AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

O Porto Maravilha é nosso

O passado do porto do Rio é tão rico que é chocante o quão pouco se faz para resgatá-lo. Mistura de gamificação, sensibilidade e informação, o Museu do Ontem, primeiro app da Pública, traz um pouco dessa história

Na sexta-feira passada (23), a Pública lançou seu primeiro aplicativo, o Museu do Ontem (saiba mais aqui), um game que mistura exploração urbana, arte e jornalismo pra desconstruir (ou construir) o significado do porto do Rio pra nossa história.

Foi um ano de trabalho, desde o primeiro conceito de exploração urbana proposto pelo Babak Fakhamzadeh, até os primeiros mapas rabiscados pelo traço delicado da artista Juliana Russo. No caminho, fomos misturando a visão dos três: a minha, focada na comunicação e nas descobertas jornalísticas, que estão ali espalhadas pela área portuária pedindo para que os usuários descubram onde estão; a visão lírica da Ju Russo, que se encantou tanto ao perceber as modificações (ou mutilações) feitas pela reforma do cais de Francisco Bicalho no litoral carioca, tornando tudo reto, engolindo as reentrâncias de mar e enfeando o contorno do mapa (ressaltadas nos lindos desenhos abaixo) que ela nos convenceu a incluir um botãozinho para o usuário conseguir ver exatamente como era em 1832 o traçado da área onde ele está; e a visão matemática do Babak, para quem mapas, coordenadas e bússolas são instrumentos imprescindíveis para explorar um ambiente urbano.

Não foi fácil, mas lançamos, na última sexta-feira, o resultado deste encontro, uma mistura de gamificação, sensibilidade e informação. O aplicativo Museu do Ontem é algo que ninguém tinha feito antes, e o resultado é muito bonito e instigante.

Ora, por que a Pública foi se meter a lançar um aplicativo sobre o Porto do Rio? Porque ao longo do ano passado, quando nos instalamos em terras cariocas para abrir a Casa Pública, fomos descobrindo coisas sobre a antiga capital que pouca gente sabe, mas que pertencem a um passado que não é só dos cariocas – perdoem-me, cariocas – mas de todos nós, brasileiros. Quando, no afã dos preparativos para a Copa do Mundo e a Olimpíada, o Brasil foi enganado com as histórias mentirosas sobre quão maravilhoso era o Porto Maravilha, ninguém tinha muita clareza do que esse porto significa.

O porto do Rio de Janeiro guarda a história do começo da nossa nação. Foi ali que a esquadra de Dom João VI chegou com 10 mil nobres e toda a grana de Portugal, quando fugiram de Napoleão; foi ali que Tiradentes foi enforcado em praça pública, esquartejado e salgado; lá que a Lei Áurea foi assinada, depois de se manter ali mesmo durante mais de meio século o maior porto de escravos das Américas, redescoberto por acaso quando uma senhora reformava o piso de sua casa em 1996.

Pelas mesmas ruas onde durante séculos os portugueses vendiam e compravam africanos escravizados nus e famintos em lojas que eram verdadeiros depósitos, como cavalos, também passeou uma multidão de estudantes carregando o corpo de um jovem de 17 anos, Edson Luís, assassinado pelo governo militar em 1968. Da janela do antigo prédio do Ministério da Justiça caiu (ou foi atirado) o ex-praça Dilermano Melo do Nascimento, um dos primeiros “suicidados” da ditadura. Ali ficava o Dops do Rio; ali existiam três morros que foram implodidos e pedras majestosas que foram cortadas; ali existe a primeira favela do Brasil. O passado do porto do Rio é tão rico que é chocante o quão pouco se fez até agora para lembrar esses episódios. As placas são poucas. Os circuitos históricos, subexplorados. Por isso, o que o Museu do Ontem faz é adicionar pontos virtuais, mas geolocalizados, que permitem que todo mundo possa reviver essas histórias.

Loja de escravos no Valongo (Ilustração: Juliana Russo/Agência Pública)

Com generosidade, o jornalista Laurentino Gomes permitiu que usássemos alguns trechos do seu livro 1808, que reconta tão bem a chegada da corte portuguesa; dá pra fechar os olhos e sentir que você está lá naquela época. Depois de ler o livro do Laurentino, ficou sem sentido reescrever esses episódios: bastava ler. Convidamos a cantora Anelis Assumpção para ser a voz que daria vida ao livro, o que ela aceitou de bom grado. No processo, encontramos anúncios de comércio de escravos, e pedimos para que os gravasse. Anelis enviou um e-mail de madrugada, emocionada, sobre “esse passado tão meu”. “Chorei um pouco e li em voz alta pra que as pessoas em casa pudessem entender. Sonhei pela noite. Um sonho confuso. Mas não era de todo ruim”, escreveu ela. Sua voz no Museu do Ontem ressoa este impacto que sentiu. É de arrepiar.

No meio dessa longa caminhada entre transformar o conceito em produto, fomos recebendo a adesão e o apoio de pessoas que deram seu sangue e sua energia ao projeto. A Gabriele Roza, que escreveu mais da metade dos textos, foi se emocionando ao redescobrir a sua cidade de outra maneira, e nós fomos nos empolgando com ela. A Mariana Simões, que emprestou também a sua voz, a Marina Dias e o caro Thiago Tanji, que testaram o produto e se apaixonaram como nós, o Bruno Fonseca, que fez os ícones e artes que deixaram o app mais atraente.

