Agência de Jornalismo Investigativo

A jornalista britânica Jan Rocha, que foi correspondente da BBC durante o regime militar, traz um trecho inédito do livro recém-lançado sobre grupo de apoio às famílias perseguidas pelas ditaduras latino-americanas

17 de julho de 2018

No final da década de 1960, eu vivia na Inglaterra com meu marido, o advogado Plauto Tuiuti da Rocha, na época um deputado brizolista procurado pela repressão da ditadura militar brasileira. Em 1973 a BBC me convidou a ser correspondente em São Paulo e, sem saber muita coisa de jornalismo, passei a escrever sobre tudo – desde Ronald “Ronnie” Biggs, o famoso ladrão de trem inglês capturado em Copacabana, até o futebol e a política.

Logo tomei conhecimento das torturas, das prisões e da censura. Escrevi sobre a morte de Vladimir Herzog, quem havia conhecido em Londres, no Serviço Brasileiro da BBC.  Acabei conhecendo familiares de presos, religiosos que defendiam posseiros, sindicalistas rurais, e as pessoas me traziam documentos, depoimentos, denúncias. Naquela época, o Serviço Brasileiro da BBC era muito ouvido, especialmente na Amazônia, mas também nas redações dos jornais, como fonte de informação segura.

Em 1977 começaram a chegar os argentinos fugindo do terror deslanchado pelos militares após o golpe de 1976. Contavam coisas tão alucinantes e terríveis que no início foi difícil de acreditar. Mas quando percebi que era verdade, porque mais e mais pessoas diziam coisas parecidas, resolvi que era minha obrigação como jornalista contar o que realmente estava acontecendo na Argentina.

Os jornais falavam de uma “guerra suja”, mas não era uma guerra, era uma perseguição sangrenta de um regime armado contra, na sua maioria, pessoas desarmadas e indefesas, incluindo crianças e bebês.

À medida que mais refugiados chegaram com histórias ainda piores, senti a necessidade de fazer algo mais que escrever um ou outro artigo. Na verdade, não senti como uma opção ou uma escolha me envolver mais, mas como uma obrigação. Como poderia saber dessas coisas e não botar a boca no trombone? Aí surgiu a ideia, junto com um grupo de outras pessoas, de criar uma organização não só para denunciar, mas para acolher os refugiados, alguns dos quais chegaram com a roupa do corpo.  

Eu estava consciente da complexidade em me envolver pessoalmente sendo jornalista. A BBC se orgulhava de ser imparcial, mas não neutra. Mas também pensei que não pode haver imparcialidade entre o bem e o mal. O que acontecia na Argentina era o mal. Certamente teria sido mais fácil para todos nós do grupo, que assumiu o nome Clamor, olhar para o outro lado, dizer que “não é comigo”. Também eu tinha filhos pequenos, eu trabalhava muito e não deveria assumir mais um compromisso. Mas depois de saber o que estava acontecendo não era possível não fazer nada.

Resolvi escrever o livro Solidariedade não tem fronteiras, lançado este mês pela editora Expressão Popular, porque percebi que a história do Clamor é ainda desconhecida. Num momento em que se fala em “intervenção militar”, achei oportuno lembrar a que pode levar movimentos feitos em nome da “lei e da ordem”: à intolerância contra pessoas que pensam diferente. Queria também lembrar as mulheres heroicas, mães e avós, que corajosamente desafiavam os tiranos na procura de seus filhos e netos, armadas somente com a sua indignação.

Abaixo, compartilho um trecho de um dos capítulos do livro com os leitores da Pública, organização da qual sou conselheira desde a fundação.

Procurando Mariana

Quando Marta e Julio Zaffaroni, os avós de Mariana, voltaram do Chile sem ter encontrado a sua neta, eles entraram em desespero. Não sabiam onde mais procurar.

Em Montevidéu, a outra avó de Mariana, Ester, agora viúva, tinha feito uma peregrinação por todos os departamentos do governo, de polícia e do Exército, engolindo insultos, ameaças e a indiferença, na esperança de recolher algum indício por pequeno que fosse. Ela também fez várias viagens ao exterior, especialmente a Paris, um centro de exilados uruguaios, procurando informação.

