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Madonna, um show histórico e o assalto aos cofres públicos em Montenegro

Como um show da diva pop levou a um enorme prejuízo pago com dinheiro público no pequeno país do leste europeu

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1 de junho de 2012
12:00
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O dia 25 de setembro de 2008 foi um grande dia para Montenegro, um pequeno país na costa do Mar Adriático. Madonna escolheu a bonita Jazz Beach, na cidade de Budva, para seu show de estreia na região dos Balcãs.

Entre 50 e 60 mil fãs e mais de 400 jornalistas, fotógrafos e equipes de televisão de toda a antiga Iugoslávia e da Europa foram assistir ao que foi descrito como o evento mais importante na história da música de Montenegro.

Madonna chegou de helicóptero do Hotel Splendidi, perto de Budva, onde estava hospedada com a família em uma luxuosa suíte presidencial. E se apresentou em um palco tão comprido quanto um campo de futebol, acompanhada de 20 dançarinos e 12 músicos.

A turnê Sticky & Sweet, de Madonna, foi uma das cinco mais vendidas no mundo naquele ano, levantando US$ 281,6 milhões.

A população de Montenegro não chega a 1 milhão de habitantes. Mesmo assim, os cofres do governo acabaram bancando uma conta altíssima: o governo pagou cerca de US$ 5,3 milhões para reembolsar o banco privado First Bank, que pagou pelo show.

O First Bank é controlado pela família de Milo Djukanovic, presidente do partido no poder e ex-primeiro ministro. Seu irmão, que já foi promoter de shows, é o maior acionista.

Quando anunciaram o show, os organizadores garantiam que nenhum dinheiro do público seria gasto com Madonna. Mas no final quem acabou pagando foram os cidadãos de Montenegro.

O show esvaziou as reservas do banco no momento em que ele estava tendo problemas para cumprir com os pedidos de transferência eletrônica de seus próprios clientes.

Documentos do Banco Central de Montenegro obtidos pelo OCCRP, parceiro da Pública, mostram que mais de 200 pedidos de clientes que tinham dinheiro suficiente no banco foram rejeitados nos dias seguintes ao pagamento de Madonna.

O banco, a família do ex-primeiro-ministro e um monte de mentiras

Publicamente, o show foi organizado pela Prefeitura de Budva, a Organização Nacional de Turismo de Montenegro e a Organização de Turismo de Budva (TOB) e por meio da contribuição de Svetozar Marovic, vice-presidente do Partido Democrata dos Socialistas, o mesmo do ex-primeiro-ministro. “O projeto inteiro será financiado por patrocinadores e nenhum centavo será tirado do orçamento do estado ou do município”, garantiu Marovic na época.

Essa afirmação se provaria falsa. Alguns dias antes do anúncio do show, um total de US$ 7,5 milhões foi transferido de contas do próprio First Bank para a conta da Agência Solo, agente de Madonna.

Publicamente, os organizadores anunciaram que o First Bank venderia parte dos 66 mil ingressos para o show. Mas na mesma época do show, o First Bank encarou uma crise grave de liquidez e começou a ter problemas em pagar os pedidos de transferências eletrônicas dos seus clientes. O banco privado precisavam de dinheiro, e rápido.

De acordo documentos do Banco Central, um negócio foi fechado. A TOB, subsidiária da Organização de Turismo de Budva, e o First Bank assinaram um acordo que transformou o pagamento do banco ao agente de Madonna em um empréstimo a curto prazo de US$ 4,7 milhões para a organização turística – a finalidade declarada do empréstimo era organizar o show.

No mesmo dia, uma empresa privada, a Zavala Invest, transferiu US$ 1,2 milhão para o banco para patrocinar o show. Quatro dias depois, o governo de Montenegro também enviou US$ 600 mil ao First Bank para reembolsá-los por pagamentos realizados em relação ao show.

Tanto esforço governamental para cobrir o buraco não foi suficiente. No dia do show, os clientes do First Bank pediram ao banco transferências no valor de US$ 16 milhões que o banco simplesmente não tinha.

Três semanas depois, o negócio provocou uma auditoria do Banco Central de Montenegro. Os auditores questionaram a transferência para a conta de Madonna e pediram para ver a papelada.

O Banco Central concluiu: “[First Bank] inicialmente financiou o projeto do show da cantora Madonna no começo de Junho de 2008, sem acordar previamente com uma estrutura financeira e com obrigações de todos os participantes do projeto.”

O desespero de um banco muito bem relacionado

No final daquele ano, os problemas de liquidez no banco continuavam, e o First Bank fez um pedido de resgate urgente ao Ministério das Finanças, no valor de US$ 54 milhões – a serem pagos com dinheiro dos contribuintes. O banco devia US$ 40 milhões, incluindo a clientes que precisavam acessar o dinheiro de suas próprias contas.

Não parou por aí. Dois meses depois do show, o First bank pediu à Organização de Turismo de Budva para pagar imediatamente seu “empréstimo” de US$ 4,7 milhões.  A “dívida” foi paga em dezembro daquele ano, através de uma empresa hoteleira pública.

“Recomendamos que o banco não se envolva em projetos que não estão definidos por contratos pré-estabelecidos e que possuem claro motivo e construção financeira”, diz o relatório do Banco Central.

Também não ficou claro quem ficou com o dinheiro das vendas dos ingressos e porque a empresa hoteleira pública, que nunca foi listada como organizadora, saiu com uma dívida de US$ 4,7  milhões do show.

Mais um motivo para o show de Madonna ficar para sempre na memória dos montenegrinos.

Reportagem publicada pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project. Clique aqui para ler o texto original. 

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