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Povo de Joinville (SC) pede cloroquina e prefeitura cria centro para juntar “quem quer prescrever” com “quem quer receber”

Segundo secretário de saúde, servidores chegaram a ser agredidos porque se negaram a prescrever remédio sem eficácia comprovada contra Covid; presidente de Sociedade Catarinense de Infectologia fala em “encruzilhada” criada por Ministério da Saúde

Reportagem
13 de outubro de 2020
12:08
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Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes/Agência Pública

Era sexta-feira, dia 2 de agosto, quando o motorista Rogério Selonke, de 42 anos, começou a ter dor de cabeça e febre. Ele é morador de Joinville, a cidade mais populosa de Santa Catarina, com 590 mil habitantes. No dia seguinte, Rogério decidiu correr à UPA perto de sua casa, na zona leste do município, para se consultar com um médico. Em plena pandemia, seu pensamento era só um: podia estar com Covid-19. 

No serviço de saúde municipal, recebeu ivermectina, dipirona e alguns outros remédios para mitigar os sintomas. Fez o teste para saber se tinha o coronavírus em um laboratório particular, e o resultado, que saiu dias depois, confirmou sua suspeita: tinha mesmo contraído a doença que parou o mundo em 2020. 

Embora estivesse tomando os medicamentos conforme o indicado, na quarta-feira – cinco dias após o primeiro sinal de que algo não ia bem –, seu estado piorou e ele voltou à UPA, dessa vez com o teste positivo em mãos. Chegou a ficar internado por algumas horas, recebendo oxigênio. “O médico disse que a minha sorte é que eu não fumo, então meu pulmão estava limpo. Como sou um pouco acima do peso, se eu fumasse, já iria complicar, porque a Covid-19 atacou diretamente o meu pulmão”, contou Rogério à Agência Pública.

Foi só então que, por prescrição médica, começou a tomar hidroxicloroquina ainda no serviço de saúde. Ele se lembra que, antes de iniciar a medicação, passou por alguns exames, como um eletrocardiograma. Saiu da UPA com comprimidos de hidroxicloroquina para mais alguns dias. Dois meses depois da crise, ele está bem, mas não totalmente recuperado. “Até hoje uso a bombinha, sinto muito cansaço, estou bem debilitado”, diz. “Faz duas semanas que voltei a trabalhar, mas ainda tenho tosse, sinto suadouro, fraqueza”.

Desde julho, pacientes com coronavírus como Rogério têm sido tratados com cloroquina na rede de saúde municipal de Joinville. O uso do remédio no combate à Covid-19 é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e outros políticos, mas é contestado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por entidades médicas nacionais. Uma delas, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), há meses atestou ser “urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada” no tratamento de qualquer fase da doença.

O protocolo de tratamento precoce da Covid-19 de Joinville é baseado nas diretrizes publicadas pelo Ministério da Saúde em 20 de maio. A nota informativa, que orienta a prescrição de cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina a pacientes no estágio inicial da doença, gerou intensos embates dentro do ministério – por causa dela, o médico Nelson Teich  renunciou ao cargo de ministro menos de um mês após assumir o posto.  

O prefeito de Joinville não é propriamente um apaixonado por cloroquina, nem virou garoto-propaganda do remédio. Porém, em julho, Udo Döhler (MDB-SC) disse à imprensa local que a oferta de cloroquina na rede municipal de saúde representou “um avanço”. Ele reconheceu que “não existe hoje nenhum medicamento ou vacina que combate o coronavírus”, mas afirmou que “temos a cloroquina à disposição e ela está sendo utilizada”. 

O prefeito Udo Döhler considera que o uso de cloroquina contra Covid-19 na rede municipal representa “um avanço”

No fim de seu segundo mandato à frente da prefeitura, Döhler não pode concorrer a uma nova reeleição, mas apoia o companheiro de partido e deputado estadual Fernando Krelling. Descendente de alemães e com 77 anos, o prefeito é proprietário de empresa que leva seu sobrenome, uma grande indústria têxtil produtora de artigos de cama, mesa, banho e decoração. Além daquela entrevista, Döhler não fez grandes defesas do uso da cloroquina contra a Covid-19.

Tudo em um lugar só: paciente, médico, cloroquina e exames

Ainda assim, mais recentemente, a prefeitura de Joinville avançou um passo na utilização da cloroquina: em 17 de agosto, inaugurou um “centro de tratamento precoce da Covid-19”. O espaço funciona junto a um centro de triagem criado meses antes para atender e testar pessoas com sintomas da doença. 

Quem quiser passar por uma consulta precisa marcar pelo site da prefeitura. Logo no início do processo de agendamento, a página avisa que o serviço é indicado apenas para quem apresenta “sintomas respiratórios” leves – nariz escorrendo, tosse, espirros, dor de cabeça, perda no olfato ou paladar e dor no corpo – há no máximo 14 dias. A prefeitura informa ainda que, no centro, não são distribuídos “kits Covid” como em outras cidades do país; mas os médicos podem, sim, prescrever cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina de acordo a avaliação de cada paciente.

No centro de tratamento precoce contra a Covid-19 em Joinville não tem “kit Covid”: médicos prescrevem cloroquina e azitromocina de acordo com cada paciente

Em entrevista logo antes da abertura do centro, o secretário municipal de saúde Jean Rodrigues da Silva afirmou que o principal objetivo do espaço é aproximar “quem quer prescrever de quem quer receber” cloroquina. 