Reprodução
O livro Solidariedade não tem fronteiras será lançado este mês pela editora Expressão Popular

Os anos passaram. Até que, no dia 26 de janeiro de 1983, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma entrevista de página inteira com um argentino que dizia ter sido membro do Side, a agência de inteligência do estado argentino, até 1979. Disse que deixou a Argentina porque sabia demais, embora não se arrependesse de nada.

Pela primeira vez, um membro das forças de segurança deu detalhes do que teria acontecido aos desaparecidos, confirmando os boatos que circulavam. Ele disse que os corpos de presos “desaparecidos” eram queimados nos incineradores instalados para queimar lixo em bases militares.

Contou que, além dos queimados, outros corpos dos que morreram sob tortura eram jogados no rio da Prata ou enterrados no campo. Os entrevistadores perguntaram o que aconteceu com as crianças que foram detidas e cujos pais morreram. Ele disse que lembrava do caso de um casal uruguaio. Sua filha tinha sido adotada por um colega do Side.

Os Zaffaroni moravam na Barra da Tijuca, no Rio, e normalmente não compravam o Estadão, vendido em poucas bancas de jornal no Rio. Foi Maria, em São Paulo, que viu e os alertou. Marta pegou um táxi e correu para Copacabana, onde sabia que os jornais de São Paulo estavam à venda. Quando leu a reportagem, Marta se convenceu de que a criança mencionada era Mariana. Decidiu que tinha que falar com o agente do Side. Escreveu ao jornal explicando por que queria falar com ele. Plínio Vicente, um dos quatro jornalistas que entrevistaram o argentino, respondeu dizendo que iria ver o que podia fazer. Mas semanas passaram sem notícias.

Porém, nem ela nem Julio – nem Pablo, um dos filhos que também morava no Rio e estava envolvido na busca – desistiram da ideia de que o misterioso argentino tinha a chave do paradeiro de Mariana. Discutiam os detalhes da entrevista, e acabaram concluindo que, se uma pessoa sabia o que tinha acontecido com Mariana, então outros também deviam saber. Com o regime militar desmoronando depois do desastre nas Malvinas, alguém poderia estar disposto a falar. Como encontrar tal pessoa?

Julio lembrou que em 1976, quando foram procurar Mariana e seus pais, Jorge e Emilia, desaparecidos em Buenos Aires, colocaram um anúncio no jornal Clarín, o diário mais lido da Argentina. O anúncio foi visto por uma amiga do casal que forneceu o endereço de onde a família tinha sido sequestrada. Foram lá, falaram com vizinhos, ficaram sabendo os detalhes. Por que não repetiram a iniciativa agora?

Decidiram que o anúncio teria que ser colocado em posição de destaque, em uma das principais páginas de notícias, e não escondido entre os classificados. Deveria ter uma foto grande de Mariana. O custo seria grande. Pediram ajuda ao Clamor.

Levantando fundos para o anúncio

Em São Paulo mimeografamos um apelo com o título “Vamos encontrar esta menina. Ela foi sequestrada”, e uma pequena foto de Mariana. Com a colaboração de colegas, entre eles Ana Maria Capovilla, Ricardo Carvalho e Nivaldo Manzano, distribuí esse papel em várias redações, incluindo Veja, Estadão, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo, pedindo doações.

Mais de 200 jornalistas contribuíram, entre eles Paulo Sergio Pinheiro, Francisco Weffort e Fátima e Fernando Jordão. Da Inglaterra, Susan Howatch, uma amiga dos tempos de colégio, que se tornou autora de best-seller com uma série de romances góticos, mandou uma doação generosa. Mandamos para os Zaffaroni dois cheques no valor total de Cr$ 400.000.00.

Junto com os Zaffaroni, conseguimos a soma necessária para o anúncio.

O texto, a fotografia e o dinheiro foram confiados a dois pastores: Jaime Wright, do Clamor, e Charles Harper, do Conselho Mundial de Igrejas, para levar pessoalmente aos escritórios do Clarín em Buenos Aires.

