Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Meirelles recebeu R$ 50 milhões no cargo, mas repasse não é irregular

Verificamos acusação feita pelo líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini, em discurso durante a votação da denúncia contra Temer

Checagem
4 de agosto de 2017
16:00
Este artigo tem mais de 6 ano
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, concede entrevista no Senado
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, concede entrevista no Senado. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

“Nós requeremos a Henrique Meirelles que explique como recebeu R$ 217 milhões da JBS: R$ 50 milhões desses R$ 217 milhões ele recebeu no exercício do cargo de ministro da Fazenda, o que, portanto, é absolutamente irregular.” – Carlos Zarattini (PT-SP), deputado federal, líder do PT na Câmara

Falso

Durante a sessão de votação da denúncia de Michel Temer, o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) falou que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, recebeu repasses da JBS durante o exercício de sua função no ministério. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do deputado encaminhou cópia da representação que Zarattini encaminhou à Procuradoria-Geral da República, solicitando que Meirelles seja investigado pelos repasses.

O Truco – projeto de checagem de fatos (fact-checking) da Agência Pública – verificou a afirmação de Zarattini. Os valores dos repasses indicados pelo parlamentar estão corretos, mas ele erra ao dizer que toda a quantia veio da JBS e ao considerar a conduta “absolutamente irregular”. Por isso, a frase é falsa.

Meirelles recebeu R$ 217 milhões entre 2015 e abril de 2016, da empresa de consultoria da qual é dono. Desse montante, R$ 50 milhões foram pagos em abril de 2016, quando ele já atuava como ministro. A informação foi revelada com exclusividade em 26 de julho, pelo BuzzFeed, com base em documentos da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp).

O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), em discurso na Câmara
O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP), em discurso na Câmara. Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

Procurado pela reportagem do site, o ministro confirmou o recebimento dos valores, que seriam referentes a consultorias prestadas a firmas nacionais e internacionais antes da sua posse no comando da Fazenda. “Os valores foram declarados no Imposto de Renda e pagos os impostos municipais e federais. Além disso, foram declarados às demais autoridades competentes”, afirmou Meirelles ao BuzzFeed.

Dentre as empresas para as quais a consultoria de Meirelles prestava serviço estão gigantes como as instituições financeiras norte-americanas Lazard e KKR e também a brasileira J&F, holding controlada por Joesley Batista e detentora das marcas JBS e Friboi. Ao BuzzFeed, Meirelles confirmou que recebeu por serviços prestados à empresas do grupo de Batista. “É fato público que o ministro orientou a construção da plataforma digital do Banco Original e, portanto, foi remunerado pelo serviço prestado”, disse a assessoria de Meirelles ao veículo, citando um banco de propriedade do grupo J&F.

Zarattini alega que “Meirelles recebeu R$ 217 milhões da JBS”. Os documentos da Jucesp, no entanto, mostram que este foi o repasse total feito pela empresa de consultoria para Meirelles entre 2015 e 2016. O valor de R$ 217 milhões refere-se aos lucros obtidos em todos os serviços prestados pela consultoria do ministro ao longo de quatro anos, não apenas àqueles dedicados ao Banco Original, do grupo J&F.

Outro deslize do deputado é alegar que os repasses feitos ao ministro depois de sua posse no ministério são “absolutamente irregulares”. A Comissão de Ética Pública da Presidência da República considerou regulares as operações feitas pelo economista. O assunto foi encaminhado por Meirelles à comissão em 22 de agosto de 2016. A reunião na qual foi emitido parecer favorável à regularidade das transações ocorreu em 27 de setembro de 2016. O resultado foi registrado na ata, disponível online. Na ocasião, o colegiado deliberou de forma unânime e considerou que a situação “não configura transgressão à ética pública tampouco situação de conflito de interesses”.

O próprio documento enviado pelo deputado petista à PGR não expõe a existência de irregularidades nos valores recebidos por Meirelles. Ao invés disso, levanta apenas suspeitas e demanda investigações. Assinada em conjunto com o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), a representação de Zarattini solicita que a Procuradoria-Geral da República investigue, justamente, se os pagamentos representam algum ilícito, conflito de interesses ou ato de improbidade administrativa.

“É preciso que essa Procuradoria-Geral da República analise se os recursos transferidos quando o Representado já exercia o cargo de Ministro de Estado da Fazenda não configuram violação aos princípios da administração pública (moralidade e probidade), dando ensejo, em tese, a prática de improbidade administrativa e/ou crime de responsabilidade”, solicitam os parlamentares na representação encaminhada à PGR.

Portanto, o Truco classifica a frase de Zarattini com o selo “Falso”. A conduta de Meirelles não é considerada irregular pela Comissão de Ética Pública, e o valor indicado pelo deputado como repasse da JBS é, na verdade, o montante total recebido pelo ministro por todos os serviços prestados por sua empresa em quatro anos de atuação.

A assessoria de Zarattini, ao ser informada do resultado da checagem, afirmou que, nas entrevistas concedidas à imprensa sobre o assunto, o deputado não alegou que toda a quantia seria proveniente da JBS, como fez em plenário. “A versão que passou e predominou no noticiário foi a das entrevistas”, argumenta a assessoria.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Quer entender melhor? A Pública te ajuda.

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Quem ganha mais consegue se aposentar mais cedo?

Por ,

Checamos a afirmação do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de que quem ganha mais consegue atingir primeiro os 35 anos de contribuição à Previdência

Como homens e mulheres se aposentam em outros países?

Por

Checamos a frase do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de que estabelecer a mesma idade mínima para os dois gêneros é uma tendência mundial

Notas mais recentes

Projeto que pune aborto como homicídio é denunciado na Comissão Interamericana


PT quer ‘suavizar’ PL que equipara aborto a homicídio, mas texto ainda punirá mulheres


CPAC: Evento do instituto de Eduardo Bolsonaro tem patrocínio de apoiadora de ato golpista


Governador de Goiás, Ronaldo Caiado, defende câmeras em pessoas no semiaberto e não em PMs


“Mercantilização do luto”: PSOL pede fiscalização de cemitérios privatizados de SP


Leia também

Quem ganha mais consegue se aposentar mais cedo?


Como homens e mulheres se aposentam em outros países?


Faça parte

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes