Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, a violência de gênero no Brasil atingiu o maior patamar da última década, com cerca de 1.470 casos de feminicídio registrados. O cenário é alarmante e não deve mudar neste ano de 2026. O debate sobre as questões relacionadas a gênero vai além de reconhecer as violências, é preciso compreender como desigualdades estruturais são produzidas, naturalizadas e utilizadas politicamente para restringir direitos e reforçar hierarquias sociais.
Em seu mais recente livro, publicado pela editora Boitempo, Judith Butler busca responder à pergunta “Quem tem medo de gênero?”. O Pauta Pública desta semana recebe a escritora e filósofa para analisar como o conceito de gênero foi distorcido pela ideia fantasiosa de “ideologia de gênero”, sendo retratado como uma ameaça à família por movimentos ultraconservadores religiosos e de extrema direita. No episódio, Butler é dublada pela atriz Mika Lins.
Na conversa com Andrea Dip, a escritora reflete sobre como o conservadorismo desloca as verdadeiras ameaças produzidas pelo capitalismo e pelas crises contemporâneas para pautas ligadas à igualdade, aos direitos e à diversidade, com objetivo de criar pânico moral e alavancar agendas antidemocráticas. A filósofa também aponta caminhos para imaginar um mundo mais habitável e igualitário, baseado em solidariedade, alianças coletivas e novas formas de convivência.
“Gênero se tornou um termo que hoje provoca pânico e medo em muitas pessoas, por não conhecerem os estudos sobre o tema. Eu diria que [o medo em torno do termo] gira em torno da família tradicional e da sensação de que ela está sendo ameaçada[..] Mas, ‘gênero’ acaba representando muitos movimentos sociais comprometidos com objetivos fundamentais como igualdade e o progresso”, afirma a filósofa.
Confira os principais pontos da entrevista abaixo e ouça o podcast completo:
EP 216 Quem tem medo de Judith Butler? – com Judith Butler
Por que esse ‘medo do gênero’ não só continua sendo eficaz, mas parece estar se tornando cada vez mais forte?
Eu acho que “gênero” se tornou um termo que hoje provoca pânico e medo em muitas pessoas. Elas não conhecem os estudos de gênero, não estudaram gênero. Mas “gênero” passa a representar todos os desafios à família tradicional que podemos imaginar, incluindo parentalidade solo, casamento entre pessoas do mesmo sexo, vidas trans, liberdades trans, travestis, direitos de gays, lésbicas, bissexuais e intersexo. E nos direitos humanos, nas políticas da União Europeia e nas decisões das cortes interamericanas, temos visto uma reação contra tudo isso.
Eu diria que isso gira em torno da família tradicional e da sensação de que ela está sendo ameaçada. E isso não é pouca coisa, porque muitas pessoas sentem isso, especialmente num mundo em que têm dívidas a pagar, o clima está mudando, há migrações forçadas, e elas não sabem se conseguirão manter seus empregos. Há muitas mudanças que geram medo.
Mas, se pudermos reduzi-las e condensá-las em uma única coisa e chamá-la de “gênero”, então todos esses pânicos diversos podem ser abreviados e representados por esse termo. Mas outro ponto que eu destacaria é que a família tradicional, com isso quero dizer a família heteronormativa – um homem e uma mulher, em casamento, reproduzindo e restringindo a sexualidade ao par conjugal, ou seja, monogamia dentro do casamento e, em alguns casos, a restrição da sexualidade à reprodução dentro do casamento –, dependendo da tradição religiosa, eles seguem certas ideias de autoridade que podem vir de fontes bíblicas, mas também do Estado.
Quando algo como o nacionalismo cristão ganha força, a lei patriarcal, que deriva de uma leitura muito literal ou ideológica da Bíblia, converge com um poder estatal que também está se tornando cada vez mais autocrático e soberano. Assim, a autoridade patriarcal no Estado depende da reprodução da família heteronormativa tradicional, e qualquer desafio à moralidade e à política dessa família ameaça tanto o poder do Estado quanto a identidade nacional.
