Agência de Jornalismo Investigativo

Lilia Schwarcz e Marcos Nobre debatem bolsonarismo

22 de fevereiro de 2021

Programação faz parte das comemorações de dez anos da Agência Pública

Seis conversas para entender o Brasil do presente e do futuro. O festival Pública + 10 é uma série de debates com especialistas e celebridades em comemoração aos dez anos da Agência Pública, primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do país. Obedecendo às recomendações sanitárias, em virtude da pandemia, o evento teve início no sábado (6/3) em formato online, com transmissão ao vivo pelo Youtube. 

Mais de 1,8 mil acompanharam a mesa de abertura do Pública +10, que teve o bolsonarismo como tema. A historiadora e professora de Antropologia da USP Lilia Schwarcz e o professor de Filosofia da Unicamp Marcos Nobre refletiram sobre o que o presidente da República e seus apoiadores representam para o cenário político do país. O editor e repórter Thiago Domenici mediou a conversa, que também teve participação da repórter Rute Pina, ambos da Agência Pública

“O bolsonarismo é um movimento retrógrado, de extrema direita, populista e tecnocrata”, resumiu Lilia Schwarcz, que é autora do livro “Sobre o autoritarismo brasileiro”, entre outros títulos. Embora tenha ganhado forma a partir das eleições de 2018, o bolsonarismo não é um fenômeno recente e isolado no mundo, na opinião dela. “Vem na onda de uma série de governos de homens muito retrógrados, de extrema direita, mas guarda uma característica especial. Bolsonaro lida com uma realidade muito especial que é um país profundamente desigual.”

A ditadura militar de 1964 é uma referência direta do bolsonarismo, disse Marcos Nobre, autor do livro “Ponto-final: a guerra de Bolsonaro contra a democracia”. “O autoritarismo demora a morrer, ele deixa raízes. E essas raízes se mantiveram no período da redemocratização, só que nunca tiveram uma concentração e organização. Bolsonaro representa a primeira concentração das forças autoritárias do país em uma  única figura e em um único movimento”, considerou, acrescentando que o bolsonarismo se formou em um momento de crise da democracia brasileira, a partir de junho de 2013. 

“O sistema político, ao invés de se auto reformar, resolveu se blindar contra a energia social que estava nas ruas e contra a evidência de que o sistema estava falido, e ao mesmo tempo reforçando a Lava Jato. O que Bolsonaro fez foi se colocar no lugar do candidato anti sistema”, analisou.

Perigos da escalada autoritária

Este é um ano-chave para as eleições de 2022. Apesar disso, as respostas à escalada autoritária têm sido insuficientes até agora, na opinião dos debatedores. “Se Bolsonaro for reeleito, podemos ter certeza de que a democracia acabou no Brasil”, alertou o professor Marcos Nobre. Para ele, os partidos e movimentos políticos não estão “achando que Bolsonaro é um real perigo para o país”. “Isso se mostra no fato de que estão fazendo cálculos meramente eleitorais.”

Na avaliação do professor, para derrotar Bolsonaro nas próximas eleições, o campo democrático precisaria de unir em apoio a um único candidato no segundo turno. Porém, não parece haver consenso com relação a esse nome. “Pelo contrário, o campo democrático apenas se autodestrói o tempo todo”, observou Marcos Nobre. 

A primeira mesa do Pública +10 debateu o o Bolsonarismo como força política e a representação do presidente para o cenário político do país

Frente ampla e eleições 

Mas essa aglutinação de forças políticas progressistas de esquerda no Brasil, para enfrentar Jair Bolsonaro nas urnas, que tem sido chamada de frente ampla, parece um objetivo ainda distante na opinião de Marcos Nobre. Para ele, ainda não há condições políticas, considerando que as duas candidaturas de esquerda que já estão postas – Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT) – rivalizam entre si e seriam “recalls de 2018”. Também não há, para ele, um nome da direita não bolsonarista que seja visto como alternativa. “A estrutura da política brasileira mudou. Não tem mais  PT e anti PT. Agora é Bolsonaro e anti-Bolsonaro. No meio tem um monte de gente, uns 40% do eleitorado, que pode ir para um lado ou para o outro” 

A pressão social seria capaz de forçar essa união de forças políticas no campo democrático. Lilia acredita que ainda há tempo para “a sociedade civil exigir que os políticos consigam pactuar uma frente mínima, que não impeçam as várias eleições – parte do jogo político – mas que garanta que no segundo turno teremos de fato uma frente”, disse. “A sociedade brasileira muitas vezes já se perdeu e já se encontrou”, acrescentou.

Ainda dentro das possibilidades de enfrentamento ao bolsonarismo, seria preciso abrir diálogo com o próprio eleitorado bolsonarista. “Se quisermos pressionar a formação de uma frente ampla, vamos ter que fazer muita força, para baixar a guarda dos nossos próprios preconceitos e entender que democracia boa é aquela cuja temperatura é dada pelas diferenças”, ponderou a antropóloga Lilia Schwarcz, respondendo a perguntas enviadas por leitores da Pública, via chat do Youtube. 

Lula, Haddad, Ciro, Huck

Quando se fala na formação de uma frente ampla suficientemente forte para fazer oposição a Bolsonaro, alguns nomes de políticos e de pessoas de fora da política foram apontados. Entre os mais recorrentes estão o ex-presidente Lula (PT), Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT), João Dória (PSDB) e alguns “outsiders”, ou seja, pessoas que não pertencem à política, como o apresentador da TV Globo Luciano Huck. Mas,afinal, existe hoje um candidato capaz de derrotar Bolsonaro nas urnas? E quem seria?

Marcos Nobre acredita que o debate sobre nomes mais atrapalha do que ajuda a criação da frente ampla. Para ele, entretanto, a ideia de um candidato de fora da política não faz sentido. “Esse lugar de ‘outsider’ já está ocupado pelo presidente da República, que se coloca como um presidente anti-sistema. Ele se lançou à reeleição com menos de seis meses de mandato, porque um populista autoritário precisa estar em campanha o tempo todo. Nós elegemos um populista autoritário mais de extrema direita do mundo. O Trump (ex-presidente dos Estados Unidos) nunca participou de uma ditadura militar nos Estados Unidos, porque nunca houve uma ditadura militar lá”, analisou. 

Militarização do governo

“Um sintoma de que não estamos em um bom momento democrático é a militarização do governo civil”, considerou a antropóloga e professora Lilia Schwarcz. “Há pelo menos seis mil militares no governo Bolsonaro”, lembrou o editor e repórter da Pública, Thiago Domenici, mediador do debate, questionando qual seria o papel deles na escalada do bolsonarismo. Essa relação entre militares e a política atual será, inclusive, tema central do quarto debate do festival Pública + 10,  que acontece na noite do próximo sábado (13/3), com participação da ministra do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, do cientista político José Murilo de Carvalho e da codiretora e editora da Agência Pública, Natália Viana. As inscrições podem ser feitas aqui.

A tática de militarização é algo que divide e ao mesmo tempo fortalece o governo Bolsonaro, para o professor Marcos Nobre. Ele explica: “Você divide o governo entre o núcleo evangélico, militar e o da Câmara com o Centrão raíz. Bolsonaro opera jogando um núcleo contra o outro, deixa as dissensões rolarem e a única coisa que faz é vetar, como se não tivesse nada a ver com isso. Acontece que ele é o presidente.”

Lilia lembrou que um dos exemplos da força dos militares no governo Bolsonaro é o atual ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, e pontuou a má condução da crise sanitária do governo, que é “contra o isolamento e o uso de máscaras”.

Na pandemia, Bolsonaro criou um “governo de guerra” que o fortaleceu, diz Marcos Nobre, “dispensando ou escanteando” os servidores que não concordavam com ele, como o caso dos dois ministros da Saúde anteriores, Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta. “Bolsonaro está passando por uma pandemia com 260 mil mortos e continua com apoio de um terço do eleitorado, e continua sendo presidente. Ele conseguiu fazer uma narrativa sobre a pandemia e sobre ele mesmo que convenceu essa parcela do eleitorado.”

Tirar Bolsonaro do poder é derrotar o bolsonarismo?

Marcos e Lilia concordam que derrotar eleitoralmente Bolsonaro não significa derrotar o bolsonarismo. A exemplo do trumpismo, nos EUA, que permaneceu mesmo após a derrota de Trump nas urnas, o bolsonarismo, enquanto conjunto de ideias, vai persistir mesmo que Bolsonaro saia do governo, segundo os estudiosos.

“O Bolsonarismo virou uma espécie de virose dentro da sociedade brasileira, que está completamente doente, não apenas por causa da covid-19, mas por causa do tamanho do ódio disseminado nesses últimos três anos”, disse Lilia. 

E o que acontece caso Bolsonaro ganhe as eleições em 2022? “Estaremos em maus lençóis. Ele aparelhou a Câmara, o Senado, vai ter a oportunidade de colocar outros ministros no Supremo, tem feito um ataque muito frontal ao jornalismo”, disse Lilia. “As instituições brasileiras não vão sobreviver”, alertou o professor Marcos Nobre. 

Pública +10

Nomes como Ailton Krenak, Anielle Franco e Gregório Duviviver estão entre os convidados dos próximos debates do festival Pública +10, em comemoração aos dez anos de Agência Pública. As conversas continuam nos dias 13 e 20 de março. Para conferir os horários, os participantes e fazer sua inscrição gratuita, acesse o link.

O texto da cobertura foi feito pela repórter Mariama Correia.

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