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Entrevista

“Queremos disputar nossa própria agenda na política”, afirma ativista indígena equatoriana

Vereadora feminista, Paolina Vercoutere lembra participação de mulheres indígenas nos protestos que pararam o Equador em 2019 e aponta novos desafios para o 8 de Março

Entrevista
6 de março de 2020
16:35
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Arte: Bruno Fonseca/Agência Pública

Em outubro de 2019, o Equador foi completamente paralisado por um dos maiores protestos já vistos na história do país. As manifestações, que tiveram como objetivo barrar um decreto de medidas econômicas e reformas trabalhistas do presidente Lenin Moreno receitadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), tiveram êxito com as medidas sendo revogadas. Na linha de frente dos protestos, o protagonismo das mulheres indígenas foi aclamado mundialmente.

A Agência Pública conversou com a ativista feminista Paolina Vercoutere, vereadora do município de Otavalo, integrante da Plataforma de Mulheres Caminhando pela Igualdade e representante do povo Kichwa. Ela destacou que a participação feminina sempre esteve presente nas vitórias históricas dos indígenas no Equador e ressaltou que, apesar da visibilidade conquistada nos eventos recentes, ainda há um longo caminho a ser traçado.

Para Paolina, a luta pela defesa dos territórios indígenas e da natureza transpassa a luta pelos corpos e direitos das mulheres. Da mesma forma, no Brasil, o tema da marcha nacional deste Dia Internacional da Luta das Mulheres ressalta os ataques aos territórios originários e às mulheres que lá vivem.

Se a Constituição equatoriana traz entre seus fundamentos o conceito do Bem Viver, que determina a valorização da natureza, dos territórios tradicionais e a consulta aos povos indígenas, para Paolina, ela ainda simboliza uma utopia. “É uma noção distante. Vemos a natureza como um todo e acredito que nós, mulheres, podemos entender muito essa relação, porque é como a luta pelo nosso corpo. Queremos que nossas agendas, problemas, os temas de violência, sejam abordados pelo Estado e que possamos disputar frente aos atores políticos.”

Confira a entrevista completa:

No Brasil, a marcha do 8 de Março deste ano terá como tema a defesa do território e sua conexão com os direitos das mulheres e seus corpos. As mulheres indígenas e quilombolas serão protagonistas desse tema. Você vê similaridade entre o que está acontecendo no Brasil e no Equador?

Como ativista feminista, vejo acontecer em caráter global algumas disputas similares. Na América Latina, vemos alguns movimentos característicos, e por meio deles o feminismo está se ampliando. Havia uma corrente hegemônica onde mulheres negras, indígenas, de diferentes povos e nacionalidades, mulheres de setores e classes populares, não tinham uma voz. Era um feminismo urbano e acadêmico.

Neste momento, em países como Brasil, Equador, Bolívia, estamos buscando um feminismo a partir de nosso próprio contexto, nossas lógicas culturais, nossa voz. Nós nos considerando feministas ou não, eu, como política e Kichwa, me inscrevo dentro do feminismo com minhas particularidades. Tenho pontos de convergência, mas tenho como objetivo a descolonização do feminismo, torná-lo menos homogêneo e perceber que há disputas e tensões internas dentro do feminismo.

Não há como falar de feminismo sem falar de diferentes feminismos, e isso acontece também em todos os territórios onde fazemos disputas geopolíticas. Nossos Estados seguem sendo colonizados, e isso é algo que compartilhamos na América Latina, onde o poder tem um sexo, uma cor, uma classe social predominante.

Nessa disputa, nós estamos reconfigurando nossa luta e fazendo uma busca pela soberania de nossos corpos e dos nossos territórios, o que são nossos temas. Quero dizer, como feminista e como Kichwa, que não vemos com muita distinção, nos governos que já passaram, os progressistas e os mais de direita, porque, no geral, não houve um respeito unificado com o corpo das mulheres e dos nossos territórios. É um movimento continental.

Pode explicar melhor como vocês enxergam essa conexão entre a defesa do território e dos corpos e direitos das mulheres?

Temos que começar desmistificando que todos os indígenas e mulheres são iguais. Com os processos d0 capitalismo e das religiões, a mesma modernidade atravessou todos os povos. A população indígena equatoriana seguiu a mesma dinâmica histórica que a maioria das cidades e territórios na América Latina. Temos uma população indígena cada vez mais urbanizada; então, depende, não há uma questão sistemática em que todas as mulheres indígenas fazem essa defesa da terra e do território.

Aqui, as igrejas evangélicas se infiltraram muito, então, mesmo entre nós, Kichwas, é uma questão interna colocar os temas do território, do aborto, da violência, porque há questões internas muito fortes.

Também há questões internas muito diferentes. As mulheres que estão mais na parte onde há mineração, extrativismo, têm essa conexão muito mais forte, porque há essa vivência com a agressão forte do capitalismo em se meter nos territórios que sustentam a vida. Aqui na parte andina é diferente porque nossas disputas passam ao redor das opressões internas até a violência do Estado. Então, há um grande esforço entre nós por toda a carga que o capitalismo e as igrejas têm dentro das nossas próprias percepções.

Igrejas evangélicas estão disputando o político. Temos que enfrentar para ter apoio pelas minhas posições como mulher, Kichwa, feminista. É um tema que nos assusta, porque vemos que há coisas que pareciam já conquistadas em nível, inclusive, do politicamente correto, tanto no Equador como em outros países da América Latina, mas estão sendo dinamitadas por esses grupos reacionários.

Para nós, Kichwas, é muito difícil posicionar temas como a soberania do corpo, por exemplo. E, também, os discursos culturalistas autorizados estão mais na voz de nossos companheiros homens. Então, para nós, é necessário voltar a buscar essa conexão entre como nosso corpo é vulnerável e como a mãe natureza é vulnerável. A mãe natureza é o sustento de nossa vida, onde criamos nossos filhos, de onde temos água e onde se dão todas as opressões.

No nosso caso do norte do Equador, temos um discurso cultural em que sempre está presente a igualdade, mas é um discurso que também tem sido sequestrado por alguns companheiros para manter situações de privilégio dentro dos nossos próprios contextos. É uma luta interna que temos que fazer para recuperar essa conexão, que em alguns territórios é mais clara.

O papel das mulheres, especialmente indígenas, nas manifestações que pararam o Equador em outubro de 2019 pareceu fundamental. Você enxerga dessa forma?

Totalmente, houve uma vitória, e essa vitória no movimento indígena não é algo que surge agora, mas simplesmente que agora foi visibilizado. Há uma abertura e outros meios para que isso ficasse visibilizado. No Equador temos figuras, lideranças, mulheres, e também aqui do norte, que estavam disputando a luta pela terra desde o início do século 20. As mulheres indígenas sempre tiveram muita vitória nas mobilizações, sustentando ao mesmo tempo, em termos cotidianos, as manifestações. Isso é uma constante histórica no movimento histórico e indígena, e seu projeto social e político.

Como Kichwa, posso dizer que dentro das organizações étnicas isso não esteve tão visível, porque não tínhamos ainda maioria feminina entre as lideranças. Creio que há um movimento global e nacional muito forte que agora torna mais visível essa participação.

Como o avanço de medidas neoliberais como a que o movimento popular no Equador conseguiu barrar no ano passado prejudica as mulheres?

As políticas de austeridade têm uma afetação concreta na vida das mulheres. Há uma grande taxa de desemprego, de demissão de trabalhadores. Nós, mulheres, por nossas condições de mães e de dificuldade de acesso aos espaços mais formais da economia, somos as que estão mais prejudicadas, mais informais. A maioria das vendedoras ambulantes são mulheres, e temos também a maior taxa de desemprego.

O Equador tem a defesa da natureza, dos territórios tradicionais e seus povos como um dos fundamentos principais de sua Constituição nacional, por meio do conceito do Bem Viver. Qual a importância das mulheres equatorianas para a manutenção desse Bem Viver?

Aqui no Equador, efetivamente, temos o conceito do Bem Viver como uma noção coletiva, um Estado futuro que queremos alcançar. Mas obviamente é uma noção distante. A constituição se apropriou desse conceito do Bem Viver, que é um conceito moderno que se alimentou dos princípios dos povos de nacionalidade do Equador. Isso é um discurso porque na prática não tivemos isso concretizado nos territórios, com a consulta das pessoas que vivem nesses territórios para a mineração, por exemplo.

Acredito que nós, mulheres, podemos entender muito essa relação [do Bem Viver], porque é como a luta pelo nosso corpo. Não posso fazer uma diferenciação entre todo o meu ser, entre dentro e fora, como a natureza, não posso ver como partes divididas.

Acredito que, por isso, nosso papel é central, porque passamos por esse sofrimento cotidiano da vida. Se há uma cimenteira aqui na região, isso me afeta. Se há uma questão de drogas no bairro, isso me afeta, porque eu, como mulher, sou quem cuido da vida do bairro, nesse papel tradicional.

Então, temos também que discutir esse papel tradicional. Temos, como mulheres, a carga doméstica, a reprodução da vida, mas isso possui uma dimensão dupla. O que estamos dizendo é complexo porque o argumento de que somos reprodutoras de cultura, guardiãs da cultura, da língua, da tradição, também é um discurso que pode ir contra nós. Porque significa seguir sustentando e legitimando os privilégios de nossos companheiros.

Quais as principais pautas das mulheres equatorianas neste 8 de Março?

No caso do Equador, o que se está buscando é esse momento de visibilizar as mulheres e o feminismo heterogêneo. Buscamos gerar espaços muito amplos onde congreguem mulheres trabalhadoras, universitárias, de povos e nacionalidades, mulheres negras e acadêmicas. Isso tem sido uma necessidade muito grande nossa, não só para nos visibilizar, mas nos reconhecer em nossa heterogeneidade para que tenhamos agendas conjuntas, finalmente.

Estamos em um ano pré-eleitoral e nós, mulheres indígenas, queremos que nossas agendas, problemas, os temas de violência sejam abordados pelo Estado e que possamos disputar, frente aos atores políticos, nossa própria agenda na política.

Aqui também haverá uma grande marcha nacional no dia 9, onde há outras iniciativas menores em comunidades, e eu estarei apoiando. Acredito que é necessário repensar o que se discute nos grandes espaços do feminismo. O território às vezes não está representado, e muitas mulheres estão fazendo feminismo sem nomear suas ações como feminismo. Estão articuladas em seus espaços, onde podem ter mais visibilidade.

Esta é a mensagem: finalmente algumas mulheres podem seguir falando e ter uma voz, mas muitas mulheres, por conta dessa estrutura patriarcal, não poderão participar da marcha, porque seguirão atendendo seus esposos, cuidando de seus filhos nas suas casas, fazendo outras tarefas. Mas a ideia tem sido mostrar essa heterogeneidade com essa grande marcha e seguir com as atividades regionais.

Somos um dos países com os maiores índices de gravidez na adolescência, temos milhares de meninas que são mães e temos que trabalhar temas de educação sexual, violência, em um sistema que não nos dá nem a justiça indígena nem a estatal. Então, também é o momento para denunciar toda essa violência.

Esta entrevista faz parte do especial 8M: Mulheres latinas enfrentam onda conservadora. Acesse aqui todas as entrevistas.

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