Além disso, para muitas pessoas, esses desafios parecem atingir um nível profundamente pessoal, questionando sua própria compreensão sobre o sexo atribuído, sobre a sexualidade, questões que, para elas, deveriam estar resolvidas internamente e pela lei. Então, acho que o que estamos vendo é uma reação massiva contra diversos desafios à lei patriarcal, incluindo, eu diria, o capitalismo patriarcal, que organiza o trabalho e o lucro segundo uma divisão sexual do trabalho. Esses desafios vêm de muitos movimentos progressistas e de esquerda, a maioria deles feministas, comprometidos com objetivos fundamentais como igualdade, liberdade, justiça, combate à violência e à guerra, atentos às vidas de pessoas marginalizadas, endividadas e pobres, e empenhados em transformar essas condições.
Assim, “gênero” acaba representando muitos desses movimentos sociais e também o progresso que muitos de nós pensávamos ter alcançado. O movimento antigênero está, portanto, lutando contra essa ideia de progresso.
Como você vê o crescente interesse sobretudo de meninos adolescentes por ideias “incel” e “red pill”? Com esses influenciadores da “machosfera”, e com esses meninos jovens sendo atraídos para esse universo?
Uma questão que eu tenho é: o quão impotentes esses jovens se sentem diante do mundo? E digo isso não porque eu tenha compaixão por misóginos, não tenho. Acho que pessoas misóginas deveriam aprender a tratar os outros com igualdade e aprender a tratar as mulheres como seres dignos neste mundo. Então não me entenda mal. Mas eu acho que há um empoderamento falso que ocorre na internet. E quando você vê o quão eficaz a internet pode ser na circulação de um meme ou na criação de um pânico, como isso pode ser rápido e pode alcançar um número enorme de pessoas, isso gera uma sensação de poder.
Então talvez eles não tenham poder no sentido de ter propriedades, estabilidade financeira, perspectiva de aposentadoria, ou essas coisas que a geração “boomer” teve, mas estão encontrando poder por meio dessa manipulação de imagens e associações via memes, que fazem exatamente o trabalho do “fantasma de gênero”: condensam uma série de ansiedades e medos em uma única imagem. E então eles lançam essa imagem, e as pessoas reagem com choque.
Eu conto, por exemplo, o caso de Kamala Harris, que estava concorrendo à presidência dos Estados Unidos, uma mulher negra, progressista, mas de centro, não tão à esquerda quanto alguns gostariam. Ainda assim, ela foi retratada como se fosse de extrema esquerda e como se fosse trazer imigrantes para o país para realizar cirurgias de redesignação sexual. Assim, esse meme ou boato juntou o ódio xenófobo contra migrantes com a transfobia. Você conecta os dois, e ambas as ansiedades se intensificam e passam a se reforçar mutuamente. E quando você faz essa conexão e intensificação, você alcança algo ideológico: instaura medo, incita um ódio reacionário e também recruta apoio para um regime que quer se tornar, e muitas vezes consegue, cada vez mais autoritário.
Quanto ao universo incel, esses jovens homens frequentemente culpam o “feminismo”. Eles sentem rancor e ressentimento contra o que chamam de feminismo. E sempre precisamos perguntar: qual é a ideia de feminismo que eles estão combatendo? Isso corresponde ao feminismo, como podemos documentá-lo historicamente? Para eles, o feminismo se torna um tipo de símbolo de castração, uma sensação de perda de poder, uma ideia de que agora são eles que estão sendo discriminados. Muitas vezes, eles se apropriam da linguagem do discurso feminista ou da esquerda e dizem: “estamos sendo dominados, estamos sendo discriminados com base no nosso sexo, estamos sendo explorados ou não reconhecidos”. Ou seja, usam muito da linguagem da esquerda. E o movimento antigênero também tende à direita e a acusar políticas de gênero e estudos de gênero de serem coloniais. Infelizmente, às vezes, isso pode acontecer, mas não no sentido em que eles afirmam.
Recentemente tivemos um episódio no Brasil com a eleição da deputada Erika Hilton como presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. Ela é uma mulher trans, e testemunhamos a violência das que se dizem feministas transexcludentes. E a retórica delas é muito semelhante à dos ultraconservadores e da extrema direita. Como devemos lidar com isso dentro dos nossos movimentos feministas? Existe algum tipo de diálogo possível com essas pessoas?
Acho muito difícil, porque eu já tentei ter essas conversas e elas não funcionaram bem. Ocasionalmente, TERFs [Trans-Exclusionary Radical Feminists, ou “feministas radicais transexcludentes”] vêm me ouvir ou tentar conversar comigo. E eu entendo que há muita raiva, e que elas também têm aderido cada vez mais a um certo essencialismo biológico.
