Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

Araguaia: “Estamos mais perto da verdade”, diz juíza

Interrompidas pelas chuvas de verão, as buscas pelos restos mortais dos desaparecidos na guerrilha do Araguaia devem trazer resultados nas próximas expedições

Reportagem
3 de maio de 2011
12:27
Este artigo tem mais de 12 ano

“Continuamos enfrentando a resistência dos comandantes em entregar à Justiça os documentos exigidos, mas depoimentos de camponeses e militares trouxeram pistas importantes, que podem finalmente nos levar ao paradeiro de corpos nessa nova etapa”, disse à Pública a juíza Solange Salgado, da 1a Vara da Justiça Federal, em Brasília.

Embora não possa revelar detalhes dos depoimentos para não expor os informantes a riscos e pressões, a dra. Solange não disfarçou seu otimismo em conversas com a Pública nos últimos dias: “Estamos mais perto da verdade”, afirmou a juíza que esteve na região durante a última expedição, que se encerrou no final de outubro de 2010. O  GTT, comandado pelo ministério da Defesa, foi constituído em 2009 para cumprir a sentença proferida em 2003 pela juíza federal, em processo movido por familiares dos guerrilheiros mortos desde 1982. Até o momento, as buscas do GTT resultaram na localização de dois corpos ainda não identificados.

Os principais depoimentos de militares de baixa patente e camponeses, que ainda hoje vivem na região, no que se refere ao paradeiro dos corpos, são dos que participaram ou presenciaram fatos ocorridos durante a “Operação Limpeza”, ocorrida entre o final de 1974 e 1976. Muitos relatam a retirada de corpos nesse período, enterrados nos cemitérios de Xambioá e Marabá – e em outros locais da região onde presos foram torturados e mortos como a “Casa Azul” e as bases de Xambioá e Bacaba – que teriam sido embalados em sacos de lona e jogados na mata por helicópteros da Aeronáutica, (veja reportagem). Os relatos também são insistentes em outro ponto: o grande número de assassinatos de camponeses, acusados de colaborar com a guerrilha.

Centenas de camponeses mortos

As informações mais recentes obtidas pelo GTT – incluindo as realizadas por uma equipe da Justiça Federal – apontam para três conclusões até o momento: 1- apesar das sucessivas operações “limpeza” – que também ocorreram nas décadas de 1980 e 1990 -, os corpos continuam no Araguaia, em locais de difícil acesso; 2- o número de camponeses mortos pelas Forças Armadas e policiais da repressão é muito maior do que se tem notícia (“centenas”, segundo o ouvidor do GTT, Paulo Fonteles; “um número bem maior do que de guerrilheiros mortos”, segundo a juíza); 3- ainda hoje militares envolvidos no conflito monitoram a região para intimidar testemunhas e dificultar a localização dos corpos que, no entanto, não foram queimados nem retirados da região.

A intimidação das testemunhas, aliás, ocorre também durante as expedições do GTT, coordenada pelo Ministério da Defesa, que além dos necessários peritos e especialistas civis e militares, conta com mais de quarenta militares atuando no setor de “logística” da operação. “A chegada ostensiva de dezenas de homens fardados, armados, em uma região traumatizada inibe as testemunhas”, diz Diva Santana, representante dos familiares no Comitê de Supervisão do GTT – criado, exatamente, em virtude da reclamação dos parentes dos desaparecidos sobre a composição do grupo. Também há relatos de ameaças recentes sofridas por camponeses e ex-soldados que continuam vivendo na região.

Para evitar o aparato militar, uma equipe se deslocou de forma mais discreta, concentrando-se nos depoimentos dos que participaram das operações “limpeza” de 1975, enquanto as demais equipes ouviram principalmente os relatos históricos da guerrilha. Do trabalho dessa equipe, e de depoimentos ouvidos pela juíza em seu gabinete em Brasília é que vieram as informações que guiarão as próximas buscas.

“Tenho um princípio: recebo todo mundo que quer falar sobre o Araguaia”, explica a juíza Solange Salgado. “Tem gente que me procura dizendo ‘não quero morrer levando este segredo” e outros que têm medo de serem comprometidos no futuro”, diz. “Esse tem se mostrado um caminho bem mais promissor do que os documentos, até hoje não entregues pelas Forças Armadas”, afirma.

Leia mais:  “Houve mais camponeses mortos no Araguaia do que se fala”, diz mateiro do Exército

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Quer entender melhor? A Pública te ajuda.

Leia também

Pública encontra destroços de bombas de napalm no Vale do Ribeira

Por , ,

Região a 200 km de São Paulo foi palco de operação de guerra durante a ditadura militar

Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive

Por

Vias públicas batizadas em homenagem a torturadores e mandantes do regime militar estão presentes em todo o país

Notas mais recentes

Governo e bancada feminina da Câmara tentam aprovar Política Nacional de Cuidados


Governo define áreas de conflito que serão priorizadas em reforma agrária


Tocantins regularizou mais de 50 mil hectares com lei pró-grilagem questionada no STF


Frente ambientalista denuncia paralisação da Comissão de Meio Ambiente da Câmara


Ministra da Saúde cita dificuldades para vacinar Yanomami e adota meta de 70% até 2027


Leia também

Pública encontra destroços de bombas de napalm no Vale do Ribeira


Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive


Faça parte

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes