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No RJ, cristãos conservadores levaram trios e ônibus cheios de fiéis para ato bolsonarista

Bolsonaro discursou em cima de um trio financiado pelo pastor evangélico Silas Malafaia, que esteve com ele no ato em Brasília

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7 de setembro de 2022
21:43
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Do alto do trio elétrico, o pastor e candidato a deputado estadual pelo PTB do Rio de Janeiro, Liomar Oliveira, gritava para agitar a multidão. Ele é coordenador do Movimento Cristão Conservador, que levou um trio elétrico para a manifestação em apoio ao presidente Jair Bolsonaro neste 7 de setembro, na praia de Copacabana, Zona Sul (RJ). O evento foi marcado pela participação ativa de lideranças religiosas, que levaram carros de som, trios elétricos e ônibus cheios de fiéis. O próprio Bolsonaro discursou em cima de um trio financiado pelo pastor evangélico Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Manifestação em apoio ao presidente Jair Bolsonaro neste 7 de setembro, no Rio de Janeiro
Manifestação em apoio ao presidente Jair Bolsonaro neste 7 de setembro, no Rio de Janeiro

O movimento conservador cristão tem quase 2,5 mil lideranças em todo o país, que estão engajadas com a campanha de Bolsonaro nas igrejas. “Já visitamos 62 cidades do Rio de Janeiro conscientizando cristãos de que eles precisam se posicionar politicamente”, disse Liomar, que é pastor auxiliar da Igreja de Deus Sede São Cristóvão, uma congregação com mais de 1,5 mil membros junto com o pastor Joel Serra, também candidato a deputado estadual pelo PTB no Rio de Janeiro. O pastor Joel transformou sua casa em um comitê da campanha de Bolsonaro. Ele faz parte de um grupo chamado Casas da Pátria, que estimula eleitores a oferecerem suas residências para ações e distribuição de material de campanha.

“Cada casa tem o objetivo de engajar sua vizinhança e conquistar votos na sua região”, detalhou Joel por telefone. Ele disse que o recurso para o trio elétrico levado à manifestação do 7 de setembro veio de doadores do movimento cristão e não dos membros de sua congregação. “Não misturamos com a igreja”, garantiu.

Pastor Liomar é um homem branco com cabelos e olhos escuros. Ele veste camisa branca e discursa do alto de um carro de som no Rio de Janeiro.
Pastor Liomar

Mas o coordenador da União dos Movimentos Conservadores, Pedro Wernek contou que os fiéis também ajudaram a pagar o trio elétrico. Ele disse que os recursos vieram de vários movimentos conservadores, entre eles grupos pró-armas. “Parte dos recursos foram angariados em uma vaquinha entre os membros que levantou R$ 3,5 mil. As igrejas fizeram um rateio entre os membros que contribuíram espontaneamente”. Ele não detalhou o valor arrecadado no rateio, nem as igrejas participantes.

Trio do Centro Dom Bosco
Trio do Centro Dom Bosco

O grupo ultraconservador católico Centro Dom Bosco também levou um trio elétrico para Copacabana. Diante de uma imagem de Nossa Senhora, um participante do grupo que não quis se identificar nem falar com a reportagem, conclamava: “Rezaremos pela derrota do abortista Luiz Inácio Lula da Silva. Nossa Senhora, pisa a cabeça da serpente Luiz Inácio Lula da Silva”. Às 14h, os manifestantes foram convocados a rezar um terço “contra o comunismo, pela pátria e pela queda de ideologia de gênero”.

Em frente ao trio do Centro Dom Bosco, a professora Maria Edna Dias acompanhou as orações junto com 15 amigas, todas católicas e frequentadoras da igreja de São Marcelino de Copenhague, na Cidade Jardim. Elas alugaram uma van para irem ao evento. “Bolsonaro é evangélico”, disse Edna, embora o presidente seja católico. “Ele é de Deus. A Bíblia é uma só”, acrescentou, respondendo sobre o que a motiva a apoiar o presidente.

Católicas frequentadoras da igreja de São Marcelino de Copenhague
Católicas frequentadoras da igreja de São Marcelino de Copenhague

Evangélica da Assembleia de Deus de Parque Jequiti, a cuidadora de idosos Miria Falcão levou um banner com um versículo bíblico para a Avenida Atlântica. Ela contou que sua denominação se juntou à igreja do pastor Silas Malafaia no apoio ao ato bolsonarista. Silas, da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, financiou o trio elétrico de onde Bolsonaro discursou junto a seus apoiadores mais próximos.

“A igreja de Silas trouxe mais de 30 ônibus com fiéis. Nossa igreja trouxe dois”, contou Miria. “Vim porque acho que nossa liberdade religiosa está sendo travada. A religião se mistura sim com política porque Deus levantou reis, príncipes. Temos que orar pelos nossos governantes”, disse.

Fiel Miria Falcão é uma mulher parda com cabelos e olhos escuros. Miria veste verde e amarelo e segura um cartaz escrito ''Jesus é o caminho, a verdade, e a vida''.
Fiel Miria Falcão

“Somente da igreja Vitória em Cristo em Campo Grande saíram dois ônibus cheios de fieis”, contou o empresário Michel Douglas da Silva, frequentador da denominação que é comandada pelo pastor evangelista RR Soares. “Ninguém pagou passagem, foi a própria igreja que patrocionou”, disse.

Ônibus que transportou fiéis para o 7 de setembro.
Lideranças religiosas levaram carros de som, trios elétricos e ônibus cheios de fiéis

Ataques ao PT e Lula

Durante sua fala, Silas Malafaia fez ataques ao PT, que chamou de “quadrilha de corruptos” e “saqueadores do país”, e destacou o caráter cristão de Bolsonaro. A multidão respondeu aos ataques ao PT bradando em uníssono: “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”.

Antes do discurso de Bolsonaro, o locutor da festa de peão em Barretos, São Paulo, Zé Carlos, que fazia as vezes de cerimonialista do evento, puxou a oração do Pai Nosso. Do alto do trio, Bolsonaro discursou para o público religioso. “Seu presidente é cristão”, disse, e acenou para temas que mobilizam o eleitorado conservador, como aborto e drogas, algo que tem sido sua prática em boa parte das aparições públicas este ano. “Nós defendemos a vida desde sua concepção. Não existe no nosso governo ideia de legalizar aborto. Esse governo nem aceita discutir legalização das drogas.”

Em torno do trio de Silas, milhares de apoiadores do presidente se aglomeravam, bebendo e esperando o “mito” chegar. As aparições da esquadrilha da fumaça e as salvas de tiros de canhão, vindas do Forte de Copacabana, arrancavam gritos da multidão, quase toda vestida a caráter, com verde e amarelo da cabeça aos pés. O “data povo”, como gosta de falar o presidente, funcionou bem. “Essas pesquisas são todas mentirosas. Olha essa multidão, como que o Lula pode estar na frente?”, questionou uma apoiadora.

Segundo o canal CNN, partidos como PDT, PT, PV, Rede e União Brasil pretendem entrar na Justiça alegando que o presidente Bolsonaro utilizou evento financiado com dinheiro público para fazer campanha eleitoral.

Reportagem Agência Pública
Reportagem Agência Pública

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