Trancado em um pequeno escritório, o australiano vazou 2 milhões de documentos do governo sírio, fez um chanceler britânico perder as estribeiras e ainda teve tempo de satirizar o editor do New York Times

Trancado em um pequeno escritório, o australiano vazou 2 milhões de documentos do governo sírio, fez um chanceler britânico perder as estribeiras e ainda teve tempo de satirizar o editor do New York Times

20 de agosto de 2012
19:18
Este texto foi publicado há mais de 10 anos.

Até a noite de quarta-feira eram poucos os policiais que vigiavam a entrada da embaixada equatoriana em Londres; passavam parte do turno apoiados no balcão da recepção, batendo papo com um simpático equatoriano gorducho que recebe as visitas, frequentes.

Onde quer que Julian Assange esteja, sabe-se que haverá um constante entra-e-sai, de amigos, jornalistas, advogados, cyberativistas. Haverá um pequeno grupo de apoiadores segurando cartazes e tocando um mau violão. E vez ou outra, uma turba de repórteres atrás da última notícia sobre o WikiLeaks e seu fundador – quase sempre algo inesperado, inédito, francamente provocador.

Naquele sábado de julho, semanas depois de Assange ter pedido asilo na embaixada, fugindo dos olhares dos policiais o recepcionista respondeu animado à minha saudação:

– Como está tudo por aqui?

– Muito bom, muito bom!

Lá dentro, uma jovem morena de braços tatuados me acompanhou. Passando pela recepção, onde uma foto de Rafael Corrêa com a faixa presidencial recebe os visitantes, há um corredor longo e branco; ao fundo dele, no escritório modesto espalha-se uma balbúrdia de cartões de congratulações. Coloridos. A janela está sempre coberta pelas cortinas brancas – afinal, lá dentro vive um dos homens mais vigiados da Grã Bretanha. Que invariavelmente está sentado à mesa de madeira, mergulhado no seu laptop, entretido em uma quantidade inacreditável de dilemas éticos, jornalísticos, jurídicos.

Julian quase sempre é categórico: existe o certo, e o errado. “Só havia uma decisão à qual a Corte Suprema Britânica poderia ter chegado”, me disse naquela tarde. A Corte decidira enviá-lo para a Suécia, onde um promotor pede sua extradição para ser interrogado sobre alegações de crimes sexuais. Para Julian e seus advogados, um promotor não pode ser considerado como autoridade judicial segundo as leis britânicas. “Eles então usaram uma convenção que nem foi discutida no julgamento para embasar a decisão. E é mentira”.

Foi com plena convicção de que o processo tinha sérias falhas legais, que o alvíssimo australiano tocou a campainha da embaixada no dia 19 de junho, e não saiu mais. Surpreendeu o judiciário britânico e sueco, a população do Equador, a imprensa internacional, a Interpol.

E seus amigos mais próximos. “Eu fiquei chocado quando soube”, disse o jornalista americano Gavin MacFadyen. “Ele decidiu não avisar a ninguém, nem mesmo aos que deram dinheiro para sua fiança. Se alguém mais soubesse, poderia ser responsabilizado legalmente”.

Nos dias seguintes parte da equipe do WikiLeaks já se reunia na embaixada, retomando o ritmo de trabalho – a organização jamais teve uma sede. Ali, continuou produzindo vazamentos saborosos, mostrando que o WilkiLeaks está ativo, ao contrário do que muitos desejariam. Em 5 de julho, começou a publicar os Arquivos da Síria, mais de dois milhões de emails internos do governo sírio. A partir deles, jornais do Líbano, Egito, Alemanha e Itália, além da americana Associated Press, revelaram negócios de empresas europeias com o regime amplamente criticado pelas nações as quais pertencem por massacrar os oposicionistas.

Não deu nem três semanas, e a organização realizou uma elaborada ação virtual – uma “pegadinha” – ao colocar no ar um site falso do jornal New York Times, no qual um suposto artigo do editor Bill Keller, crítico voraz de Assange, pedia desculpas pelas rusgas passadas. O estilo era tão convincente que o próprio New York Times tuitou. A farsa gerou confusão, bate-boca virtual e críticas – afinal, afimou o jornalista Green Greenwald, não pega bem para uma organização que publica documentos verdadeiros falsificar um artigo. Assange&Co – como assinaram no twitter – nem ligaram.

Aproximando-se de grupos como o The Yes Men, formado por ativistas americanos que se fazem passar por empresários para fazer palestras absurdas  (em 2004, o Yes Men protagonizou uma entrevista falsa à BBC, afirmando que a empresa Dow Chemical compensaria as vítimas do pior desastre industrial da história, em Bhopal, na Índia; as ações caíram imediatamente em 4%, ou 2 bilhões de dólares), a ação visava criticar o silêncio do New York Times sobre o bloqueio econômico realizado pelas empresas PayPal, Visa e Mastercard, que suspenderam os serviços de doações ao site. “Isso sim não é brincadeira”, tuitaram.

Por bem ou por mal, a brincadeira conseguiu levar a notícia à imprensa norteamericana. Apenas algumas semanas antes – e já com Assange na embaixada – o WikiLeaks obtivera uma vitória pouco noticiada tanto nos EUA quanto no Brasil. A empresa Valitor, que opera as transações dos cartões Visa e Mastercard, perdeu uma batalha judicial por ter suspenso as doações ao WikiLeaks. Uma corte islandesa ordenou a reabertura das doações, mas a Valitor recorreu da decisão. Se a senteça for mantida, sera um precedente importante para outros processos que estão sendo movidos pelo WikiLeaks contra as duas maiores bandeiras mundiais de cartões.

A saga do WikiLeaks deve, portanto, se arrastar por muito meses ainda. O que não a torna menos cativante: ainda nesta segunda-feira havia diante da janela acortinada alguns apoiadores com seus cartazes – muitos deles instalados desde que o Reino Unido triplicou a quantidade de policiais na vigília após ameaçar, por carta, evocar uma lei de 1987 para suspender o status diplomático da embaixada e prender Assange ali mesmo. “O Reino Unido não reconhece o princípio do asilo diplomático”, declarou depois o Ministro do Exterior britânico William Hague.

Se foi previsível a resposta acalorada do presidente Rafael Corrêa, evocando a soberania do Equador, foram poucas as ocasiões em que um chanceler do Reino Unido perdeu as estribeiras desta maneira, pelo menos nos anos mais recentes. Afinal, contestar um tratado de peso como a Convenção de Viena não soa nada britânico.

É essa talvez a principal qualidade do hacker, ativista, jornalista e provocador por excelência. Mesmo enclausurado em um pequeno escritório, em prisão domiciliar há mais de ano e meio, Julian insiste em fazer o que faz melhor: desnudar o cinismo das versões oficiais. “Assange é uma pessoa impossível”, reclamou certa vez um renomado jornalista britânico.

E o mundo é muito mais interessante com ele.

 

Uma versão deste artigo foi publicada no caderno Aliás, do jornal Estado de São Paulo

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