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Do parabéns ao disparo: os últimos momentos de um homem negro antes de ser morto pela PM

Wesley dos Reis foi baleado após comemorar os dois anos da neta no Capão Redondo. Família contesta versão da PM

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15 de julho de 2026
04:00
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José Cícero / Agência Pública

No início da madrugada do dia 5 de julho, domingo, o trabalhador autônomo Wesley dos Reis Cordeiro, homem negro de 41 anos – conhecido pelo apelido Tuca –, retornava para sua residência depois de comemorar, com familiares e amigos, o aniversário de dois anos da neta. No caminho, foi morto ao ser atingido por um disparo de arma de fogo após uma abordagem policial no Jardim Comercial, bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Segundo o levantamento Pele Alvo, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, baseado nos números de nove estados do país, São Paulo foi o quarto mais letal para pessoas negras em 2025 entre eles, com 499 vítimas. Ficou atrás da Bahia (1243), Rio de Janeiro (588) e Pará (516). Segundo o estudo, praticamente todas as mortes foram de pessoas do gênero masculino. Na faixa etária de Tuca, entre 40 e 49 anos, houve um aumento de mortes por violência policial em São Paulo de 19% no ano passado. Em 2024 foram 208 vítimas e 248 em 2025 nesse grupo etário.

Horas antes de ser atingido, um vídeo gravado por familiares e as fotos tiradas durante a festa mostram Tuca se divertindo. Assim como em outras celebrações, era ele quem puxava as pessoas para dançar e festejar. Depois de cantar o “Parabéns para Você”, a família se reuniu na frente da casa para conversar, beber e curtir o resto da noite. No vídeo abaixo é possível ver a descontração de Tuca.

Mesmo animado, como de costume, os amigos notaram que ele estava mais introspectivo e reflexivo. “Naquela noite ele estava totalmente diferente de tudo o que ele era. A gente estranhou o comportamento dele; eu ofereci cerveja e ele não aceitou. Teve um momento em que o flagrei de longe, olhando para as crianças. Parecia que ele queria guardar uma memória para si. É como se ele estivesse sentindo alguma coisa”, conta Grazielly dos Reis, irmã mais nova.

Por que isso importa

  • No Brasil, intervenções policiais provocaram 6.519 mortes em 2025, um crescimento de 4,5% frente ao ano anterior, com 6.238 vítimas, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
  • Já no primeiro trimestre de 2026, 1.716 pessoas foram mortas pela violência policial, afirma o MJSP. São cerca de três óbitos por dia.

Outro aspecto que chamou a atenção de todos foi que, naquela noite, ele insistiu várias vezes em ir embora para casa. Tuca era conhecido por ser o primeiro a chegar às festas e o último a sair; por isso, os parentes estranharam o comportamento e começaram a tirar sarro. A irmã chegou a apostar R$ 50 que ele estava blefando. No entanto, ele continuou dizendo que estava a fim de ir embora, alegando que estava cansado, pois havia trabalhado no sábado.

Alguns familiares insistiram para que Tuca ficasse um pouco mais, pelo menos até a neta dormir, porém ele estava decidido a chamar um motorista de aplicativo. Mas, como o filho e o namorado da sobrinha estavam de moto, combinaram de levá-lo e à sua esposa, Pamela Souza, de 38 anos, para casa.

Cerca de cinco minutos depois da saída das motocicletas, uma viatura da Polícia Militar passou pelo mesmo local em que alguns familiares permaneciam e seguiu na mesma direção que eles. Às 2h30 da madrugada, imagens do sistema de segurança de uma residência mostram as duas motos passando pela Rua Henrique Sam Mindim.

Na primeira estavam Pamela e o filho e, em seguida, Tuca na garupa do namorado da sobrinha. Logo atrás, surgiu uma viatura da Polícia Militar. Segundo a versão dos policiais que estavam na viatura, registrada em Boletim de Ocorrência, uma ordem de parada foi desobedecida. Segundo Pamela, no entanto, o condutor chegou a reduzir a velocidade, mas antes de conseguir parar totalmente, Tuca foi alvejado. “Eles foram reduzindo a moto, só que não deu tempo de parar, ele [o policial] simplesmente atirou”, conta Pamela.

O tiro acertou o lado esquerdo do tórax, e Tuca caiu da moto alguns metros adiante. Assustado, sem entender o que havia acontecido e com medo de também ser atingido, o piloto seguiu em direção à casa e avisou Pamela e o filho sobre o ocorrido.

Ambos voltaram ao local e se depararam com Tuca caído no chão, porém os policiais já haviam isolado a área e eles não puderam se aproximar.

Supostamente armado

De acordo com o Boletim de Ocorrência registrado no 47º DP (Capão Redondo), a bala que atingiu Tuca foi disparada pelo policial militar Héctor Luiz de Macedo, que fazia ronda com o soldado Lucas Benitelli da Costa.

Segundo o relato dos agentes, durante o patrulhamento preventivo, eles avistaram duas motocicletas que tinham as mesmas características de outras usadas em assaltos no bairro.

Sobre o momento em que retornavam para casa, Pâmela conta que cruzaram com “alguns motoqueiros [que estavam] fazendo racha. Acho que alguém chamou a viatura para eles porque estavam fazendo bagunça. Eu, na minha cabeça, acho que eles [os policiais] acharam que a gente estava no meio”, relata.

No entanto, segundo a versão dos agentes, o que motivou a tentativa de abordagem foi “uma fita que estava cobrindo parcialmente a placa da moto” em que Tuca estava, dificultando sua visualização. Isso fez com que os policiais considerassem a atitude suspeita e fossem em direção à motocicleta.

Os policiais relatam que, “ao perceberem a aproximação da viatura policial, os ocupantes das motocicletas empreenderam fuga, desobedecendo à ordem de parada”, dando início a uma perseguição. Durante o trajeto, teriam notado que Tuca estava segurando um casaco que cobria completamente suas mãos, “aparentando ocultar algum objeto no seu interior”.

Em seguida, “no curso da fuga”, Tuca teria feito “menção de erguer uma das mãos, ainda encoberta pelo casaco, gesto que, diante da dinâmica da ocorrência e da fundada percepção de que pudesse estar prestes a sacar ou apontar uma arma de fogo contra a equipe policial, levou o soldado Héctor a efetuar um único disparo”.

A interpretação do PM não é corroborada pelas pessoas que conviveram com Tuca até os últimos momentos de sua vida. Em um vídeo gravado por uma pessoa que passou de veículo após a queda de Tuca, é possível observar que o seu casaco estava amarrado na cintura.

No registro da ocorrência, os policiais também relataram que, depois que Tuca caiu da moto, eles deram continuidade à perseguição antes de retornarem ao local da queda. Neste intervalo, “diversas pessoas se aproximaram do local da queda” e, por isso, não se descarta a hipótese de que uma “eventual arma de fogo ou outro objeto que porventura estivesse na posse de Wesley tenha sido retirado por terceiros antes do retorno da equipe”. No vídeo, é possível vê-lo caído no chão, sem nenhuma pessoa próxima.

A versão dos policiais causou revolta na família. “Meu irmão não é bandido. Realmente ele estava vindo para casa descansar. Não estava dando fuga, que nem eles falam, e ele não estava armado”, diz Grazielly.

Perseguição e o medo de retaliação

Familiares relataram à Agência Pública que, quando chegaram à rua, o local já estava isolado e eles foram impedidos de se aproximar de Tuca. Alegam que tentaram fazer filmagens, porém os policiais não permitiram. Segundo uma testemunha que pediu para não ser identificada por medo de represálias, os policiais fizeram ameaças e desligaram a câmera da farda. “Eu mato você também”, teria dito um policial à testemunha. Segundo consta no BO, o agente Héctor Luiz de Macedo não fazia uso de câmera corporal. Já o policial que o acompanhava, Lucas Benitelli da Costa, sim.

No decorrer do domingo, familiares buscaram imagens nos comércios e residências da região, no entanto, as filmagens já tinham sido entregues aos policiais.

Durante o velório e o enterro de Tuca, uma viatura ficou de guarda na entrada do cemitério. “Eles ficaram do lado de fora o tempo todo olhando para a gente”, conta um familiar que não quis se identificar.

No mesmo dia do sepultamento, 6 de julho, familiares e amigos decidiram fazer uma manifestação para denunciar o ocorrido. Por volta das 19h, vestiram camisetas com a foto de Tuca e os seguintes dizeres: “Deixamos aqui nossa gratidão e levamos para sempre sua história. Você parte, mas deixa marcas que o tempo não apaga, a lembrança que o coração não esquece”, acompanhados de um bordão que ele sempre repetia: “Escute aqui”. Naquele momento, eles também queriam ser escutados.

A concentração para o ato foi no mesmo local em que Tuca havia caído. Ali, fecharam a via, fizeram uma barricada com pneus e atearam fogo. Em poucos minutos, dezenas de viaturas chegaram ao local. Policiais se posicionaram do outro lado do bloqueio e passaram a atirar com balas de borracha e a lançar bombas de gás para dispersar a comunidade que, diante da repressão, foi obrigada a retornar para suas casas.

Outro lado

Questionada sobre a atuação dos agentes durante a manifestação, a Secretaria de Segurança Pública enviou uma nota à Pública alegando que: “A Polícia Militar acompanhou, na noite da segunda-feira (6), uma manifestação realizada na rua Waldemar Ortega, no Capão Redondo, zona sul da capital. No local, um grupo de pessoas ateou fogo em objetos e interditou a via pública. O Corpo de Bombeiros foi acionado e o fogo foi extinto. A via foi desobstruída e os manifestantes deixaram o local. Não foram localizados registros de detidos ou feridos.”

Quanto à morte de Tuca, a SSP diz que: “as polícias Civil e Militar apuram todas as circunstâncias relacionadas à ocorrência. Foi instaurado Inquérito Policial Militar (IPM) e o caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial no 47.º DP, que requisitou assessoramento ao DHPP e perícia no local. Os laudos periciais e as imagens das câmeras operacionais serão analisados para esclarecer as circunstâncias dos fatos.”

São Paulo: o estado mais letal

Dados do Ministério Público de São Paulo (MPSP) apontam que, entre janeiro e junho deste ano, 129 pessoas morreram em decorrência de intervenção policial na capital paulista. Em 2025, no mesmo período, 120 pessoas foram a óbito. No estado, os agentes de segurança pública mataram, no mesmo intervalo, 368 pessoas em 2026 e 388 em 2025.

No ano de 2025, São Paulo foi o estado mais letal dos últimos cinco anos, com 857 mortes, de acordo com levantamento do MPSP. No país, dados do Ministério da Justiça mostram que 6.519 pessoas morreram em decorrência de intervenção policial.

O relatório Pele Alvo, publicado no início de julho pela Rede de Observatórios de Segurança, aponta que a letalidade policial atingiu o maior patamar da série histórica iniciada em 2019, em nove estados monitorados pela rede. Em 2025, 4.330 pessoas morreram em decorrência de intervenção policial, um aumento de 6,4% em relação a 2024.

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