AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Os negócios da Match, fornecedora da Fifa na Copa da África e do Brasil

Aqui você lê a segunda parte do artigo do jornalista investigativo Rob Rose sobre a Match, fornecedora oficial de hospedagem da FIFA em 2014, escrito pouco antes da Copa da África do Sul

Os proprietários da Match, principalmente, a controladora Byrom PLC, serão os grandes beneficiários dos montantes pagos pelos torcedores por hospedagem na Copa. Como dito anteriormente, a Byrom PLC passou a deter 100 por cento da Match Event Services, depois da aquisição da Eurotech, em 2006. Mas o que é exatamente a Byrom, e quem é seu dono?

A empresa foi registrada em Cheadle, em Cheshire, no Reino Unido, em 1991, e atualmente tem 50.000 ações controladas por nove pessoas. Sete são da família Byrom, de origem mexicana: o diretor-geral Jaime, seu irmão Enrique, além de Carol, Harry, Ivy, Robyn e Aracelli; os outros dois são o diretor de marketing da Byrom, John Parker, e sua esposa, Ingrid Parker. Todos os acionistas, exceto Harry Byrom, moram em Cheshire, no Reino Unido.

Isso desmonta o argumento da Fifa de que o lucro vindo da hospedagem e hospitalidade ficam nos países-sede, favorecendo os anfitriões. Questionada sobre o quanto de fato a Match lucra com a Copa do Mundo, a Byrom respondeu por escrito que o contrato com a Fifa era confidencial. A Fifa limitou-se a responder que é impossível quantificar, já que vai além do período dos jogos em si, mas que a Byrom não lucra tanto assim.

Não é o que mostram as finanças da Byrom.

Mais de 100 milhões de rands para a Byrom

Com o passar dos anos, os lucros percentuais da Byrom só aumentaram. Em 1999, após a Copa do Mundo na França, as rendas percentuais subiram 19% e o lucro bruto, antes do recolhimento dos impostos, inchou 63%. Na África do Sul, a Byrom relatou que “fez vendas significativas relativas à Copa do Mundo de futebol que aconteceu na França”.

Em 2006, a Byrom PLC era dona de apenas 33% do Escritório do Comitê de Organização de Acomodações GmbH, que organizou os espaços para a Copa da Alemanha. Antes da Copa do Mundo na África do Sul, a Byrom havia comprado a parte da Match, correspondente a 50%. Agora, tendo comprado os outros 50% da Match, a Byrom PLC deve esperar todo o lucro no setor de acomodações. Adicionando os ganhos da Match Hospitality, parece razoável especular que a Byrom PLC poderia lucrar estes mais de 100 milhões de rands com a Copa na África do Sul.

Isso tudo, sem nenhum tipo de licitação. Em um documento obtido pelo autor, a Fifa diz que o contrato com a Match era de prestação de serviço regular e não um concurso público, e que devido a experiências anteriores, a Fifa acreditava que a Match era a empresa ideal para o serviço.

Ingressos sumiram no Japão

Mas que experiências anteriores foram essas?

Semanas antes da Copa do Mundo de 2002, o comitê organizador japonês criou uma força tarefa para investigar por que 140 mil ingressos destinados aos cidadãos japoneses não tinham sido impressos pela Byrom até pouco tempo antes do início das partidas. Em resposta, Jaime Byrom pediu desculpas “pelo inconveniente” e disse que não esperava por uma demanda tão grande.

Em 2002, o jornal britânico UK Telegraph informou que Blatter estava sendo criticado por ter concedido a Byrom o direito de imprimir os bilhetes sem licitação. A Byrom se limitou a dizer que a Fifa conseguiria negociar como quisesse com qualquer empresa.

Como a Match só foi criada em 2007, a PLC Byrom usou outras entidades para o serviço de alojamento e emissão de bilhetes. A primeira vez que o nome “Match” apareceu foi no balanço do mesmo ano da Byrom. “O grupo obteve um acordo de longo prazo com a Fifa para criar e operar a Joint Venture Match AG (Suíça) em sociedade com uma empresa suíça chamada Eurotech. A Match será encarregada das acomodações, impressão de bilhetes e tecnologia da informação para a Copa de 2010 e a Copa de 2014”.

Uma declaração curiosa não apenas por prever um “acordo de longo prazo” mas também porque a Fifa envolveu-se na criação da Match. A Byrom não explicou o assunto apesar de insistemente procurada por este jornalista.

Em 30 de outubro de 2007, a Fifa anunciou que a Match Hospitality havia sido escolhida como “a detentora oficial dos direitos de fornecer a hospitalidade da Fifa após um concurso público”. À época, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse que “os direitos tinham sido concedidos ao melhor concorrente”. A Fifa depois diria a esse jornalista que a Match Hospitality pagou 120 milhões de dólares pelo contrato e que “todo o gerenciamento funcionava sob o risco financeiro da empresa”.