Acervo Jan Rocha
O grupo Clamor denunciou os crimes das ditaduras sul-americanas

O anúncio apareceu em 20 de maio exatamente como queriam, no topo da página, com uma grande foto de Mariana e o título “DESAPARECIDA”. O texto dava a data do desaparecimento e os nomes de seus pais, e pedia que qualquer pessoa que tivesse qualquer informação entrasse em contato ou com as Abuelas de Plaza de Mayo grupo fundado na década de 1970 para devolver crianças sequestradas pelos militares ou com o Clamor, em São Paulo. Sigilo absoluto foi prometido.

Em Montevidéu, Rio de Janeiro e São Paulo, exemplares do jornal foram comprados por Ester, Marta e Maria. Agora todos nós esperávamos ansiosos para ver se produziria algum resultado.

O encontro marcado

Mas foi a carta da Marta ao jornalista Plínio Vicente que primeiro deu resultado, quatro meses mais tarde. De repente, Plínio Vicente telefonou e disse que estava vindo ao Rio e queria conversar a sós com ela. Nem o Julio poderia estar presente, pois era “muito confidencial”. Ela concordou em se encontrar com ele no Cine Paysandu, no bairro do Flamengo, no dia 27 de maio de 1983.

Julio e Pablo não gostaram da ideia de ela ir ao encontro sozinha e resolveram segui-la, mantendo uma discreta distância. Marta encontrou-se com o jornalista no lugar combinado e depois foram para um restaurante na Cinelândia para almoçar. Lá, no Taberna Azul, Plínio contou a Marta que estava aguardando outra pessoa do jornal, que ia trazer alguns papéis sobre os quais ele queria falar com ela. Ela notou que ele parecia muito nervoso, fumando sem parar e olhando em volta. Eram 13 horas e as mesas da calçada do restaurante estavam cheias de homens e mulheres almoçando, conversando e rindo. Marta esperava ansiosamente, curiosa para saber o conteúdo dos tais papéis. Aí um homem se aproximou da mesa deles e Plínio falou: “Essa é a surpresa que eu preparei para você”.

Logo que o homem falou, Marta percebeu que era um argentino e entendeu que ela estava cara a cara com o ex-agente do Side, que não apenas sabia onde estava Mariana, mas que provavelmente sabia o que tinha acontecido com Emi e Jorge. Ela não conseguia parar de olhar para ele, esse homem que era a primeira, tênue, física, conexão com seu querido filho, nos sete anos desde o seu desaparecimento. Seu cabelo era preto, comprido, encaracolado, tinha uma barba curta e um grande bigode. Usava um casaco de couro preto e óculos escuros. Parecia ter uns 35 anos. Falava como uma pessoa bem-educada, seu tom era calmo, não era agressivo.

Ele contou a Marta que trabalhou em um lugar onde ficaram muitos presos uruguaios. Ele interrogava, mas garantiu a Marta que não torturava. Esse era o trabalho de outros. Disse que tinha conversado com vários dos uruguaios, incluindo um membro da família do senador assassinado Zelmar Michelini. Marta então abriu sua bolsa, tirou uma foto de Jorge e mostrou ao homem. Ele olhou cuidadosamente e disse que não o reconhecia.

Contou que os presos uruguaios tinham sido colocados em aviões e levados para o Uruguai. Ele havia acompanhado essas operações. Quando Marta perguntou sobre as datas, o homem disse que não lembrava. Então falou que ela deveria procurar por seu filho não na Argentina, mas em seu próprio país, porque todos tinham sido devolvidos ao Uruguai.

A pergunta

Finalmente, Marta conseguiu criar coragem para fazer a pergunta que estava desesperada para fazer desde o início. Em volta deles, os cariocas bebiam cerveja gelada e comiam salada e pizza no sol quente, ignorantes do drama que se desenrolava na mesa ao lado. Uma frágil avó de cabelos brancos de cara com um homem que provavelmente sabia o destino de seu filho, sua nora e sua neta.

Marta lembrou ao argentino que, na entrevista publicada pelo jornal, ele mencionou o filho de um casal uruguaio que tinha sido adotado por um amigo. Qual era o nome da criança e quem a tinha adotado? Ele não gostou da pergunta. A princípio, disse que não sabia nada sobre ela, que tinha acontecido antes, e não na mesma época em que Emi e Jorge estavam presos. Ele era esperto e escorregadio.

