Analisamos 245 tweets para entender a dinâmica de desinformação nos posts do presidente

30 de setembro de 2022
13:41

Através da análise de conteúdo de 245 tweets publicados no período de 01 a 31 de agosto de 2022, é possível perceber que Jair Bolsonaro segue se utilizando das próprias redes sociais não apenas para fazer campanhas a favor de sua reeleição, mas também para propagar notícias falsas ou manipuladas e para descredibilizar a imprensa, manipulando a sua base de apoio e as conquistas do próprio governo, além de incitar pautas políticas anti-esquerda e conduzir usuários para plataformas sem controle de conteúdo, como o Telegram e Gettr.

As informações falsas e/ou manipuladas que vêm circulando desde 2018 no Brasil apontam para a construção de discursos que direcionam o debate público para agendas anti-democráticas e para mascarar a atuação do Governo Federal, sob o comando do Presidente Jair Messias Bolsonaro, fazendo com que o público acredite que o governo realiza uma boa gestão. Ao mesmo tempo, essas desinformações fomentam a intolerância sobre outros candidatos, tachados como “comunistas” em contraste com aqueles que, como o presidente, levantam a bandeira “Deus, Pátria e Família”.

Além disso, há a construção de um discurso que promove o descrédito da mídia tradicional, que seria – além de “comunista” – incapaz de perceber as conquistas do atual governo sem criticá-las. Isso significa dizer que os únicos veículos efetivamente aptos a repassar informação seriam o próprio Presidente (através de seu Twitter e de seu canal no Telegram) e as redes que o apoiam, uma vez que os demais canais são vistos como criadores de narrativas contra o governo. Na verdade, trata-se de estratégias para pautar o debate público e fazer prevalecer o próprio discurso, muitas vezes falso.

Tendo em vista esse contexto, buscamos descobrir se o Presidente da República, Jair Bolsonaro, ainda é um vetor de desinformação no cenário eleitoral de 2022, analisando a forma pela qual ele vem se comunicando com a sua base de apoio através de sua conta na plataforma Twitter, bem como quais aspectos discursivos vêm sendo empregados por ele. O estudo foi apoiado pela Associação Brasileira de Imprensa e Projeto BolsoData. 

Desinformação também nas propagandas positivas

A coleta privilegiou os seguintes aspectos de cada postagem: texto publicado, recursos audiovisuais, data e hora da publicação, autoria, hiperlinks e links correlatos, como direcionamentos a outras plataformas; além de dados de outro tweet que tenha sido respondido pelo autor.

Depois, os tweets foram analisados ​​para identificar os principais objetivos que estavam direcionando as postagens. O foco da análise foi a mensagem e o contexto presente no tweet, bem como o fact-checking. Foi realizada uma exploração qualitativa dos tweets para identificar em qual se encaixariam dentre 7 categorias: 1) desinformação política; 2) presença na mídia e convocação de apoio; 3) campanhas pró-governo; 4) incitação de pautas políticas anti-esquerda; 5) convocação para outras redes sociais sem filtragem de conteúdo; 6) outros; e 7) informação não-verificável. (Houve a necessidade de abertura dessa categoria por que algumas informações só foram encontradas em sítios eletrônicos pró-Bolsonaro, que estavam apenas replicando a informação presente no próprio tweet). 

No caso da desinformação política, foram definidas as subcategorias “notícia falsa/manipulada” e “descrédito à mídia tradicional”. Quanto às campanhas pró-governo, trabalhamos com as subcategorias “conquistas do governo atual”; “manifestações públicas pró-governo”; e “humanização de Jair Bolsonaro”.

No Gráfico 1 identificamos quantos tweets foram enquadrados em cada uma das sete categorias definidas previamente, conforme explicado na seção anterior.

Gráfico 1 – Contagem das categorias

A categoria “desinformação” teve 50 tweets (20%); a categoria “presença na mídia e convocação de apoio” teve 29 tweets (12%); a categoria “campanhas pró-governo” teve 124 tweets (50%); a categoria “incitação de pautas políticas anti-esquerda” teve 21 tweets (8,5%); a categoria “convocação para outras redes sociais sem filtragem de conteúdo” teve 3 tweets (1,2%); a categoria “outros” teve 8 tweets (3,2%); e a categoria “informação não verificável” teve 10 tweets (4%).

Contudo, tendo em vista a complexidade de alguns assuntos e o fato de que Jair Bolsonaro, por vezes, utiliza-se de texto e de recursos audiovisuais na mesma postagem, foi preciso enquadrar alguns tweets em mais de uma categoria em razão das pautas suscitadas. Assim, essa sobreposição gerou o gráfico a seguir:

Gráfico 2 – Contagem das sobreposições de categorias

Pode-se perceber que houve um aumento do número de postagens que podiam ser enquadradas nas categorias “desinformação” (25 tweets, ou 10%), “incitação de pautas políticas anti-esquerda” (19 tweets, ou 8%) e “convocação para outras redes sociais sem filtragem de conteúdo” (1 tweet). Isso significou, na prática, que, em diversos momentos, Jair Bolsonaro se utiliza de desinformação para fazer campanhas pró-governo, distorcendo informações que são relevantes para a sua base de apoio, como as questões econômicas.

