Agência de Jornalismo Investigativo

Fluxo de usuários diminuiu após primeiro ano do De Braços Abertos, mas levantamento feito dois anos depois registrou aumento de 160%

13 de junho de 2017
14:53
Este texto foi publicado há mais de 5 anos.
Cerca de 80 dependentes de crack trabalham como varredores no programa De Braços Abertos
Cerca de 80 dependentes de crack trabalham como varredores no programa De Braços Abertos. Foto: Fabio Arantes/SECOM- PMSP

“Em apenas um ano o De Braços Abertos foi criado e o fluxo de moradores em situação de rua na Luz se reduziu em dois terços, de 1.500 para cerca de 500 pessoas.” – Fernando Haddad (PT), ex-prefeito de São Paulo, em artigo publicado em junho de 2017.

Em janeiro de 2014 o então prefeito Fernando Haddad (PT) fez o lançamento oficial do programa De Braços Abertos. A iniciativa, focada na política de redução de danos para usuários de crack, previa hospedagem em hotéis na região da Cracolândia para dependentes em situação de rua, além de uma bolsa de R$ 15 por dia para os que trabalhassem por quatro horas diárias no serviço de limpeza de ruas. Em artigo publicado recentemente, Haddad comemorou os resultados projeto, informando que o fluxo de moradores em situação de rua na Cracolândia caiu de 1.500 para cerca de 500 pessoas em apenas um ano de vigência do De Braços Abertos.

O Truco – projeto de checagem de fatos e dados da Agência Pública – verificou a afirmação e descobriu que o dado usado pelo ex-prefeito é próximo do real para o período destacado. A estimativa foi informada pela Secretaria Municipal de Saúde, em um comunicado divulgado quando o programa De Braços Abertos completou um ano. Houve, no entanto, um aumento de 160% na quantidade de frequentadores da área entre abril de 2016 e maio de 2017. Por isso, a frase foi considerada como sem contexto – a afirmação está correta, mas omite dados que permitem entender o que ocorreu posteriormente.

O Truco entrou em contato com a assessoria de imprensa de Haddad, com a assessoria de imprensa do secretário de saúde durante a gestão Haddad, Alexandre Padilha, e também com a assessoria institucional da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Saúde, solicitando a fonte dos dados indicados pelo ex-prefeito em sua frase. Quem retornou o contato da reportagem foi Pedro Henrique Oliveira, coordenador de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde durante a gestão Haddad.

Por telefone, Oliveira disse que o número usado por Haddad foi coletado pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). Segundo ele, a partir de janeiro de 2014, a GCM passou a fazer três monitoramentos diários para estimar a quantidade de pessoas no fluxo, como é chamada a cena de uso de drogas na Cracolândia. O ex-coordenador de comunicação alega que, entre agosto de 2015 e dezembro de 2016, a média registrada pela GCM era de 350 pessoas no fluxo durante o dia e cerca de 500 à noite. Esses números, segundo ele, teriam embasado a afirmação de Haddad.

O Truco entrou em contato com assessoria da Secretaria de Segurança Urbana, responsável pela GCM, para confirmar os dados informados por Oliveira. A assessoria da pasta afirma que não possui relatórios com a média de frequentadores do fluxo durante a gestão Haddad e destaca que, atualmente, não são produzidos sistematicamente boletins da GCM sobre o volume de pessoas no fluxo.

No informativo publicado em 16 de janeiro de 2015, quando o programa De Braços Abertos completou um ano, a Secretaria Especial de Comunicação da Prefeitura afirma que “de acordo com o Secretaria Municipal de Saúde, o fluxo, como é chamada a cena de uso de drogas, […] recebe em média 300 pessoas por dia – uma redução de 80% ao longo dos últimos 12 meses”. O comunicado corrobora o dado informado por Haddad, ainda que o ex-prefeito tenha sido conservador em sua estimativa, afirmando que o número diminui para “cerca de 500 pessoas”, enquanto a Secretaria registrava média menor, de 300 pessoas.

Falta, no entanto, contexto à afirmação de Haddad, já que há registros de que o fluxo voltou a crescer pouco depois de o programa completar um ano de vigência. Além disso, a administração do ex-prefeito não divulgou nenhum balanço posterior que mostrasse a quantidade de usuários no fluxo.

Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada em novembro de 2015 mostra que, na época, o fluxo já contava com cerca de 450 frequentadores no período da manhã. Por meio de uma foto aérea, o jornal fez uma contagem do número de pessoas presentes no fluxo. A foto, feita durante uma manhã no mês de novembro de 2015, registrava 452 pessoas na área. O número é superior à média de 350 usuários informada por Oliveira.

Um estudo divulgado em junho de 2017 também demonstra que Haddad omite dados mais recentes em sua afirmação. O levantamento, feito pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), mostra que o fluxo na Cracolândia se expandiu entre abril de 2016 e maio de 2017. A pesquisa estima que a média de frequentadores teria subido de 709 pessoas em abril de 2016 para 1.861 pessoas em maio deste ano, um aumento porcentual de 160%. O dado difere do informado pelo ex-funcionário da prefeitura, que alega que a média se manteve em 500 usuários por dia até o final de 2016.

Um estudo mostra que o De Braços Abertos foi eficaz na diminuição do uso de crack entre os atendidos. Uma pesquisa de avaliação do programa De Braços Abertos feita pela Plataforma Brasileira de Política de Drogas em 2016 mostra que 67% dos beneficiários da ação afirmam ter reduzido o uso de crack após ingressar no programa. O levantamento, realizado por assistentes sociais, indica que o número médio de pedras consumidas pelos atendidos caiu de 42 para 17 por semana, uma redução de 60%. Não há como saber, no entanto, qual foi o efeito do programa sobre o fluxo de usuários na Cracolândia. Sabe-se apenas que houve aumento do fluxo enquanto a iniciativa estava em curso.

Atualização (13/06, às 20h50): Após a publicação desta checagem, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad entrou em contato com a Agência Pública para explicar por que, em sua visão, houve aumento no número de usuários no fluxo da Cracolândia: “A Prefeitura, a partir de um determinado momento, não contava mais com o apoio das forças do estado para combater o tráfico. A PM foi removida da região, sob alegação de que havia outras prioridades. Quando o secretário estadual de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, assumiu, deu uma entrevista dizendo que a secretaria assegurava que iria asfixiar o tráfico. Só que isso nunca aconteceu.”

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