Se você quer ver o resultado desse trabalho coletivo e maluco, pegue o celular, vá à loja da Apple ou do Google Play, baixe agora o Museu do Ontem. E corra pro porto do Rio pra capturar esse passado que é tão nosso. Prepare-se pra andar muito. O jogo é desafiador, é intenso, e é uma delícia.

E pra quem está fora do Rio, fique ligado, porque nas próximas semanas vamos lançar um jogo remoto, em que é possível fazer alguns “tours” virtuais, para permitir que mais gente tenha acesso a esse conteúdo e ao nosso jogo.

Em tempo: financiado pelo homem do Cunha na Caixa Econômica Federal, o Porto Maravilha rendeu pelo menos R$ 52 milhões em propinas para o PMDB e faliu. Hoje, os terrenos estão emperrados. O maior monumento a esse assalto sob o sol do meio dia é o Museu do Amanhã, que exalta o futuro possível antes de olhar para o passado que o porto esconde. Antes me doía, como jornalista e como brasileira, que estivesse ali, como troféu desse grande fiasco que foram os megaeventos no Brasil. Agora, pelo menos, estão espalhados ali em volta pequenas verdades sobre nosso passado antigo e sobre nosso passado recente. Porque o porto do Rio é nosso, é de todos nós.

Comentários

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  • jorge gomes

    De fato a região onde se localiza o Porto do Rio, para nós negros brasileiros é um local enigmático, pois devemos lembrar que muito antes da chegada da família Real ao Rio de Janeiro, todos os escravos oriundos da África e de outros cantos do Brasil por ali passava. Embora a região do Valongo hoje seja reverenciada, a região do porto – a do comércio de escravos ia desde além da Pça XV até a ponta do Cajú, ou seja, o porto abrangia todo o centro da cidade. Eu tive a honra de ter participado dos primeiros trabalhos no local do qual ainda era chamado Cemitério dos Pretos Novos, na época tive a oportunidade de acompanhar a nossa querida Mercedes e seu Marido – proprietários do imóvel onde foram encontrados as ossadas humanas dos escravos, e sua luta junto a Prefeitura do Rio e IPHAN para conseguir recursos para preservar aqueles achados de enorme importância para a história do Brasil. O quê posso afirmar é que se não fossem aqueles achados descobertos e revelados pela Mercedes, o Cais do Valongo jamais seria descoberto, e tão pouco uma linha do VLT carioca passaria ali por aquele local.

    • nataliaviana

      Olá Jorge, com certeza. Mercedes é uma guerreira, e deve ter sido maravilhoso participar desses primeiros passos do cemitério. O Museu do Ontem é uma iniciativa para dar mais visibilidade a esse passado. Vamos fazer sessões de Conversa sobre o app na Casa Pública em agosto! Deixe seu email que te avisamos. Um abraço

      • jorge gomes

        Oi Natália muito obrigado pela deferência – ” troppo gentile”. Na época eu cheguei a apresentar uma proposta por escrito para a Mercedes de se criar ali naquela região, algo como o TÚMULO DO ESCRAVO DESCONHECIDO, para que fossem feitas reverências a esses seres humanos que para aqui vierem para serem enterrados, que diferentemente do monumento ao soldado desconhecido, esse por mais heroica que tenha sido a sua morte, a sua baioneta era banhada de sangue. Sim, eu terei enorme prazer em participar do evento na Casa Pública, e inclusive eu sou louco pra fazer uma grande “FEIJOADA DO JORJÃO”, tipo um sarau de conversas regada a feijoada e outros quitutes que adoro fazer. Que tal abrir os trabalhos de agosto dessa maneira? rsrsrs, Prometo levar a minha amiga Mercedes, e ainda apresento algumas composições musicais autorais que vão estar editadas até lá. Bem, fica a dica: seujorge@yahoo.com.br, mais uma vez muito obrigado. Um forte abraço.

  • Luciana Wright

    emocionada ate a ultima celula. meu avo foi portuario. nasci na vila portuaria e passei minha infancia no santo cristo. fui professora durante 10 anos no morro da providencia. na UERJ fui bolsista num projeto sobre a chegada de D. Joao e da missao francesa. a regiao portuaria do RJ foi enterrada viva, mas nao morreu. obrigada por abrir a tampa desse sarcofago com amor e delicadeza.

    • nataliaviana

      Olá Luciana, que lindo ler o seu relato. O Museu está ainda na fase inicial, e com certeza há mais histórias pra contar. Adoraria ouvir a sua impressão. Vamos fazer sessões de Conversa sobre o app na Casa Pública em agosto! Deixe seu email que te avisamos. Um abraço

  • Luiz R, Bodstein

    Torço muito para que a Pública dê muito destaque ao escândalo da máfia dos ônibus para acabar de vez com esse monopólio criminoso que assola o Rio há décadas. A cidade tem infinitas possibilidades de unir os bairros e toda a região metropolitana por outros modais mais baratos, ágeis e que não poluem, como as linhas aquaviárias. A tente sabia porque não implementavam, como aconteceu com o metrô de Niterói a Itaboraí, mas ninguém tinha coragem para desbaratar a quadrilha. Esta é a chance. Tomara que levem isso à frente, porque o povo do estado do Rio há muito merece essa virada!

    • nataliaviana

      Olá Luiz, te convido para o evento que faremos na Casa Pùblica no dia 12/8 para discutir o passado do Porto: https://goo.gl/gk5MKo

Supremas relações 7

| por | 18 de setembro de 2017

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