Agência de Jornalismo Investigativo

Corrente do WhatsApp faz interpretação errada de documento vazado pelo WikiLeaks em acusação contra a emissora

17 de agosto de 2017
Leandra Leal, Lázaro Ramos, Dira Paes e Flávio Canto no Criança Esperança 2015
Leandra Leal, Lázaro Ramos, Dira Paes e Flávio Canto no Criança Esperança 2015 (Foto: Divulgação/TV Globo)

“Documento do WikiLeaks revela que a Globo repassou à Unesco apenas 10% do que arrecadou com o Criança Esperança. A Globo sonega R$ 600 milhões e usa as crianças pra te pedir dinheiro e aumentar as isenções de Imposto de Renda. Quer doar? Procure a Apae da sua cidade. Repassem aí. Quanto mais pessoas souberem disso, menos arrecadação a Globo vai ter.” – Corrente de WhatsApp com imagem do Movimento Brasil Consciente.

FalsoÀs vésperas do início do Criança Esperança, uma corrente circula pelo WhatsApp com a afirmação de que a Rede Globo repassa à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apenas 10% do que arrecada com a campanha. A mensagem tem o objetivo de desestimular doações que, segundo o texto, ficariam quase que em sua totalidade com a emissora de TV. O texto traz ainda as acusações de que a Globo sonegou R$ 600 milhões e de que usa a iniciativa para obter mais isenções no Imposto de Renda.

Seriam essas acusações verdadeiras? O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – analisou o conteúdo da corrente, enviada por um leitor, e concluiu que a mensagem é falsa. A Globo não fica com 90% do dinheiro do Criança Esperança. Os valores doados também não servem para que a emissora aumente as suas isenções no Imposto de Renda. Também está errada a afirmação de que a Globo teria sonegado R$ 600 milhões à Receita Federal.

Corrente de WhatsApp com acusações contra a Globo.
Corrente de WhatsApp com acusações contra a Globo (Foto: Reprodução

A corrente traz o símbolo de uma página do Facebook, o Movimento Brasil Consciente. Uma busca revelou que a imagem foi publicada originalmente em 8 de agosto de 2014. O post afirma que a denúncia é do WikiLeaks, “conhecido internacionalmente por divulgar na internet informações sigilosas”. Em seguida, diz que a Globo nega as acusações, e inclui um link para uma reportagem feita em 2013 pelo portal R7 sobre o caso.

Não há qualquer tipo de informação de contato do Movimento Brasil Consciente na página, que também está desabilitada para receber mensagens. Com isso, não foi possível questioná-los sobre o texto. Na versão que circula pelo WhatsApp, foram incluídas ainda as frases “Repassem aí. Quanto mais pessoas souberem disso, menos arrecadação a Globo vai ter”. Não é possível determinar quem fez essa modificação.

A acusação envolvendo a Globo e o Criança Esperança vem de uma interpretação errada de uma das mensagens do Cablegate, um megavazamento de 251.287 documentos das embaixadas dos Estados Unidos em todo o mundo feito pelo WikiLeaks no início da década – um dos maiores e mais significativos da história do jornalismo. A Agência Pública foi uma das parceiras na divulgação do conteúdo e fez várias reportagens sobre o tema.

Um dos textos, publicado em 30 de junho de 2011, fala sobre uma suspeita de desvio de verbas no escritório da Unesco em Brasília. Vários dos documentos da diplomacia americana discutiam esse tema. Um deles, de 15 de setembro de 2006, diz que um dos principais assuntos sendo analisados é o manejo feito pelo escritório do dinheiro arrecadado pela TV Globo para o Criança Esperança. Segundo o texto, teriam sido obtidos US$ 40 milhões ao longo de 20 anos, dos quais a Unesco teria ficado com 10%, por conta de uma “taxa de serviço”. Não há, contudo, nenhuma acusação de irregularidade.

A assessoria de imprensa da Globo foi procurada e enviou links para respostas preparadas para desmentir este e outros boatos. Um deles traz uma nota divulgada na página do Criança Esperança, na qual a Unesco afirma que todas as doações obtidas caem diretamente em uma conta administrada pela organização. Logo, é falsa a afirmação de que 90% dos recursos ficam com a Globo. Em nota publicada em reportagem do portal R7, a emissora diz que sua parceria com a Unesco começou apenas em 2004 – isso significa que não ocorre há 20 anos, como alega o texto da correspondência diplomática.

A Unesco também rebate outra acusação feita na corrente, sobre o uso do dinheiro para obter isenção no pagamento de impostos. “Por se tratar de uma agência das Nações Unidas, doações para a Unesco não são dedutíveis no Imposto de Renda, que veta supressão de contribuições feitas a organismos internacionais”, diz o texto. “Dessa forma, é inverídica a suposição de que a Globo obtém benefícios fiscais com a campanha Criança Esperança. A Globo, assim como a Unesco, não se beneficia de qualquer recurso de abatimento fiscal em função do Criança Esperança.”

O número citado na corrente sobre sonegação de impostos pela Globo também está errado. A empresa foi multada em R$ 274 milhões pela Receita Federal em 2006, por conta de manobras contábeis feitas na aquisição dos direitos da Copa do Mundo de 2002. Segundo documentos do processo, a Globo devia R$ 183 milhões ao Imposto de Renda. As duas quantias somam R$ 457 milhões que, corrigidos até dezembro de 2006 pelo IPCA, seriam equivalentes a R$ 608 milhões. O valor, portanto, inclui tanto o imposto devido – R$ 365 milhões, corrigidos até 2006 – como a multa – R$ 243 milhões, em 2006. Em nota, a Globo afirma que o processo já foi encerrado e o débito, pago.

Sobre o Truco

Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em http://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 96488-5119.

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