Então Marta mostrou um exemplar do jornal Clarín com o anúncio, que havia sido publicado apenas uma semana antes. Ele leu, olhando longa e atentamente para a foto de Mariana. Sua atitude mudou. Agora ele admitiu que a criança que ele mencionou na entrevista poderia ser Mariana, mas disse que não podia ter certeza de que a pessoa que a levara ainda estava na Argentina. Ele só poderia descobrir retornando à Argentina, o que era impossível.

Mariana estaria bem

Em seguida, o homem disse a Marta, como se isso fosse acalmá-la, que, se fosse de fato a mesma criança, ela não precisava se preocupar porque Mariana agora estaria tão bem, senão melhor, do que estaria com sua avó. Essa observação enfureceu Marta, normalmente calma e controlada. Ela respondeu dizendo que isso ela não podia aceitar, a criança deveria estar com sua família, e não com os assassinos de seus pais. Apesar do calor em volta deles, um clima gelado caiu sobre a mesa. O argentino falou para ela esquecer a ideia de recuperar a criança, porque nunca chegaria até ela. E mais, ele não poderia revelar o nome da pessoa que estava com ela, porque era um amigo e ele nunca o trairia ou denunciaria.

A difícil conversa continuou. Diversas vezes ele perguntou a Marta o que ela faria caso a criança fosse encontrada. Ela a tiraria da pessoa que tinha cuidado dela até agora? Marta disse que primeiro teria que ver Mariana, ver como ela estava, para depois decidir o que fazer.

A conversa durou mais de três horas. Marta não comeu nada. Não tinha apetite nenhum. Tentou pensar em maneiras de provocar a sua compaixão, para fazê-lo revelar ao menos alguma coisa sobre o homem que estava com Mariana, mas ele permanecia impassível, dizendo “tudo o que eu posso dizer é que ela está bem, então por que você não aceita isso?”.

Finalmente, Marta se levantou e foi embora. Estava exausta. Sentia-se derrotada. Julio e Pablo, que haviam assistido ao encontro de uma mesa no restaurante vizinho, chamaram um táxi, e todos foram para casa ouvindo a Marta contar a conversa com o agente.

Assim que chegou em casa, ela escreveu uma longa carta a Ester, dando uma descrição detalhada do encontro frustrante. Várias vezes ela repassou a entrevista em sua cabeça. Também mandou uma carta para o Clamor.

Julio tinha certeza de que o homem queria dinheiro em troca de informação, de que ele não entregaria algo tão importante assim, de graça. Então Marta escreveu novamente para o Plínio Vicente perguntando se o agente queria dinheiro em troca da informação. Novamente não houve resposta imediata, e só nove meses depois, em fevereiro de 1984, ela recebeu uma carta dizendo que o argentino, que estava vivendo no Brasil com um nome falso, havia desaparecido. Havia rumores de que ele poderia ter ido à América Central.

A carta anônima

Agora era o anúncio no Clarín que produzia resultados. Três semanas depois de sua publicação, uma carta anônima chegou à nossa sala na Cúria. O envelope trazia um carimbo de Buenos Aires. Marisa estava de plantão no dia em que a carta chegou, e ela me ligou na hora com a notícia. Fui correndo para a Cúria.

Dentro do envelope estavam cópias de dois recortes de jornal com notícias do envolvimento do agente da Side Miguel Ángel Furci em um ataque a bomba e uma nota datilografada, sem assinatura, que dizia: “desde a data denunciada por vocês, uma criança com essas mesmas características está aqui e sua esposa nunca foi vista grávida. É impossível que eles a tenham adotado pela vida anormal que ele leva e os riscos que não apenas ele e sua família correm, mas todos os habitantes deste prédio”.

O remetente anônimo deu um endereço – calle Santo Tome 3257, Villa Del Parque –, o nome do adotante – Miguel Ángel Furci – e o nome da criança – Daniela Romina Furci.

Será que Daniela era Mariana?