Em um vídeo protagonizado por Paulo Guedes, por exemplo, existe a informação de que o Governo Federal teria tido um superávit em 2021. Contudo, os dados disponibilizados no próprio sítio eletrônico do Tesouro Nacional desmentem essa afirmação, conforme demonstra o gráfico abaixo, que faz alusão a um déficit fiscal de R$ 37,974 bilhões:

Outras temáticas que tiveram a utilização da desinformação aliada ao tom de campanha pró-governo por Jair Bolsonaro foram a transposição do Rio São Francisco, a afirmação de que o Brasil possui uma das gasolinas mais baratas do mundo e supostas medidas positivas tomadas pelo governo federal durante a pandemia da Covid-19. Além disso, notamos um alinhamento da desinformação com as pautas políticas anti-esquerda, com alegação de defesa de aborto, de ideologia de gênero e de ditaduras, bem como de críticas aos governos de Lula e Dilma.

A diferença desses alinhamentos está na facilidade de percepção pelo leitor. Quando o intuito é fazer campanha pró-governo, a desinformação é bem fácil de identificar, como o exemplo da narrativa de Paulo Guedes trazida anteriormente. Contudo, se o assunto é suscitar pautas políticas anti-esquerda, por vezes o conteúdo desinformativo é extremamente sutil e direcionado justamente à sua base de apoio.

Um exemplo é o tweet: “Mesmo que a Polícia esteja impedida de realizar certas operações, os recordes de apreensões de drogas não param de ser batidos”. A desinformação poderia passar despercebida, mas a primeira parte da frase se trata de uma crítica ao Poder Judiciário, que proibiu que a Polícia Rodoviária Federal participe de operações em comunidades ou fora das estradas federais em razão do disposto na Constituição Federal e das consequências da atuação da PRF em ações recentes.

Outra estratégia utilizada por Jair Bolsonaro tem sido uma suposta valorização da democracia e da Constituição Federal por ele neste ano de 2022. O Presidente ficou conhecido no mundo todo por incitar e apoiar manifestações anti-democráticas, inclusive durante a pandemia da Covid-19, com faixas pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, o retorno da ditadura e do AI-5, a intervenção militar e o voto impresso. Contudo, no período analisado, Jair Bolsonaro usou seu Twitter para, através de textos e de recursos audiovisuais, defendendo a democracia, a superioridade das eleições e a Constituição Federal, especialmente contra o principal partido da oposição.

Por fim, a última análise quantitativa diz respeito às subcategorias, que também comportaram sobreposições. São elas: “notícia falsa/manipulada” (64 tweets, ou 25%); “descrédito à mídia tradicional” (33 tweets, ou 13%); “conquistas do governo atual” (75 tweets, ou 30%); “manifestações públicas pró-governo” (17 tweets ou 7%); e “humanização de Jair Bolsonaro” (30 tweets ou 12%).

Gráfico 3 – Contagem das subcategorias

Da análise do gráfico acima e dos tweets coletados, o foco de Jair Bolsonaro parece ser nas conquistas do governo atual, na desinformação – que se alterna entre notícia falsa/manipulada e descrédito à mídia tradicional – e na sua própria humanização para aumentar a rede de apoio para o pleito eleitoral de 2022.

Em outros momentos, Jair Bolsonaro publica tweets que sequer possuem informações diretamente relevantes ao seu próprio governo. Em algumas postagens, ele ora se limita a atacar veículos de imprensa por supostamente não estarem repassando informações importantes sobre o país ao público; ora aparece “defendendo” a liberdade de expressão e de imprensa. Aí entram as imagens que direcionam a outras redes sociais dentro da própria base de apoio do presidente (Telegram, TikTok, GETTR e Kwai) sem filtragem de conteúdo e com “informações atualizadas diariamente”.

Humanização do candidato

Também se nota, na amostra, o aparecimento de tweets que colocam o Presidente em um local aparentemente comum, como à frente da TV assistindo um jogo do Flamengo, o que passa a imagem de “gente como a gente”. Jair passa uma imagem de simpatia para com os cidadãos.

As análises realizadas nos tweets de Jair Bolsonaro comprovam que, na realidade brasileira, a desinformação é construída, fortalecida e disseminada através de uma infraestrutura essencialmente humana, conforme descrito no livro Tecnologia do Oprimido (ed Milfontes).

Identificamos isso na análise dos tweets publicados no dia 22 de agosto último, que incitam a rede de apoio de Jair Bolsonaro a pesquisar sobre temas que já haviam sido alvo de desinformação. A estratégia está focada na convocação, por Bolsonaro, de seus apoiadores para participarem ativamente da construção da narrativa que desinforma.

Jair Bolsonaro vem reciclando desinformações já propagadas anteriormente, as quais foram, inclusive, checadas e explicadas por projetos de fact-checking, como dados sobre desemprego, contas públicas, lucros de estatais, violência contra a mulher, PIX e auxílios governamentais, ataque a urnas eletrônicas, ditadura militar no Brasil, combate à Covid-19, corrupção, desmatamento, impostos, financiamentos do BNDES e gasolina. Ao buscar esses temas nas plataformas indicadas, Bolsonaro os leva a encontrar informações mentirosas.

Nesse momento, precisamos entender que é responsabilidade de todo cidadão auxiliar no combate às fake news que vêm sendo disseminadas nas redes sociais, especialmente tendo em vista a questão da cidadania e da participação eleitoral. Já que a desinformação é participativa, o seu combate também precisa ser.

*Colaborou David Nemer

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