O nome dos outros concorrentes que teriam participado desse “processo transparente” continua sendo um segredo bem guardado. A Fifa é particularmente sensível a este tipo de perguntas e, como a Byrom, recusou-se a responder questões mais específicas, como as que pediam o detalhamento dos documentos sobre como a Fifa havia nomeado a Match e como a entidade lidaria com o conflito de interesses em torno de Philippe Blatter.

Philippe Blatter, o sobrinho

Uma das quatro acionistas da Match Hospitality é a Infront Sports and Media AG – empresa liderada por Philippe Blatter, sobrinho de Josep Blatter, presidente da Fifa. Philippe Blatter foi nomeado presidente e CEO da Infront em dezembro de 2005, depois de passar 11 anos na empresa de consultoria McKinsey Sports Pratice.

Em resposta às perguntas deste repórter, o porta-voz da Infront, Jörg Polzer, protestou: “O processo de concorrência foi inteiramente conduzido pela administração da Match Hospitality AG e, como acionista minoritário, nós (a Infront) não fomos envolvidos na negociação com a Fifa ou com o operacional do negócio. Nós não vemos isso [as relações da cúpula da FIFA com a Match] como um conflito de interesses”, disse. Mas, tal como os outros investidores, a Infront não quis revelar quem são seus acionistas:”Ficou acordado entre as partes envolvidas que a estrutura acionária da empresa não seria revelada”, declarou. Novamente, nenhuma justificativa é apresentada para a falta de transparência.

Durante uma entrevista à Rádio 702 [emissora de rádio sul-africana] depois do meu artigo no jornal South Africa’s Sunday Times, Jaime Byrom também expôs sua visão: “O que [o Sunday Times] não disse é que a Infront é uma acionista minoritária da Match Hospitality. A pessoa em questão, Philippe Blatter, não é de fato acionista da Infront, então como ele conseguiu ligar a Match Hospitality ganho pessoal da família Blatter? Simplesmente não está correto”, disse.

A resposta de Byrom está, no mínimo, incompleta. Embora a Infront não publique relatórios anuais com a estrutura societária, quando foi criada, em 2003, declarou como acionistas Robert Louis-Dreyfus (o ex-cabeça da Adidas), JACOBS AG, Overlook Management BV, Martin Steinmeyer, além da equipe administrativa da Infront. Ou seja, todo o pessoal de gerenciamento da Infront recebeu ações da companhia. Por que seria diferente quando Blatter chegou à empresa, em 2005?

E essa não é a primeira vez que as relações de Philippe Blatter com a Fifa são levantadas. Quando ele estava à frente da McKinsey, a empresa também faturou bastante com contratos de consultoria em vários assuntos: de organização administrativa a planejamento dos congressos da Fifa. À época, os pagamentos mensais da Fifa a McKinsey passaram de 437.864 dólares para 792.326 dólares.

Em 2002, ninguém menos do que o secretário-geral da Fifa, Michel Zen-Ruffinen, disse em um relatório para a organização que Blatter destinou 7 milhões de dólares para a McKinsey precisamente porque Philippe Blatter dirigia a empresa europeia. Joseph Blatter respondeu que todo o negócio ocorreu através de concorrência – uma resposta padrão quando ele é questionado sobre contratos com partes relacionadas.

E como a Infront se tornou a distribuidora exclusiva de direitos de transmissão e marketing da Fifa?  A resposta para essa pergunta passa pelo episódio mais sórdido da história da Fifa: o colapso da International Sport and Leisure (ISL), empresa condenada por corrupção pela Justiça.

Criada em 1983 pela FIFA “para lidar com os direitos de merchandising e direitos de publicidade”, a ISL deteve os direitos de marketing para a Copa do Mundo por quase duas décadas, assim como os direitos de radiodifusão para os Jogos Olímpicos e do Campeonato Mundial de Atletismo.

Em 1996, a ISL ganhou, com um lance de 1,45 bilhões de dólares, a concessão para o “marketing completo e direitos de patrocínio” para eventos da Fifa, apesar de uma oferta de 1,6 bilhões de dólares do Internacional Mark McCormack Management Group.

A especulação era de que a Fifa, encabeçada por João Havelange, teria optado pela ISL principalmente para fazer lobby para Joseph Blatter, protegido (pelo então presidente da FIFA, João Havelange). Blatter foi eleito presidente da entidade em 1998

Mas os anos seguintes foram não foram bons para ISL, que foi à falência em 21 de maio de 2001, com prejuízo de 300 milhões de dólares. A própria Fifa perdeu cerca de 30 milhões de dólares, segundo Blatter.