Comecei a telefonar para os outros membros do Clamor, e Maria, por sua vez, telefonou para Marta no Rio, que ligou para Ester em Montevidéu. Também liguei para Belela Herrera, que agora trabalhava no escritório do Acnur em Buenos Aires.

Todos estavam animados – mas, ao mesmo tempo, cautelosos. Será que a pista anônima era genuína? Poderia ser alguém querendo se vingar de algo. Se Mariana tivesse sido “adotada” por um agente do Side, ele ainda era protegido pelo regime, era um deles. Teríamos que tomar enorme cuidado em tentar confirmar sua verdadeira identidade. Embora os militares estivessem desmoralizados pela derrota nas Malvinas, em 1982, eles ainda estavam no poder.

Mais uma vez, havia no ar aquela excitação contida que sentimos quando recebemos as notícias sobre Anatole e Vicky – e aquilo havia sido ainda mais improvável.

A vigília

A primeira coisa a fazer era tentar ver a criança. Em Buenos Aires, os uruguaios do PVP (Partido por la Vitoria del Pueblo) decidiram se revezar na vigia ao endereço que estava na carta anônima. Mas foram as avós da Mariana que conseguiram ver pela primeira vez a menina que poderia ser a sua neta. Passaram dois ou três dias caminhando pela rua do prédio sem ver nenhuma criança que poderia ser ela. Ester lembrou que teriam mais chance de vê-la na hora do almoço, quando ela estaria indo ou vindo da escola. Pararam na frente do prédio e fingiram estar conversando, mostrando fotos uma para a outra. A primeira criança que saiu era muito grande, não poderia ser ela. Daí uma menininha de tranças saiu que poderia ter a mesma idade, 8 anos. Com ela, carregando uma mochila de escola, estava uma mulher alta, morena, de cabelos curtos. Ester achou que seria uma empregada.

A menininha cantava enquanto caminhava, parecia feliz. Marta deu a volta no quarteirão para encontrá-la de frente, enquanto a Ester seguiu atrás das duas. Ao passar por elas, esforçando-se para conter a emoção em sua voz, ela falou: “Que linda música!”. Quando a menina olhou para ela, Ester disse para si mesma: “É a Mariana”. Marta apareceu na esquina e, juntas, continuaram seguindo o par até chegar a uma escola.

Agora era essencial obter uma foto da menina e confirmar a identidade dela. Belela lembrou de Monica Parada, uma fotógrafa uruguaia que morava perto. Maria deu a Monica as últimas fotos de Mariana, tiradas quando ela tinha 1 ano e meio, pouco antes de ela desaparecer com seus pais, em setembro de 1976.

Agora já era setembro de 1983, sete anos mais tarde, e para Monica parecia uma loucura tentar identificar uma criança com apenas o endereço e uma foto muito antiga. Mas ela queria ajudar as avós e concordou em tentar. Depois de identificar o prédio, passou de carro em frente diversas vezes. Depois estacionou o carro, por ironia um Ford Falcon, o modelo mais usado pelas forças de repressão, e ficou vigiando. Resolveu abrir o capô, fingindo que o carro estava quebrado. Estava nervosa, com medo de que não desse certo. Estava muito consciente do perigo de estar espionando um membro das forças de segurança.

Deu sorte – das várias crianças que entraram e saíram do prédio, só uma se encaixava na faixa etária de Mariana. Ela estava acompanhada de uma mulher jovem, que obviamente era uma empregada, e Monica as seguiu até a escola, distante cinco quadras. Era uma escola católica. A empregada deixou a menina no portão da escola. Monica entrou atrás, seu coração batendo forte. A menina começou a brincar com outra criança, e Monica chegou perto delas como quem não quer nada, clicando tudo, pensando desesperadamente, como mãe, qual seria a melhor maneira de se aproximar dela. Ela tinha que conseguir uma boa foto do rosto da menina, e sabia que a qualquer momento o sino ia tocar, chamando para as aulas, e sua oportunidade se acabaria.

Rapidamente ela falou: “Oi, como é o seu nome?”. “Daniela Furci”, respondeu a menina sem pestanejar. Monica sentiu seu coração disparar. “Você quer que eu tire uma foto?”

