A população de baixa renda da região portuária do Rio vive às voltas com a cobiça dos investidores e incorporadores imobiliários

A população de baixa renda da região portuária do Rio vive às voltas com a cobiça dos investidores e incorporadores imobiliários

10 de janeiro de 2017
12:00
Este texto foi publicado há mais de 5 anos.

Quando Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro, lançou a Operação Urbana – Porto Maravilha, em 2009, ele prometeu trazer de volta à vida a histórica zona portuária, uma região que estava há décadas abandonada pelo poder público. A revitalização de US$ 2 bilhões foi programada em parceria com o setor privado e inclui arranha-céus, um sistema de bondes e uma nova orla projetada por arquitetos renomados.

O plano, no entanto, ignorou os antigos moradores da região, em sua maioria trabalhadores de baixa renda, e ameaçou apagar o passado predominantemente negro da área. Assim como em outras grandes cidades do mundo, a chegada de investidores e incorporadoras imobiliárias ocorreu às custas dos moradores mais pobres, excluídos do bairro em detrimento de uma classe mais rica. Em poucos anos, cerca de 640 famílias – de uma população total de 32 mil – foram removidas à força de suas casas. 

Foi o caso de Paulo Cezar da Paula, e também de seu filho, esposa e outras 120 pessoas que habitavam a ocupação Quilombo das Guerreiras, na Gamboa. Todos foram despejados para abrir espaço para a Trump Tower Rio, uma franquia da marca imobiliária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A família agora vive em um armazém abandonado, que eles esperam ser convertido em um dos poucos projetos de habitação social incluídos no projeto de revitalização do Porto Maravilha.

Como há grande procura para morar na região central carioca, aqueles que não são despejados muitas vezes se vêem obrigados a pagar preços excessivos para viver em condições precárias. Silvimar Soares vive com seus dois irmãos em um minúsculo quarto aos pés do Morro da Providência, dividindo com eles uma cama de casal. Cortiços sempre fizeram parte da história do Rio de Janeiro, atraindo, no início, escravos libertos e trabalhadores, que precisavam de uma moradia próxima ao seu local de trabalho.

Funcionários da prefeitura entrevistados pela Pública não reconhecem os cortiços como moradias, deixando os inquilinos vulneráveis em caso de despejos forçados. Ainda assim, existem soluções alternativas, como o caso de Isabela Moreira. Há mais de uma década, Moreira mudou-se para um dos cortiços da região portuária graças a um programa financiado pela prefeitura e pela Caixa Econômica.

O projeto Novas Alternativas – Morando no Centro visava à restauração de antigas habitações do centro da cidade para garantir a manutenção de moradia a preços acessíveis na região. Hoje, os moradores estão sentindo ainda mais a pressão de grandes incorporadoras e, sem o apoio da administração municipal, a elitização tem avançado na região.

Cortiços from Agência Pública on Vimeo.

Investigação possível graças a uma residência na Casa Pública, fornecida pela Agência Pública do Rio de Janeiro.

Seja aliada da Pública

Investigar as ameaças à democracia é nossa forma de protegê-la.

Leia também

O Porto Maravilha é negro

19 de julho de 2016 | por

Construído na região que abrigou o maior porto negreiro das Américas, projeto da prefeitura “lembra pra esquecer” essa herança; debaixo da atração turística há milhares de ossos de escravos traficados, dizem especialistas

A outra história do Porto Maravilha

9 de agosto de 2016 | por

Sede do Boulevard Olímpico, maior PPP do país inaugurou um mercado ainda inexplorado pelas empreiteiras

Momento em que vídeo revelado pela Pública foi exibido durante a sessão da CPI

iFood não revelou detalhes da jornada de trabalho de entregadores na CPI dos Apps

8 de agosto de 2022 | por

Mas pesquisa interna entregue às agências de publicidade investigadas revelam jornada de mais de 10 horas diárias

Mais recentes

Ajude a Pública a investigar a violência nas eleições de 2022

10 de agosto de 2022 | por

Com a participação do público, vamos monitorar casos de violência como ofensas, ameaças, agressões e assassinatos

Acampamento guarani-kaiowá à beira de estrada (Dourados, Mato Grosso do Sul)

Governo Bolsonaro liberou fazendas em terras Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul

10 de agosto de 2022 | por e

Territórios são atingidos por normativa da Funai que piora cenário já grave de disputa por terra e conflitos

Líder Yanomami Davi Kopenawa

Davi Kopenawa: “Hoje, indígenas não estão sozinhos. Bolsonaro não pode acabar com a gente”

9 de agosto de 2022 | por

Líder Yanomami diz que presidente "não tem direito de acabar com a vida" dos indígenas e que governo desrespeita a própria lei ao não expulsar garimpeiros de seu território