Acho que precisamos voltar atrás e talvez fazer algum tipo de pedagogia pública. Por exemplo: por que as feministas concordaram que a biologia não é destino? Por que chegamos a esse consenso? O que havia de tão importante nessa formulação? Foi doloroso afirmar isso, porque significava recusar a ideia de que “ah, você pode reproduzir, portanto deve reproduzir, portanto essa é a sua tarefa na vida”. Nós dissemos não a isso. E algumas de nós nem podiam reproduzir; outras podiam, mas não queriam; algumas adotaram; outras não tiveram filhos. Lutamos por essas liberdades. Lutamos para distinguir entre a ideia de um destino biológico e aquilo que nos tornamos ao longo da vida. Isso não significa negar a biologia, de forma alguma.
A biologia é complexa, importante. Precisamos de bons cuidados de saúde relacionados à nossa biologia. A biologia está em relação dinâmica com a cultura e com o ambiente. Precisamos do campo da biologia; o que não precisamos é do determinismo biológico. Mas talvez o argumento mais forte seja este: pergunte a qualquer mulher se ela já teve a experiência de andar na rua à noite com medo – medo de ser assediada, estuprada ou assassinada? Muitas dirão que sim, a menos que vivam em contextos muito protegidos. Muitas mulheres, inclusive feministas, sentem isso. Nós fomos às ruas, retomamos a noite, porque não queríamos viver com esse medo. Agora, se você faz a pergunta: qualquer pessoa que seja minoria, ou socialmente vulnerável, ou exposta à violência e ao preconceito, deveria andar na rua à noite com medo? E se a resposta for “não, ninguém deveria”, então você acredita que não é só você que merece essa liberdade, mas também mulheres trans, homens trans, pessoas não conformes com o gênero, pessoas não binárias.
Pessoas que sofrem violência racista também deveriam poder andar na rua com segurança. Então começamos a formar uma coalizão. Pensamos: todas nós precisamos poder ocupar as ruas. Vamos fazer isso juntas. Vamos nos unir contra a violência cotidiana, a violência não estatal, a violência doméstica, a violência de Estado, a violência simbólica e a violência nas prisões. Se você acredita que ninguém deveria sofrer violência na prisão — nem uma mulher cis, nem uma mulher trans — então não faz sentido defender políticas que coloquem pessoas ainda mais vulneráveis em situações de risco.
Por exemplo, se alguém defende que mulheres trans sejam colocadas em alas masculinas, está propondo colocá-las em um contexto altamente violento. Você realmente acha que alguém deveria estar nessa situação? Se a resposta é não, então não se pode sustentar uma política que imponha isso a outras pessoas igualmente ou ainda mais vulneráveis. Precisamos de grandes debates públicos, em que essas questões sejam tratadas uma a uma, com calma. Não é preciso ter doutorado para isso. Basta se importar com os seres humanos e querer pensar de forma coerente, justa e ética.
Você diz que temos duas tarefas: compreender o lugar do gênero no caos pós-fascista, mas também ser capazes de imaginar e projetar um mundo habitável, respirável, igualitário e interdependente. Como fazemos isso?
Bem, nós já estamos fazendo isso por meio das nossas solidariedades. Nossas solidariedades são formas de cuidar umas das outras. Sabe, cozinhamos umas para as outras, garantimos que alguém consiga descansar o suficiente. Acompanhamos alguém ao advogado ou ao hospital. Ou encontramos formas de convivência e de comunidade em que acreditamos, às vezes em grupos menores, mas às vezes em escala transnacional. Às vezes, estamos em aliança com pessoas que nem conhecemos.
Quero dizer, há muitas alianças com pessoas em Gaza neste momento, com pessoas no sul do Líbano, e também com o povo iraniano, especialmente aqueles que foram torturados por seu regime. Como mantemos essas alianças vivas? Essas alianças, mesmo em formas menores, são potenciais para um movimento transnacional.
Então, acredito que nossos ideais, nossa imaginação, não são algo que precisamos realizar apenas no futuro. Eles já estão conosco. Já estamos imaginando esse mundo melhor quando agimos dessa forma. Temos esse ideal e o estamos incorporando na prática. Só precisamos encontrar nossa própria presença digital e nosso próprio poder no ambiente digital. Não que todo poder seja digital, mas seria um erro não utilizar esses meios.




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