Quando ela disse que sim, Monica tirou uma foto dela com sua amiga, e depois separadamente. Com o coração ainda disparado, saiu da escola. Agora era só revelar as fotos. Aí ela se lembrou de que o rolo de filme que usou já tinha fotos de seus filhos. A Argentina ainda era uma ditadura. E se eles chegassem até ela pelas fotos? Ela sentiu medo, mas decidiu arriscar.

Quando o filme foi revelado, ela fez cópias e deu para Maria, que mostrou para Ester. Elas compararam as fotos com as dos pais de Mariana, Emi e Jorge. Maria achou que ela se parecia muito com a avó Ester. Monica levou cópias para Roberto Cox, editor do Buenos Aires Herald, o jornal de língua inglesa que corajosamente havia publicado notícias sobre as crianças desaparecidas. Cox, “sendo bem inglês”, colocou as fotos antigas e novas lado a lado e mediu seu rosto com uma régua. Concluiu que era Mariana.

Convencidas pelas fotos de que elas haviam encontrado Mariana, as avós voltaram a Buenos Aires e pediram uma entrevista com a madre superiora, diretora da escola. Ela escutou atentamente enquanto Marta e Ester explicaram a situação. Então entregou às avós fotos da primeira comunhão de Mariana e, consultando o registro escolar, passou todas as informações que tinha sobre a criança.

O registro

De posse da data de nascimento dela, Maria foi ao Registro Civil e conseguiu uma cópia da certidão de nascimento de Daniela Romina Furci. Ela havia sido registrada como filha natural de Miguel Ángel Furci e sua mulher, Adriana González. A data de nascimento era 29 de setembro de 1975, seis meses depois da data verdadeira, 22 de março de 1975. O parto teria sido em casa. O nascimento só foi registrado em 29 de junho de 1977, oito meses depois que Mariana foi sequestrada junto com seus pais.

Na justificativa pelo registro tardio, Furci disse ao juiz que ele tinha se separado de sua mulher na época e só conheceu a criança quando ela tinha 4 meses de idade. A sua mulher, Adriana, contou uma versão diferente. Ela disse que Mariana tinha 1 ano de idade quando o marido voltou ao lar.

Mais tarde, Furci deu outra explicação. Disse que demorou porque sua esposa estava doente e ele tinha que cuidar dela e não sabia que o registro poderia ser feito por terceiros. Seja qual for a desculpa, deve ter despertado suspeitas. Para manter a ficção de que ela tinha seis meses a menos do que realmente tinha, eles a tratavam como um bebê, e não como uma criança já começando a andar. Uma fotografia do batismo dela mostrava Furci a segurando no colo, embora ela tivesse quase 2 anos de idade.

Agora que as avós tinham certeza de ter encontrado Mariana, elas se perguntaram: qual seria o próximo passo?

Discutiram com Belela. Estavam frustrados, incertos do que fazer a partir dali. Alguém até sugeriu: “Vamos sequestrá-la!”.

Em vez disso, decidiram consultar as Abuelas, que aconselharam a entrar na Justiça. Sugeriram que o companheiro de Monica, Milton Romani, um exilado político uruguaio que morava em Buenos Aires, poderia apresentar uma acusação contra Furci por apropriação ilegal de Mariana. Mas os juízes ainda relutavam em julgar os casos envolvendo membros das forças de segurança, e ele foi passado de mão em mão como uma batata quente até chegar ao fórum de San Isidro.

Ester fez muitas visitas ao juizado de San Isidro, que também demorava em tratar do caso. Foi só quando o juiz Alberto Piotti assumiu o caso que as coisas começaram a acontecer. Mais de um ano havia passado desde que elas descobriram Mariana: os militares já tinham deixado o poder, a Argentina era de novo uma democracia.

Em janeiro de 1985, o juiz pediu exames de sangue para determinar se a criança era a filha biológica dos Furci, como eles diziam. Os Furci se recusaram, dizendo que só deixariam Mariana fazer o teste.

Em junho daquele ano, Ester participava de um encontro em Montevidéu quando Luz Ibarburu puxou-a para um lado. “Preciso te falar. A Mariana desapareceu de novo.”

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