Buscar
Nota

Pressão: Indústria tabagista marca presença em audiência no Senado para liberar vapes

22 de maio de 2024
16:23
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Representantes da indústria do tabaco marcaram forte presença na audiência pública realizada no Senado, nesta terça-feira (21), para debater o projeto de lei (PL) que libera a produção e comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil, atualmente proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Especialistas da área de saúde e consumidores também opinaram sobre o PL dos vapes, o 5.008/23, da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS).

Entre as pessoas ouvidas na ocasião estava a ex-diretora da Anvisa Alessandra Bastos Soares, que agora atua como consultora de assuntos regulatórios e foi contratada pela BAT Brasil (British American Tobacco, ex-Souza Cruz) para pressionar a agência reguladora em que atuava com o objetivo de conseguir a liberação dos cigarros eletrônicos no país, como mostrou a Agência Pública

Soares defendeu que a regulação dos vapes é necessária para que o Brasil fique alinhado a outros países, como os Estados Unidos, o Canadá e a União Europeia, e que a medida teria impacto na segurança dos consumidores. “Se já foi criada uma forma menos arriscada de consumir a nicotina, por que nós não vamos oportunizar aos consumidores de nicotina, que são tabagistas, que sofrem, que veem os seus familiares adoecendo, acessar produtos seguros vigiados pela mesma Anvisa que regulamentou o cigarro?”, questionou. 

Um estudo da Universidade Johns Hopkins, já apresentado pela Pública, no entanto, mostra que há poucos dados sobre os riscos dos componentes químicos dos vapes. Os pesquisadores analisaram aerossóis de quatro marcas e encontraram centenas de produtos químicos não identificados e detectaram efeitos cardiovasculares de curto prazo pelo uso dos cigarros eletrônicos, como aumento da frequência cardíaca e rigidez arterial.

A audiência também contou com pessoas ligadas ao Diretório de Informações para Redução dos Danos do Tabagismo (Direta), associação pró-vape. Elas vestiam camisas azuis com frases como “Vape é 95% menos prejudicial à saúde que o tabaco” e lotaram a sala da audiência. O presidente do Direta, Alexandro Lucian, em defesa dos cigarros eletrônicos, chegou a dizer que o uso desses dispositivos “salvou” sua vida.

A Pública revelou que o Direta é parceiro da World Vapers Alliance (WVA), entidade criada pelo grupo Consumers Choice Center (CCC), voltado para o lobby e promoção de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs). A CCC foi financiada por empresas de tabaco, como a BTA, a Philip Morris e a Japan Tobacco International (JTI), mencionadas como financiadoras no site da organização.

A cardiologista Jaqueline Scholz, ouvida na audiência, refutou a ideia de que os vapes são menos prejudiciais à saúde. A especialista em tratamento de tabagismo mostrou casos de pacientes que apresentavam níveis elevados de dependência em nicotina mesmo com pouco tempo de uso dos DEFs.

O representante do Conselho Federal de Medicina (CFM), Alcindo Cerci Neto, ressaltou que o órgão é contra a liberação dos cigarros eletrônicos no Brasil e alertou que alguns impactos não estão sendo considerados na discussão. “O país ainda não está preparado para os dispositivos eletrônicos de fumar porque existe um impacto muito forte na saúde pública, nas doenças de médio e longo prazo, nos gastos do Sistema Único de Saúde. É um impacto que outros países que regularam e liberaram a venda desses produtos já estão enfrentando”, disse à Pública.

Senadores defendem regulação de vapes

A maior parte dos senadores que discursaram manifestou apoio à liberação dos vapes. “Quando as pessoas me afrontam dizendo que eu estou aqui fazendo lobby para a indústria do tabaco, de uma forma pejorativa, nas minhas costas, sabe como eu respondo? Eles [os contrários] fazem lobby para o crime organizado. E todas as portas do Congresso Nacional devem estar abertas para quem tem um CNPJ”, defendeu Thronicke. 

O senador Rodrigo Cunha (Podemos-AL) disse que o fato de a Anvisa ter mantido a proibição dos vapes, em abril, “reforçou algo que não deu certo” e declarou que o objetivo do projeto é proteger as pessoas. Já o senador e médico Dr. Hiran (PP-RR) afirmou ser contra os cigarros eletrônicos, mas a favor de regulamentá-los. “Não adianta a gente ficar fazendo aqui esse discurso de que ‘é uma indecência’, isso não gera nada. […] As pessoas vão continuar usando, vão continuar comprando. Então eu acho que tem que realmente haver uma regulamentação adequada, proibida para crianças”, argumentou. 

Os únicos senadores a defenderem a manutenção da proibição dos cigarros eletrônicos foram Zenaide Maia (PSD-RN) e Eduardo Girão (Novo-CE). 

O PL 5.008/23 tramita na Comissão de Assuntos Econômicos, sob relatoria do senador Eduardo Gomes (PL-TO). Se aprovado, ainda precisa passar pelas comissões de Assuntos Sociais e de Transparência, Fiscalização e Controle. A proposta tem caráter terminativo, ou seja, se for aprovada por todos os colegiados, vai direto para análise da Câmara dos Deputados sem a necessidade de votação no plenário do Senado.

Edição:

Notas mais recentes

Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS


Escala 6×1, PEC da Segurança, minerais raros: o que o Congresso pode votar durante eleição


Corrida eleitoral: registro de candidaturas termina nesta semana


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas
Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas
Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede
Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal