas de vocês?

O dia 9 de março é dia das mulheres pararem, não trabalharem. O que esperamos dessa manifestação é que o governo e todos os seus integrantes possam atender os nossos direitos como mulheres. Queremos legalizar o aborto seguro e gratuito em nível nacional, a criação de uma procuradoria especializada para a investigação de feminicídios, que tenha protocolos estabelecidos, que funcione de verdade para prevenir e erradicar a violência de gênero. Isso parece que é algo utópico, ainda mais neste país.

Fomentar a inserção das mulheres no mercado de trabalho e o acesso a todos os direitos, como o casamento homoafetivo igualitário, permissão para adotar crianças, já que em muitos estados não se pode, porque não temos políticas que permitam ter os direitos que qualquer pessoa deveria ter. Serviços de saúde integral, sem importar nossa orientação sexual.

E a não revitimização por parte das autoridades e das procuradorias, que é o que normalmente acontece quando uma mulher vai denunciar maltrato em sua casa, que a agrediram, a estupraram. Essas procuradorias não contam com protocolos com enfoque de gênero, e normalmente o que acontece é uma revitimização. E isso não ajuda em nada. As mulheres acabam sentindo-se mal, pensando que é sua culpa. E não deveria ser assim.

Aqui no Brasil também enfrentamos muitos casos de feminicídio, mas, diferentemente do México, o governo é de extrema direita. Vocês acompanham a situação brasileira? Há semelhanças?

Me parece que o fato de ser governado pela direita ou pela esquerda não significa que não exista a violência de gênero e os feminicídios. E nesse caso, com o presidente do Brasil, está claro para nós que em sua agenda não estão os direitos não somente das mulheres, mas os direitos humanos. Temos visto como estão sendo discriminadas as comunidades indígenas, as mulheres que são perseguidas, assediadas, e como tem sido silenciada a comunidade LGBT.

Como você vê o movimento feminista no México hoje?

Vejo mais forte do que nunca. Acho que essas últimas manifestações foram contundentes para que mais mulheres possam se somar. Cada vez menos mulheres estão deixando de denunciar, cada vez mais mulheres estão levantando a voz contra o assédio, não apenas nas ruas, mas também dentro das instituições, das escolas, do trabalho, as meninas do ensino fundamental e médio estão se manifestando por seus direitos. Creio que é algo muito bom, porque as gerações que estão vindo já têm outra mentalidade e sabem que o fato de ser mulher não significa que tenham que aguentar esse tipo de violência, e que é preciso resistir.

Como surgiu o coletivo Brujas del Mar?

O coletivo surgiu há aproximadamente um ano. Nós somos do estado de Veracruz, especificamente do Porto. Nós formamos um grupo de mulheres, no início éramos um grupo de 15 mulheres e pouco a pouco fomos crescendo, mais e mais. Depois criamos a página do Facebook, as redes sociais, e começamos a fazer atividades, como o “acompanhamento à casa”, que é seguir as meninas em seu caminho para que se sentissem seguras aonde iam. Temos o projeto de “mercadinhos”, para incentivar a economia das mulheres, seja com artesanato, seja com outros temas que nós desenvolvíamos, trabalhando questões ecológicas e artesanais.

Acho que esse coletivo fez muito em pouco tempo, porque conseguimos que outros coletivos de outras cidades se reúnam com a gente e que mulheres participem desse movimento, para somar, estarem abertas ao diálogo, compartilhar de leituras feministas, organizamos grupos, assembleias. E eu creio que esse tipo de coletivo é importante porque a sociedade civil, neste caso, representando as mulheres, realiza uma autogestão para colocar em prática coisas que talvez caberiam às instituições fazer, mas que, pela negligência, nós precisamos realizar por conta própria e com nossos próprios recursos.

Como a luta feminista latino-americana pode se integrar?

A luta feminista não está acontecendo apenas no México. As primeiras referências que temos são justamente a luta de países da América do Sul, como no Chile, Argentina, Brasil, onde as feministas saem às ruas sem medo do governo, da represália, de apanharem ou de sofrerem violência. Esse movimento tem servido a nós, mexicanas, como inspiração para também ocuparmos os espaços e podermos lutar pelos direitos das mulheres.

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Esta entrevista faz parte do especial 8M: Mulheres latinas enfrentam onda conservadora. Acesse aqui todas as entrevistas.

Colaborou Raphaela Ribeiro.

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