Falando à Agência Pública, ele explicou que estava havendo “conflito” entre parte da população que queria tomar cloroquina e alguns médicos que se recusavam a receitar a droga para tratar ou prevenir Covid-19. “A medida é bem polêmica no meio médico. Num primeiro momento, tinha bem poucos profissionais querendo prescrever”, disse.

Mesmo depois que o uso do medicamento para esse fim foi formalmente autorizado na rede municipal de saúde em julho, o atrito continuou. “Teve um aumento de demanda na Ouvidoria [do município] e mesmo de agressão a servidores e profissionais [de saúde]”, narra. “O exame estava em um lugar, o médico em outro, o medicamento em outro, então a gente resolveu juntar os profissionais que queriam prescrever, os medicamentos e exames todos num lugar só. O centro de triagem veio no sentido de botar todos num ambiente só e facilitar o acesso.”

Portaria do Ministério da Saúde levou a uma “encruzilhada”

A preocupação com a automedicação também foi apontada por conselheiros municipais de saúde de Joinville, integrantes de uma comissão criada para acompanhar as políticas da prefeitura no combate à pandemia. “A população ficou encantada com a possibilidade de ter uma medicação que resolvesse os problemas frente a uma situação de pânico”, destacou um deles, o farmacêutico, pesquisador e professor da Univille Luciano Henrique Pinto. “A gente sabia da eficácia dúbia do medicamento, mas primamos pela questão da segurança, adotando protocolos para que não houvesse aquela questão da medicalização total.”

Além de perigosa para a saúde, a automedicação, segundo Pinto, se traduziu em uma corrida às farmácias de Joinville pela cloroquina no início da pandemia, o que acabou fazendo com que o medicamento faltasse para quem “realmente precisava” – os pacientes com lúpus e artrite reumatoide, por exemplo.

O médico Fábio Gaudenzi, presidente de Sociedade Catarinense de Infectologia, considera que o centro de Joinville é reflexo da “encruzilhada” em que o protocolo de tratamento precoce da Covid-19 do Ministério da Saúde colocou os prefeitos. “A autoridade nacional coloca um protocolo institucional, que será adotado na rede nacional de atenção primária. Ao mesmo tempo, as principais sociedades médicas e especialistas colocam que não há evidências científicas suficientes que sustentem essa decisão”, explica. “Normalmente, o ministério chamava essas entidades para organizar seus documentos técnicos, havia essa parceria. Mas houve uma ruptura.”

Gaudenzi diz entender a “comoção e pressão” das pessoas pela cloroquina, já que elas “veem políticos, o presidente da República e o governador do estado tomarem a medicação”. Mas ele critica os gestores municipais que, na sua avaliação, poderiam ter lidado de maneira diferente com esse dilema. 

“No âmbito do município – onde a situação realmente está acontecendo, onde as pessoas estão e temos o vírus circulando –, chegamos ao absurdo de criar um local para prescrever, mesmo que de maneira supervisionada, um medicamento que tem sim sua toxicidade, porque as pessoas querem tomá-lo, em vez da gente explicar adequadamente a elas os seus riscos e a ineficácias”, questiona. 

Flexibilização e cloroquina

Na época em que foi lançado o centro de tratamento precoce da Covid-19, a prefeitura de Joinville estava começando a flexibilizar o isolamento social na cidade em alguns aspectos. No dia 11 de agosto, um decreto aumentou o horário de funcionamento de bares e restaurantes; no dia 25 do mesmo mês, o transporte público, suspenso desde 20 de julho, foi liberado mediante medidas de higienização sanitária. Já em 4 de setembro, foi revogado o isolamento domiciliar obrigatório de idosos a partir de 60 anos – uma das medidas mais simbólicas da quarentena no município, que estava em vigência desde 25 de junho.

Na avaliação do cientista político Eduardo Guerini, professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a abertura do centro de tratamento precoce pode ser relacionada ao processo de retomada das atividades. “A inauguração do centro, em agosto, indicou a decisão política do prefeito Udo Döhler em reverter a crescente pressão de setores alinhados ao discurso presidencial”, assinala. “Isso colocou em evidência a visão do senso comum do cidadão médio que criticava o longo período de isolamento social e paralisação das atividades.”

Questionado pela Pública, o secretário Jean Rodrigues da Silva negou a ligação entre os dois fatos: “Não existe correlação nenhuma. A única coisa que pode ter acontecido é coincidência temporal”.

Até 8 de outubro, segundo o Ministério da Saúde, Joinville registrava taxas de 58 mortes e 3.887 casos de Covid-19 a cada 100 mil habitantes, superiores às de Florianópolis e Santa Catarina

Fábio Gaudenzi lembra que o afrouxamento do isolamento social em Joinville não se relaciona apenas a pressões políticas, mas às características da economia da cidade, na qual a indústria ainda tem peso importante – embora venha, nos últimos anos, perdendo espaço para o setor de serviços. Devido a essa característica, ele assinala que Joinville “teve dificuldade de manter as pessoas afastadas de suas atividades”. Até 8 de outubro, segundo o Ministério da Saúde, a cidade havia registrado 22,9 mil casos de Covid-19 e 345 mortes pela doença, com taxa de mortalidade de 58 óbitos por 100 mil habitantes – superior à de Santa Catarina, cujo índice é de 40 mortes por 100 mil habitantes.

Infografista: ,
Reprodução/Facebook
Divulgação/Prefeitura de Joinville
Bruno Fonseca/Agência Pública

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