Após a ruína da ISL, os direitos de transmissão foram tomados pela Kirchmedia, que também teve problemas financeiros em 2002, e foi substituída pela Kirchsport, que assumiu os direitos para a Copa do Mundo de 2002 e 2006. Depois de uma operação de compra, a Kirchsport foi rebatizada como Infront Sports e Marketing – uma acionista da Match, e espécie de “reencarnação espiritual” da ISL.

Em 2002, a Fifa apresentou uma queixa-crime contra a ISL por causa de mais de 22 milhões de dólares, que foram “perdidos”. Este montante era para ser repassado para a FIFA pela ISL com a venda dos direitos de transmissão para a TV Globo.

Surpreendentemente, porém, a Fifa, tentou retirar a queixa em 2004, mas já era tarde demais. O juiz suíço Thomas Hildbrand disse que tinha encontrado numerosos indícios de crimes financeiros e, em 2007, seis funcionários da ISL foram a julgamento por desvio de 45.000.000 de libras (ou 71.221.500 de dólares). Em julho de 2008, o resultado do processo criminal destruiu o conceito de “esporte limpo”. Não só se descobriu que a ISL gastou 66.000.000 de libras (ou 104.458.200 de dólares) em propinas a pessoas relacionadas ao esporte mas também 89.000 libras (140.860 dólares) supostamente pagas ao paraguaio Nicolas Leoz, membro do comitê executivo da Fifa. Estes números certamente esclarecem a forma como funciona o mundo do marketing esportivo

O ex-CEO da ISL, Christoph Malms, testemunhou que, depois de entrar na ISL, teria descoberto que a empresa foi construída a base de subornos: “Foi-me dito que a empresa não teria existido se não tivesse feito tais pagamentos”. E o ex-chefe de finanças da ISL,Hans-Juerg Schmid disse: “Se não tivéssemos feito os pagamentos, os outros parceiros não teriam assinado os contratos”.

Em maio de 2010, a ISL foi condenada pela Justiça suíça e a FIFA recebeu a advertência de que precisava ser muito mais transparente se quisesse se livrar da reputação de uma organização nepotista e corrupta.

Como a FIFA ganha dinheiro?

O desastre da ISL mostra que o diabo mora na rede dos contratos auxiliares que a Fifa controla, que são o verdadeiro canal pelo qual o dinheiro vai para a organização suíça.

Como diz o próprio Blatter no relatório financeiro da Fifa, a maior parte do lucro da organização é com a venda dos direitos de transmissão e marketing para a Copa do Mundo. Isso tem funcionado bem. Mesmo durante os anos em que a Copa não acontece, foram registrados lucros anuais, desde 2003, pelo menos. Em 2008, por exemplo, apesar da crise financeira internacional, a Fifa lucrou US$184 milhões de dólares.

Para a Copa do Mundo de 2010, as rendas geradas por meio dos “direitos de venda” entre 2007 e 2010 foram de 3,2 bilhões de dólares. 2 bilhões foram em direitos de TV (63% do total), 1 bilhão em direitos de marketing, 120 milhões em direitos de hospitalidade e 80 milhões de dólares em licenciamento. Os patrocinadores da Copa do Mundo, como a marca de cerveja Budweiser e a empresa de celulares MTN, também pagam uma taxa à Fifa, mas isso está incluído nos direitos de marketing.

Diferente da Copa de 2006, onde a Infront lidou com as vendas dos direitos de transmissão, a Fifa decidiu fazer ela mesma essa tarefa para o evento de 2010. Mas a joint venture entre a Infront e a Dentsu ainda tem um contrato exclusivo com a Fifa para vender os direitos de transmissão na Ásia para a Copa do Mundo da África do Sul e para a Copa de 2014.

São os contratos lucrativos para esses direitos assinados com terceiras partes que devem ser monitorados de perto pelo governo para verificar se existem sinais de conflito de interesses. Afinal, as revelações de como esses direitos foram divididos pela ISL por meio de aparentes incentivos perversos deixa uma nuvem de suspeita sobre qualquer negócio fechado com similares da Infront e da Match. Enquanto as empresas insistirem em manter detalhes em segredo – e enquanto os membros de suas famílias estiverem envolvidos – a necessidade de total transparência é cada vez mais urgente.

Leia a primeira parte da reportagem AQUI

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Tags: ,

Comentários

Opte por Disqus ou Facebook

  • Margarete

    Gostei do portal, muito pertinente! Precisamos de liberdade de expressão e imprensa, algo oculto na grande mídia.

O vácuo eleitoral

O vácuo eleitoral

| por | 22 outubro, 2014

Assista ao vídeo do primeiro e único debate sobre temas que os candidatos não querem responder, mediado por Rafucko

Tools